S

A
A L A D E L E I T U R
HOME PAGE
ESCRITORES
PROFESSOR VIRTUAL
TESTES EDUCATIVOS
JOGOS LITERÁRIOS
SOB ENCOMENDA
SALA DE LEITURA
BUSCA LITERÁRIA
SEBO DA CULTURA

SALA DE LEITURA
ARTIGOS AUTO AJUDA CINEMA CONTOS CRÔNICAS ESOTÉRICO EXPRESSÕES
E-ZINE INFANTIL MEDITAÇÃO NOVELA POESIA PROVÉRBIOS TEATRO

Terapia de cais...

Autor: Ivan Antunes Martins

Aquela noite não tinha inspiração alguma. Precisava dar uma volta, espairecer, esfriar a cabeça, tentar arranjar os seus neurônios, os poucos neurônios que ainda tinha sob resguardo.
Andou a esmo pela rua. Atravessou a Praça da Alfândega e, caminhando sempre, foi dar no cais. Atravessou o grande portão e olhou para o rio. No horizonte ainda se podia ver resquícios do pôr do sol: riscas de vermelho, lilás e laranja, lutando contra a escuridão da noite que invadia a cidade. Era o grito sufocado do dia que se esvaía...
Seguiu pela borda do cais, entre guindastes enormes e assustadores. Silhuetas de gigantes imaginários. Caixas e sacos empilhados frente aos armazéns. A paisagem do rio às vezes era interrompida por um enorme navio atracado. Mancha escura pontilhada, aqui e ali, de janelinhas amareladas por luzes fracas. Um ou outro marujo subia ou descia a rampa de acesso dos navios.
- Oi gato! Vamos dar uma voltinha?
- Hein? Não, garota. Não estou para programas hoje.
- Algum problema cara? Se tá com algum grilo na cabeça o melhor remédio é tomar um chope em boa companhia...
Ele sorriu da simplicidade da sua técnica de caça.
- Não obrigado.
- Um chopinho só. Você vai ver como vai melhorar em seguida. Eu conheço um barzinho bem discreto. Vamos?
Ele olhou para a garota com ternura. Era jovem, bonita e não tinha a aparência de uma garota de programa. Seus dentes alvos e parelhos lhe emprestavam um sorriso lindo, cheio de vida.
- Então? Não se decidiu ainda?
- OK, vamos.
No barzinho, pequeno e bem decorado, os dois se sentaram a uma mesa, num canto. E ficaram calados na frente dos copos de chope recém servidos, com sua espuma branca coroando o líquido dourado. Havia música baixinho, tocando bossa nova.
- Como é o teu nome? - perguntou ele.
- Vanessa. Vaninha, como costumam me chamar. Porque eu sou baixinha sabe? Do tipo mignon...
- É, estou vendo...
- Qual é o teu grilo gato? Conta pra mim. Sabe, a gente desabafando sempre melhora.
Ele sorriu de novo. Achou graça da garota querer ajudá-lo, assim, prestando-se a ouvir as suas mazelas.
- Não vale a pena. Você vai se aborrecer e nós não viemos aqui para isso.
- E então o que é que a gente veio fazer aqui?
- Viemos tomar chope. Não foi pra isso que você me convidou?
- Pra tomar chope e conversar. Eu vi que você estava chateado e precisava bater um papo descontraído. Notei que você está meio deprimido.
Ele se admirou da forma em que ela falava, utilizando-se de termos como deprimido.
- É isso mesmo. Acho que estou muito deprimido e não é de hoje, faz muito tempo que me sinto assim...
- Se você fizer uma auto análise você acaba descobrindo qual o motivo de sua depressão.
- Auto análise? – estranhou de novo o vocabulário – O que é isso Vanessa? – perguntou só para testá-la.
A garota tomou um gole de chope. Limpou o excesso de espuma nos lábios com a língua, sorrindo como se desculpando do gesto meio maroto. E perguntou com naturalidade:
- Cara, você nunca fez análise com um terapeuta qualquer?
- Não. Você já fez?
- Já, muitas vezes. Sabe? Hoje em dia todo mundo precisa fazer terapia. Os tempos andam tão loucos! Ninguém respeita ninguém. Todo mundo só pensa em foder o outro. Em levar vantagem. É o que se tem chamado de lei de Gerson, não é mesmo?
- Lei de Gerson? O que é isso?
- Você não vê televisão? Um comercial onde aparecia um jogador da seleção brasileira, um cara famoso, o tal de Gerson. Ele dizia: gosto de levar vantagem em tudo, etc. e tal...E daí pegou a história da lei de Gerson. Olha, esse comercial passou há muito tempo na TV, é possível que você não se lembre mais.
- Não sou muito ligado em anúncios de televisão. Em geral eu baixo o volume na hora dos comerciais.
- É, tem cada anúncio que é um pé no saco... Mas tem alguns bonitos, sabe? Muito criativos, verdadeiras obras de arte! Puxa, cara! Agora que eu estou me lembrando, você não me disse o teu nome.
- Agamênon.
- Quê? Agá o quê?
- Aga-mê-non!
- Santa Bárbara! Que nome!
- É um deus grego.
- Ah! Tirado da mitologia grega, é isso?
- Isso mesmo, mas, por favor, me chame de Mena, como todo mundo que me conhece. Agamênon não dá...
Ela começou a rir.
- Mena? Será melhor que Agamênon? Mena não é nome de mulher? Tinha uma velha numa pensão onde eu morei que se chamava dona Mena.
Agora foi ele que começou a rir.
- Você sabe que eu não tinha me dado conta disso? Desde pequeno me chamam assim...
- Ah, você finalmente liberou um sorriso. Solta outro. Você deve ter uma porção deles presos nos teus lábios. E olha que são sorrisos tão lindos! Eu se fosse você ficava sorrindo o tempo todo. Garanto que as gurias iam cair em cima.
Mena ficou olhando para Vaninha, impressionado com aquela garota de programa, tal a sua versatilidade para manter uma conversa com um cara chato como ele. A garota tanto fizera que ele acabou descontraído mesmo. Mandou buscar mais chope e ficou prestando atenção na música que tocava ao fundo, uma bossa nova clássica. E começou a cantarolar baixinho:
- Olha que coisa mais linda, mais cheia de graça...
- Que vem e que passa... - Continuou ela, se requebrando na cadeira – Viu cara, você até já está cantando! Onde é que está a sua depressão?
- Por enquanto, parece que sumiu. Mas tenho a certeza de que amanhã de manhã ela está de volta mais torturante do que nunca.
Vanessa arregalou os olhos e levantou as sobrancelhas, fazendo um gesto que parecia dizer, bah, esse cara é difícil mesmo! E resolveu ir a fundo.
- Mena, – riu ao falar o nome dele – qual é a tua atividade profissional, o que é que você faz na vida?
- Acho que posso dizer que estou tentando ser um escritor de ficção, um contista ou romancista talvez, um dia num futuro distante...
- Ora veja. Um romancista! Que bacana!
- E o que é que você está escrevendo agora?
- Nada.
- Nada? Por quê?
- Por absoluta falta de inspiração.
Vanessa pensou um pouco antes de perguntar se não era justamente por não ter inspiração que ele estava em estado depressivo. Ele disse que, ao contrário, não tinha inspiração porque estava em depressão!
- Se a falta de inspiração não é a causa da depressão, então precisamos pesquisar mais a fundo. Você é casado?
- Sou.
- E se dá bem com a sua mulher?
- Mais ou menos...
- Bingo! É isso cara. Aliás a maioria dos motivos de depressão ou é falta de dinheiro, ou falta de amor.
Mena ficou outra vez espantado com o desembaraço da garota e a maneira como ela falava.
- Bem – disse ele, querendo corrigir – com "mais ou menos" eu quero dizer que nossa relação pode não ser das melhores mas é uma coisa boa, muito boa mesmo, às vezes.
- Às vezes? Às vezes quando? Na cama?
- Não, não é exatamente da cama.
- Então me diga: quando é que você se sente bem com a sua mulher?
- Quando a gente vai ao cinema ou teatro. Somos sensíveis, nos emocionamos com as mesmas cenas e, geralmente, pinta sexo, na volta. E também em matéria de gosto literário. Combinamos muito. Aliás acho que isso foi o que nos uniu definitivamente, quando começamos.
Então sua mulher é uma boa companheira para diversões intelectuais, concluiu Vanessa, consigo mesmo. Ele casou com uma mulher que combinava com ele quanto ao gosto de determinados livros, filmes e peças de teatro. Interssante.
- Me diga uma coisa, Mena – riu, ria sempre quando falava "Mena" – ela gosta da literatura que você faz?
Ele hesitou um pouco.
- Não, acho que não gosta muito. Pelo menos não mostra muito interesse por aquilo que eu escrevo.
- Bingo, outra vez! Cara, essa é a razão maior do teu estado depressivo. Você gostaria que sua mulher estivesse a seu lado, lendo tudo o que você escreve. Dando opiniões para que você se sentisse mais seguro ao mandar para a editora os seus trabalhos.
- Garota, você devia deixar essa vida e estudar. Você é muito inteligente!
Conversaram mais um pouco e então ele disse, um tanto timidamente:
- Acho que bebemos chope suficiente. Melhor parar. E agora? Para onde vamos?
- Não sei, não tenho muito tempo para ficar com você, tenho compromissos...
- Ele lhe deu um beijo na boca, de repente. Que tal a gente ir para um motel?
- Um motel? Assim, de cara? Não Mena, nunca transo com um namorado sem conhecê-lo bem antes.
- Ué, você não é uma garota de programa?
- Bah, cara o que é que fez você pensar nisso?
- Ora, não te encontrei passeando no cais?
- E uma garota comum não pode passear no cais, num fim de tarde?
- Sim, mas você me convidou para fazer um programa.
- Não. E eu convidei para dar um voltinha. Convidei porque achei você um gato, aliás um gato triste, precisando de uma terapia...
Mena se sentiu no chão. Que mico! Preconceito claro. Ele achava que qualquer mulher que a gente encontrasse, passeando sozinha no cais, era uma prostituta. Não lhe passou pela cabeça que poderia ser uma garota sensível, que gostasse de assistir um pôr-de-sol. E ali, no centro da cidade, o melhor local seria mesmo à beira do cais.
- Desculpe Mena, tenho de me mandar. Me leva até a estação do trensurb? Preciso me mandar para a faculdade. Tenho uma prova na Psicologia, agora, às nove e trinta...

Contato: ivanmar@terra.com.br

conto anterior

Conto anterior

          

Próximo conto

próximo conto