Amor Eterno

Autor: José Kappel

Contato: www.kappel.com.br

Foi uma encrenca dos diabos que a vida e aquela mulher me meteram. Não sei como começou e nem sei se ainda terminou.
Sei que ela está viva porque notícias dela tenho a mil, e também de de seus filhos.
Não sei lá se tem netos.
Sei que teve o primeiro marido e largou e teve o segundo e também largou e parou no terceiro. Acho.
Virem-se os obstetras!
Para suportar minha vida na outra, espero, ansioso, que seja mais calma.
Tudo começou quando a encontrei sentada num pedaço de cimento, numa tarde de outono, largando pétulas de flores ao vento. Um lindeza que me fez vibrar até minha pecadora e impiedosa alma.
Estava dispersa até me ver. Eu com 18 e ela com 18 anos. Querem idade mais perfeita para deixar o coração se meter em encrencas de amor? Em balbúrdias coloquias?
Parecia bendita e talvez maldita. Mas era linda e seus olhos profundos, sua boca igual a maçãs virgens.
Sei que foi ali que tudo começou. Eu olhei prá ela, ela olhou prá mim. Nada mais ia terminar!
Estava marcado o enlevado encontro para a vida toda.
Impiedosa vida de alegrias pessoais, de desencontros totais de perdas e danos, sem costura e sem véu. Mas bela e sedosa, rosada e cálida.
Nos ncontrávamos sem mistérios durante quase um ano, sem ninguém ligar, sem ninguém dar palpites. Nem havia fofocas nos salões de beleza!
Ela aqui e eu aqui. Assim tudo começou. Como começa todos os dias com alguém.
Só que comigo foi diferente, quando a história começou a mudar.
Sofri o diabo.
Primeiro ela era noiva e vivia comigo mas tinha um noivo e enganava com ele.
Depois ela casou com o noivo passou a lua-de-mel com ele, mas deixou seu coração comigo.
Fui a seu casamento e ela teve tempo de deixar no meu bolso um bilhete: "Te amo eternamente". E foi prá cama com o cara.
Sumiu dois meses. Apareceu grávida, cinco mseses depois. Era um filho que nasceu filha.
Enquanto isso, ela resolveu voltar comigo. Não podi viver sem mim e eu sem ela.
Passamos a nos encontrar e namorar.
Eu já nem ligava para outra mulher. Amava aquela deusa tanto que de mais nada queria saber.
Foi brabo! Foi dos diabos!
Coisinha encrencada essa coisa de amor, de mulher que agarra o espírito da gente e tudo combina. dentro do desespero a luz aparece!
Dá agonia, dá tremor, da sensação estranha. A gente vê estrelas em pleno dia!
E assim passaram-se alguns anos.
Ela de dia passava comigo e à noite dormia com o marido.
Então ela voltou a ficar grávida. Minha culpa não era, com ela só brabeira de amor platônico, de fundição de almas e redemoinhos de conversas que atravessavam um dia inteiro. No amor de carne nem pensar!
Nasceu outro filho, que na verdade, era a segunda filha.
A primeira tinha 8 anos, o marido dentuço tinha 41 eu tinha 25 e ela 25. E o filho dela 6 meses.
Um dia ela me anunciou solenemente que queria viver comigo e não podia. Tinha medo. O marido bebia e batia muito nela.
Resolvi tirar satisfação com o marido. De bobo, não tinha nada: tomei meia-garrafa de uísque Jack Daniel's e fui lá na casa dela.
Quando ela me viu começou a gritar o marido, já bêbado, nem falou nada voou em cima de mim, o cara já sabia da trama de amor eterno.
Besteira minha. Dei um tapa no vento e ele um safanão na minha cara.
A mulher que eu amava, encostou-se num canto e começou a gritar. Apareceu a filha dela e começou a gritar.
A vizinha veio à janela e todos começaram a gritar.
Eu ainda refestelado no chão.
Chamaram a polícia. Eu mal me aguentava em pé não só pelo soco como pela bebida. Ele também bêbado, quis bater na polícia.
Eu corri lá e me atraquei com ele. O policia pensou que era nova briga, que eu tinha entrado na briga e veio outro policial e entrou no meio e foi todo mundo pro chão.
Naquela noite dormimos na polícia. Eu de um lado e ele de outro. Depois daquele dia nunca mais vi o marido de minha amada.
Ele arrumou outra mulher e eu ainda solteiro aproveitava e encontrava com ela todos os dias. Juras contínuas de amor eterno era lugar-comum.
Ela queria que eu fosse morar com ela. Mas eu não podia, como ia largar minha mulher? Ah! já tinha casado, com uma linda moça de 23 anos que só pensava em sexo o dia inteiro.
Eu tinha uma filha de 6 anos. Mas a mulher, não amava aquela mulher, amava a outra. A do amor eterno!
Um dia à noite, no quarto, cortamos os pulsos, levemente, até jorrar um filete de sangue. Enlaçamos nossos pulsos e juramos que viveríamos a vida inteira assim.Amantes gêmeos e eternos.
Só que eu cortei o meu pulso com força demias e precisei de ir até a farmácia para fazer um curativo. Desmaiado.
A partir dai nós nunca mais nos esqueceriamos um do outro.
Ela já tinha duas filhas e eu uma filha.
Andava desconfiado de minha mulher fogosa. Quase toda noite ela ia para uma reunião de costura.
Eu não ligava muito, pois enquanto ela ia costurar eu ia encontrar minha amada.
Tínhamos uma babá que cuidava das coisas da casa e da criança.
Um dia minha mulher chegou em casa e disse que estava esperando outro filho.
Eu logo desconfiei que o filho não era meu. tinha certeza, o homem sabe quando a coisa funciona.
Enquanto isso minha amada me chamou e disse que um vizinho antigo seu a chamou para morar com ele. Ela se sentia sozinha e ele, viúvo também, mas sozinho.
Felizes dos sozinhos! Sempre arrumam companhia!
E foram os dois viverem juntos. Ele já tinha um filho de 18 anos.
E com essa enlação dupla passamos a nos amar mais.
Um dia inteiro não dava.
Nós amámos tão intensamente, agora num motel, que o mundo era pequeno para nós dois. Nós dois sempre com a cicatriz nos pulsos. juras de meu amor eternizado.
Tive uma filha e minha mulher recebeu tanta visita no hospital que não dava para desconfiar de quem era o filho que devia ser meu. Muito homem veio abraçá-la e achar o bebe com a cara do papai.Uma graça - diziam todos.
O quarto se encheu de flores. Abracei e acariciei minha mulher como se amasse muito. Vi meu filho no berçário e não tinha parecido comigo.
Tinha agora dois filho, minha amada também dois.
Um belo dia, depois que uns anos se passaram, conversando no motel ela me disse que ia largar seu atual homem.
Encarei com naturalidade, afinal ele bebia muito e batia nos dois: no filho e nela.
Um dia, raivoso e masculinizado até a proa, cerquei aquele homem numa esquina. Quando ele me viu saiu correndo atrás de mim com um pedaço de pau.
Sem ser herói, corri tanto que fui parar de novo numa farmácia para tomar um calmante. Tremendo de amor e medo.
Ela acabou largando ele e eu também nunca mais vi. Dizem que ele morreu numa briga, esfaqueado, e o filho começou a entrar em drogas e roubos e acabou preso. É o que eu sei.
Ela voltou a antiga casa, que estava alugada, e passou novamente a viver sozinha, mas encontrando-se comigo todas as noites.
Foi ai que minha mulher abriu o jogo e disse que sabia desde o início que eu tinha uma amante. Estava aprontando a coisa para me largar! Eu disse que éramos apenas colegas.
Puta que pariu de colega! Esbravejou ela.
Pegou os filhos e foi morar com a mãe e levando meu filho. Passei a morar sozinho.
Enquanto isso minha amada me anunciou um dia que conheçara outro homem e estava disposta a viver com ele.
Aleguei que, pela primeira vez na vida, estávamos sozinho e livres de todos.
Ela alegou a educação dos filhos, dizendo que o novo amante era dono de um colégio e assim seus filhos não pagariam mensalidade.
Compreendi. Sabia que ela me amava perdidamente.
Passou ela a viver com tal homem e eu sozinho.
Até que conheci outra mulher de uns 35 anos e passamos a viver juntos.
Minha amada quando soube virou bicho e quis até invandir minha casa para acertar as ontas com aquela "vagabunda".
Pela primeira vez ela se mostrou ciumenta em público.
Alegou que não haveria quebra de amor eterno pois, como já disse, tínhamos um pacto de sangue.
Tirei essa idéia da cebeça dela.
Ela estava preocupada com os filhos pois o dono do colégio era conhecido como cornudo ativo e seu filhos poderiam saber, já que a cidade era pequena.
Duplicidade sim, pois apesar de ela viver com um professor eu vivia com uma bancária, que sempre que sonhava sussurava "Obrigado Sr".
Ä situação parecia ter se acalmado. Tive um filho com a bancária e minha amada teve um filho com o professor.
O tempo, algures, passava.
Eu toda noite encontra com ela deixando o mundo rodar, amando loucamente aquele pedaço de espírito onde o tempo parecia não se mover tamanha a grandeza de nosso amor.
Assim o tempo passou. Mas fomos nos distaciando.
A bancária me largou e se juntou com o gerente do banco.
Sentia que meu amor eterno se distaciava de mima a cada dia, apesar de manter silêncio.
Um dia, ela me chamou e disse que em nome de seus filhos e dos meus, não poderia viver assim.
Eu tentei justificar nosso amor eterno. Ela disse que o amor eterno continuaria mas não poderíamos mais se encontrar assim.
De raiva tomada, tomei uma garrafa inteira de uísque e fui no colégio onde o tal professor dava aula.
O porteiro não me deixou entrar, pois disse que eu estava embriagado.
Me fuzilei em cima do porteiro. Apareceu a mulher do porteiro e começou a gritar, apareceram os alunos atraídos pelo alarido e todos começaram a gritar. Vieram os profesores e começaram a gritar!
Foi um pandemônio!
Apareceu o diretor da escola que logo chamou a polícia. O porteiro tinha um corpo avantajado que logo me arrimou na primeira socada.
Apareceu outros dois corpulentos policiais que me agarraram, me encostaram no carro deles e mandou por as mãos no capô e que eu abrisse as pernas. Igual a filme policial. Ouvi as algemas rangerem.
Embriagado e com raiva, me atraquei com o policial e a desvantagem veio logo: tomei uma violento surrupapo na cara que só fui acordar no ambulatório com a cara inchada.
Houwe inquérito, essas coisas, e o juiz, em vez de me prender, mandou eu fazer um trabalho comunitário: limpar o pátio da escola do escárnio do professor durante dois meses.
Então, todas as tardes, lá ia eu de vassoura na mão, varrendo aquela poeira, enquanto lá em cima o professor ria de escrachar, sem saber logicamente que eu vivia e comia a mulher dele. Não contei, mas quando acabou parte do amor platônico, passamos a viver um pouco da carne e da luxúria.
Ela acabou mudando de cidade e dela não tive mais notícias de corpo à corpo.
Apenas ela me enviava pelo correio fotografias de sua família, de suas filhas moças lindas de morrer, me mandava poemas, me mandava tiaras de sua roupas, pétalas esquecidas de flores.
Vinham também a foto de um belo menino de seus 10 anos que eu nunca fui saber quem era e ela nunca tocou em seu nome. Mas ele me lembrava alguém!
Assim se passaram 40 longos anos. Hoje, aos 50 anos, vou a missa todos os dias pedindo a Deus que ela volte, ou que o marido dela morra, ou que os alunos resolvam matar à pauladas aquele professor.
Hoje sou um solitário que vivo aposentado com a casa cheia de fotos, flores, roupas, calcinhas, sutians, vestidos, perfumes e garrafas de bebidas. E tudo que se possa imaginar e que se possa enviar pelo correio para seu amor eterno.
Haja vida! Haja amor eterno!
Mas desconfio que essa história ainda não acabou, pois outro dia recebi pelo correio uma aliança gravada com o nome do professor. E de quem seria aquela foto, sem nome, do garoto, que aparecia em toda correspondência?
Tenho lá desconfianças, pois haja vida, haja amor-eterno!

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