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Deus, mau pai, meu amigo!

Autor: Ermitão da Picinguaba

A tarde veio chegando e uma brisa suave fazia com que os pinheiros e toda a vegetação à volta da fazenda pareciam ensaiar uma sinfonia eterna com instrumentos naturais de sopro e percussão, muito suaves, muito harmónicos, o que de uma certa maneira dava um ar de tranquilidade intensa como as que normalmente aconteciam pelos lados do Santo da Serra, local onde se situa nossa casa de montanha. O sitio que escolhemos para ir viver lembrava um conto que eu escrevera quando vivia entre a Amazônia e o Pantanal Mato-Grossense.
Muita vegetação, estrada de terra, água em abundância, montanhas e vales, as ribeiras percorriam de Norte a sul da Ilha da Madeira, terra Natal da minha amada.
Aos poucos fomos construindo nosso ranchinho e também aos poucos fomos transferindo o que tínhamos no Brasil para a Madeira., algo eu sabia que nunca iria conseguir transferir... mesmo tendo geneticamente raízes Lusitanas e sabendo que reencontrara uma parte do epicentro de Atlantida.
As mudanças quando em viagens de férias ou mesmo de trabalho sempre nos levam a lugares sazonais que marcam nossa vida de alguma maneira mas, assim como entram em nossas vidas, fluem aos poucos deixando alguma saudade quando lembrados pelo que nos propuseram, ou aos nossos sentidos.
Mudar definitivamente para um lugar nunca foi a nossa intenção, no entanto apercebíamos que aos poucos íamos criando raízes muito mais fortes das que tivéramos no passado em todos os locais por onde passamos, locais que a mim marcaram muito como Picinguaba, uma praia paradisíaca para onde fui passar um fim de semana e lá fiquei muitos meses, totalizando quase 3 anos.
Em Picinguaba a sintonia entre o ser humano que sou e o espírito que alimenta este mesmo ser humano em uníssono com a natureza e o Cosmo foi intensa e muito forte, se calhar porque consegui me despir da vestimenta urbana e humana para vestir-me com a vestimenta cósmica ... graças á ajuda dos índios Tupy Guaranis e de toda a natureza que ali existe, a qual permite a decomposição dos corpos e sua simultânea reintegração no espaço tempo universal.
Depois da Picinguaba, vivemos 5 anos na Amazônia em meio à sua exuberância de flora e de fauna, além das tribos ainda primitivas que conhecemos. Todas estas experiências nos deixaram muitas recordações e enriqueceram em muito nossas histórias e nossas vidas.
Creio que esta riqueza é a maior que o Criador pode dar ao SER HUMANO... pena que nem todos a podem sentir, talvez por uma frase que está muito na Bíblia e foi dita por Jesus: "Abandona tudo o que tens e segue-me!"
É verdade! Nem todos têm a coragem de abandonar seja o que for e seguir-se a si próprio na senda que Deus escolheu para sua existência.
O Pantanal, nem se fala! Um Santuário e está tudo dito! Era o Mar dos Xaraés que assim era chamado pelos Xavantes uma tribo que ainda vive nas regiões mais baixas do Mato Grosso... no livro "O Planeta Exterminador" conseguimos colocar "imagens" textuais do Pantanal, imagens estas que ficaram bem vincadas em nosso SER.
Da minha infância recordo-me de Cabreuva, Valinhos e Tremembé, locais onde a Maria Fumaça , o rio Tietê com suas águas ainda límpidas, os balões e as fogueiras das Festas Juninas, os cães e animais de estimação como meu cão Coringa, meu cavalo , Sereno , minha égua Neblina a gata Menina e o gato Zé, passaram a ser eternos na minha existência, são eles sempre os personagens mais fortes das histórias que meu ser capta e escreve na vida real e cósmica. Aliás o nome dos meus amigos do reino animal são sempre os mesmos... como se eles também renascessem... e viessem ao nosso encontro.
O estudo do esoterismo permitiu-me compreender por qual motivo Deus abençoou os que crêem e é tão fácil crer quando estamos em sintonia com a Criação, a Natureza e o Criador; Ele será sempre o personagem principal dos meus livros e das nossas vivências transformadas em livros e é a Ele que dedico este que se chama:
"Deus meu Pai, meu Amigo!"
- Naquela tarde, acabara de preparar todo o paiol onde ficavam as ferramentas a charrete, o feno, o milho... quando ouvi um ruído trazido pelo vento ao dirigir-me em direcção à nossa varanda... a casa era um chalé em estilo de montanha, quase toda feita em madeira rústica, a varanda onde nos sentávamos para ver o por do Sol ou para conversarmos, ficava de frente para uma vasta extensão de pinheiros e acácias com uma vegetação que lembrava algum lugar florido que nunca eu definira qual...apenas sabia que ele existia e lá eu existira...
- Aos poucos fui me aproximando da varanda, atento ao ruído característico da chegada DELE... sentei-me na cadeira de balanço, respirei suavemente pelas duas narinas , fechei os olhos e senti a Sua chegada, como sempre Ele chegara... ao abrir os olhos apercebi-me que a outra cadeira, aparentemente vazia também balançava... sorri em silêncio e admirei-O... como era possível eu ser merecedor daquela visita? Isto eu perguntara duas vezes no passado até que na terceira em Seu modo de se comunicar Ele dissera: "Não se questione mais! "...aceitei aquele ensinamento; sempre que alguém com quem estou me comunicando, se eu perceber estar na sintonia que estou quando estou com Ele, e se este alguém, por motivos humanos não compreender seja o que fôr a respeito da Divindade que nos habita e do mundo ao nosso redor , eu, para ajudar esta pessoa , digo:"Não se questione, agradeça!"
- Dona Silvana, nossa grande companheira Africana desde a nossa União, sempre que Ele chegava vinha até à varanda e silenciosamente servia o chá, as bolachas feitas por ela e a água fresca... assim como chegava à varanda, saía silenciosa e respeitosamente, no entanto ela como Africana que era via muito mais do que nós todos lá de casa... era curiosa a forma como a nossa vida foi se fundindo e se entrelaçando... como uma toalha da Ilha da Madeira, muito bem bordada com a energia certa no ponto certo... com a energia certa... Ele saboreava os quitutes e com Seu olhar profundo agradecia em especial a Água fresca e purificadora... ficávamos ali um tempo sem fim, até que Ele decidia ir-se em direcção ao Sempre...
- Como em um sonho, eu despertava daqueles momentos sublimes e percebia que Coringa o nosso fiel Cão estava mesmo ao meu lado adormecido e sonhando... talvez com sua amada Diana... ou com Ele... a Paz e a Harmonia daqueles momentos é que me fizeram entender o quanto precisava registra-los para que um dia alguém soubesse da maneira como Ele de facto É... da maneira como Ele age para retribuir o pouco que lhe dedicamos, e o muito que Ele nos oferece sempre... enfim, ali renasceu o escritor, o Ser que habita o meu Ser e que necessita dizer, falar, mostrar, sem alarde, sem energias materiais, que nada mais são do que a somatória da energia primeira e cósmica; apenas com um sentido que é invisível aos olhos e sublime para o nosso coração.
- Você chegou até à varanda e trouxe-me o manto de lã para cobrir minhas pernas, sentou-se na cadeira onde Ele havia estado e aos poucos foi tricotando um pullóver que estava fazendo para o nosso netinho...
- Quantos anos se passaram e eu nem me apercebera que a vida havia sido tão longa e ao mesmo tempo tão curta... como um piscar de olhos estávamos já beirando os sessenta anos... e por incrível que pudesse parecer sentia-me um jovem... exactamente igual àquele que apanhava carona na maria fumaça em Tremembé só para ir até o Horto Florestal visitar a Floresta... local onde me transportava para Urânia o Planeta Horto de onde eu tinha certeza que havia vindo... e onde eu a conhecera pela primeira vez... desde o dia em que Eolo e Druza se cruzaram na esquina da existência .Desde o momento em que Druza chorara criando com suas lágrimas: Caciopéia, nós dois nunca mais iríamos viver distantes um do outro... poderíamos estar distantes... mas nunca mais nos afastaríamos no sentido do maior sentir... sente... ir.
- Coringa deu um suspiro e lembrei-me das "caçadas" que fazíamos pela floresta, ele ganindo ao sentir a presença de um coelho ou de um animal maior, iniciávamos uma perseguição que parecia nunca mais ter fim, até o momento em que após saltar, ladrar, correr, uivar, estatelar-se em um baixio e logo depois recuperar-se reiniciando a perseguição à presa que; fôsse o que fôsse tinha mesmo que dar nas patas, senão... atrás dele seguia eu com a minha juventude e saúde física... além da satisfação que tinha em segui-lo por entre os vales e montanhas que a natureza nos propiciava... quem nos via sempre nos seguia e participava das "caçadas" ou então nos estimulava a continuar... até o momento em que Coringa com seu dorso negro transpirando, as três patas muito bem assentes no chão acuava a caça e ali ficava esperando que eu chegasse, neste momento ele olhava sem perder a caça de vista como se perguntasse o que iríamos fazer... eu sorria e dizia: "Deixe-a partir que amanhã começaremos tudo de novo!"... e Coringa relaxava a guarda, permitindo que a caça partisse em segurança...
- Aquilo tudo fazia parte de uma certa cartaze que nos alimentava de energia o corpo e limpava-nos dos excessos que o dia a dia nos trazia para nossas vidas humanas... ao mesmo tempo, após toda esta correria e exercícios, sentíamos como se renascêssemos para uma Nova Vida.
- Acariciei com meus dedos já enrugados o pelo também já envelhecido do Fiel Amigo do Sempre... se ele renascera e fora o primeiro... não importava, o que importava é que o sentimento era o mesmo sempre... afinal ele também nunca demonstrou se tinha dúvidas sobre a minha reencarnação e todas as vezes em que o "Coringa" vinha Ter a mm, era como se nos reencontrássemos novamente, tivesse ele um mês de vida ou estivesse abandonado pelas ruas de uma cidade, como ocorreu quando eu estava escrevendo "O Planeta Exterminador"; em forma de uma peça de teatro e precisava de um cão para fazer o papel de Coringa... tão logo saí à janela ele estava sentado do outro lado da rua a olhar-me como se estivesse dizendo: "Você me chamou?"... entrou em casa e nunca mais nos abandonou... era engraçada a forma que ele tinha de defende-la quando você saía com ele para ir à compras ou a passear... você mesmo comentava que ele tinha um lado muito parecido com o meu... pois É o Coringa Era o Coringa Sempre! E Nós somos nós Sempre!
- Lembro-me também quando íamos à pequena vila próxima da fazenda e ao preparar a charrete com Sereno... Coringa imediatamente ali se aboletava ...Neblina ao partirmos serpenteando a cerca, pela estradinha de terra ia acompanhando nosso percurso e relinchava como se já sentisse saudades de Sereno... Coringa enfiava-se entre nós os dois como se a dizer que Sereno tinha que ir mais devagar... até que chegávamos à vila... e ele saltava da charrete correndo em direcção da adega onde ficava Diana, sua amada... eu ia ao ferreiro ver o que poderia encomendar para acertar os arados e a charrete, você ia ao empório e aproveitava para conversar com suas amigas... depois eu passava no barbeiro e pedia para dar um trato na velha barba... até o momento da partida quando então recolhíamos as compras e tudo o mais na charrete e assobiávamos chamando Coringa que vinha acompanhado de Diana com um ar de quem perdeu a calda... a despedida era uma tristeza que nos comovia pois ela nos acompanhava ao lado da charrete e ele latia sem parar... ao vermos a cena, uma lágrima corria pelo meu rosto e caia sobre a sua mão... que agarrara a minha... Coringa então metia-se entre nós e era tudo muito emocionante e forte... o amor universal é assim, atinge a todos seres... do Universo... e comove...
- Naquela semana, ao final do Sábado, estava cochilando na cadeira em frente à lareira, quando ouvi o ruído de carros se aproximando, Dona Silvana saiu da cozinha e dirigiu-se à varanda, dizendo: "São meus fiuuiiiuus... são meus fiiiiiuuiiiuus..."
- Eram nossos filhos e netos que estavam chegando... você desceu do sótão onde preparava um dos quadros que estava pintando e com as mãos ainda sujas de tinta e um pincel na mão foi receber a rapaziada...
- Eu aos poucos fui me apercebendo de tudo, acendi o cachimbo... percebi que o fumo já estava muito passado, deixei-o de lado, fui até à varanda e já estavam todos ao seu redor contando as novidades, numa euforia como se não nos víssemos há séculos... é curioso isto no seio familiar, ficamos algum tempo sem nos ver e parece que passaram séculos... quando nos habituamos a estar juntos parece que temos muito medo de nos separar novamente... como se o cordão que nos liga universalmente fosse exactamente igual ao cordão umbilical...
- Após os cumprimentos e a alegria em ver nossos filhos e netos, entrei para a sala onde nosso filho já se habituara a chegar, sentar-se e começar a comentar sobre a sua vida... os negócios... as pesquisas sobre a vida no Mar e nas florestas, temas que ele adorava e curtia como um Hobby existencial... nossa filha subia com você ao sótão e Dona Silvana para variar estava lá na cozinha preparando alguma coisa com nossos netinhos... acendi um novo cachimbo, ofereci um licor ao nosso filho e ficamos em longa conversa... até que foi servido o jantar... nosso neto em meu colo... de repente, charpinhou a sopa... você olhou para o velho colete verde e vermelho à escocesa e sorriu... lembranças emocionaram-me e uma lágrima veio cair sobre o cabelo negro do netinho... sorvi-a com os lábios e aproveitei para beija-lo na cabeça... ele continuou como se nada estivesse acontecendo... e o jantar em alegre cavaqueira por ali seguiu-se até altas horas...
- A uma dada altura estava sentado defronte a lareira, meio adormecido quando ouvi um barulho vindo da cozinha e fui acordando... lentamente... a porta da cozinha se abriu e voces vinham todos em meio à escuridão sendo iluminados por pontinhos luminosos... e cantavam Parabéns a você... era o meu aniversário e nem me lembrava... coisas da vida... todos à minha volta... apaguei as velinhas e ao colocar o netinho no chão que ajudara-me a apagar todas velinhas, quase fui derrubado por Coringa que também queria cumprimentar-me... você deu-me um beijo e entregou-me um pacote com fita dourada, nossa filha deu-me um com fita prateada e aos poucos fui abrindo um por um...
- O seu era um colete novo nas mesmas cores... o qual vesti de imediato, dobrando o outro com muito respeito e deixando-o sobre o sofá... o outro pacote tinha um cachimbo Savinelli com fumo Half and Half...
- Logo preparei-o, agradeci a todos e fui sentar-me ao pé da lareira, dando novas baforadas azuis... que enrodilhavam-se... você preparou dois pedaços de bolo e ofereceu o primeiro à Dona Silvana, o outro ao netinho e depois serviu os outros com o mesmo carinho de sempre...
- Estávamos já indo dormir quando um ruído lá fora e uma certa algazarra nos chamou a atenção, era Coringa e as crianças que estavam olhando a graça que ele fizera com a boca toda suja de bolo e uma fita ao redor do pescoço...
- ELE estava ali e era o nosso PRESENTE DA ETERNIDADE... e assim nasceu "Deus, meu Pai, meu Amigo"... o Verdadeiro Amigo da Eterna Idade...
- Para que acreditem basta fazerem uma expiração e senti-LO!
- Ermitão da Picinguaba. Ilha da Madeira - 2.000
- A primeira inspiração deste texto ocorreu em meio ao Pantanal do Mato Grosso do Sul, no Brasil, no ano de 1985... da Era Cristã.
- Édison Pereira de Almeida - Escritor
- Sitio da Relva. Assomadinha
- Santo António da Serra - 9100 - Ilha da Madeira - Portugal
- TMN 966933900 - Residência : 291-552060

Contato: Ermitao.Picinguaba@mail.EUnet.pt

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