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O anúncio

Autor: Paulo de Góes Andrade

Fez um círculo no anúncio que achou nos classificados. As notícias dos jornais eram quase as mesmas. As baboseiras de sempre: rebeliões em presídios, corrupções, rombos nos cofres públicos, falcatruas e o diabo que os parta... “Não se lê mais nada que preste na bosta desses jornais! Está tudo podre. O Brasil está podre. Qualquer hora dessas também estarei podre, debaixo da terra”.
A separação da mulher refletia no seu comportamento. Além de solitário, andava irritado e sem tesão, comentava com alguns amigos. Com o palito, que espetava os cubinhos de provolone, furou o caminho, marcado com a esferográfica, e retirou o anúncio, no meio de tantos publicados, e guardou no bolso da camisa. Pediu ao garçom, quando lhe trouxe a conta, para jogar o jornal no lixo, se não quisesse ler depois. Pelo menos tinha notícias de futebol, que é a “cachaça” do povão. Deixou a cerveja pela metade. Já que bebia sozinho, cedeu a mesa para um casal. O “Amarelinho” já estava lotado àquela hora, 18 e alguns minutos. Consultou o relógio. Também era sexta-feira, dia da bebedeira nacional. Andou mais alguns passos, desceu a escada e pegou o metrô na Cinelândia. Queria economizar. Só usava o carro nos finais-de-semanas. A pensão da mulher o forçava a isso. Com a filha, Carolina, não tinha contato fazia tempo. Era independente. Ligava-se mais à mãe.
O quarto-e-sala, no Leme, facilitava a sua vida. Distava pouco da estação do metrô de Copacabana. Pagava uma faxineira por semana para limpar o apartamento, que ficava arrumadinho, até com jeito de “ap” de bicha. Tinha que se justificar com alguém que o visitasse: “... coisas da minha faxineira...”
A vida de Eduardo é o retrato de tantos outros desajustados no casamento, que se misturam na multidão. Um bate-papo de bar, uma sessão de cinema, ou teatro, para alguns, como para o amigo desta história, não preenchem o vazio que carregam. Ele é do tipo que veio de família mineira, daquela gente mansa, sem pressa, que sobe as ladeiras de Ouro Preto, por exemplo, para a missa das 6, das 8, das 10 horas, e haja missa; ligada a preceitos religiosos. Não aceitava, no íntimo, o seu modus vivendi de agora. A cidade grande, esse Rio de Janeiro não o modificou. Assistiu aos festejos das bodas de ouro dos pais. E desconhecia desajustes nos lares dos irmãos. Quantos não passam por nós, todos os dias, quando o sinal verde se abre nas ruas e avenidas, carregando os seus erros ou as suas mágoas; os adultérios ou as traições!? São incontáveis. Quem sabe, o meu vizinho, que nem conheço, que desce comigo no elevador, não seja um desses solitários? Ninguém lê na testa!
“Incompatibilidade de gênios” foi o argumento da separação de Eduardo e Thaís.
Naquela sexta-feira resolveu fazer um programa diferente, depois que leu o recorte do jornal. Era a primeira vez que receberia uma estranha no seu apartamento. Correria o risco da censura dos condôminos. “Joel” receberia uma “irmã”. Ficou combinado. Mulher sozinha, depois das 22 horas, à procura desse ou daquele, não tem outro qualificativo, é prostituta mesmo. Sabia disso. Concordou com o porteiro. Ainda havia o risco da Aids. Mas disso sabia se defender. O anúncio oferecia “garota de programa, bonita, educada, meiga, discreta, seios lindos, bumbum delicioso. Atende em hotel, motel e em domicílio”... “Jéssica” estava “livre” para as 23 horas, conforme a voz do outro lado da linha. Antes já tivera com outro. O corpo manuseado, em tudo explorado, para satisfazer instintos anômalos, talvez, vinha para ele. Era uma profissional do sexo. Ganhava para isso. Imaginava. Aceitou aquele horário. Gostou daquele nome: “Jéssica”. E exigiu uma noite completa. Pagaria as horas extras da acompanhante. Fazia muito tempo que não despertava com uma mulher ao seu lado. E com ela desejava tomar, de manhã, um “gostoso” banho no acanhado boxe do seu banheiro, como fazia, noutros tempos, com Thaís, a “ex”, no amplo e até luxuoso banheiro do apartamento em que viveram, na Barra.
Poucos móveis compunham o apartamento. Faltava o “it” feminino, embora a faxineira tentasse. Nenhum quadro nas paredes, nem jarros, com flores ou não, em qualquer lugar. Uma cama larga, mesa-de-cabeceira com um porta-retrato com a figura da filha, aos quinze anos, uma poltrona e um televisor num suporte na parede; e o armário embutido, constituíam o quarto do “solteirão”. Na cozinha apertada, uma pequena geladeira, apenas com ovos, mortadela, leite e água mineral, se espremia a um fogão velho, pouco utilizado. Era freguês dos “pê-efes”, durante a semana, no centro.
Pelo “pizza-fone” solicitou uma “tamanho-família, que sobraria para a manhã seguinte. Satisfez-se com um pedaço, menos de um quarto, com cobertura de mussarela e calabresa, e um copo de leite. Estava na expectativa de um grande esforço físico. Evitou sobrecarregar o estômago.
Até às 23 horas tinha muito que esperar. Ligou a televisão no canal de filmes eróticos. As cenas de sexo pouco o sensibilizavam. Será que vou ”falhar?” Tocou-se. O álcool, da metade da cerveja que tomou no “Amarelinho”, não iria influir naquilo. Tinha experiência. “Com doses de uísque, nunca broxei com a Thaís, por que isso agora?” Em vez de tesão, algumas palpitações o levaram a passar a mão direita no peito, massageando o coração. Era a emoção, pensou, de transar, pela primeira vez, com uma jovem de dezoito anos, constava no anúncio. Ele que era um cinqüentão, estava curioso. Desligou a tv. Livrou-se da cueca e pegou uma ducha fria para baixar a pressão, que imaginou alterada.
Pouco faltava para as 11 horas. A noite estava quente. Nenhuma brisa vinha do mar. Chegou à janela e viu a avenida Princesa Isabel, lá do 12º andar, mais tranqüila, com poucos veículos que iam e vinham pelo Túnel Novo. O táxi da sua contratada já devia estar entre aqueles carros que trafegavam lá embaixo, imaginou.
Voltou para o quarto, ligou o ventilador e passou a ver o filme pornô novamente. Queria fazer com “Jéssica” tudo aquilo a que assistia na televisão, inclusive sexo anal, que nunca experimentou com a ex-esposa. Era aquela velha história das recomendações da Igreja. Tudo tinha que ser ali no “papai-mamãe”. Do jeito que Adão e Eva se conheceram intimamente. Dentro do figurino. Fora disso, é perversão, ensinaram-lhe, um dia, nas aulas de catecismo. Será que o nosso pai Adão se comportou como um bom menino diante da popozuda Eva? Duvidava.
Cheio de fantasias eróticas, a sua libido se liberava. A ansiedade aumentava a cada minuto que faltava para a hora acertada. O coração ficou acelerado. O interfone não tocava. Ligou duas vezes para a portaria. “Nada ainda de sua irmã”, respondeu o porteiro. Quinze minutos passavam das 23 horas. “A filha da puta deve ter saído pra outro! Não dá pra se acreditar nessas vagabundas”! Resmungou Eduardo, desiludido.
Sentou-se na cama e pegou o porta-retrato. A filha aos 15 anos, na fotografia, estava muito bonita. Foi na noite do baile das debutantes. Ela se destacava entre as demais. Lembrava. Era um pai orgulhoso dançando com ela, embora errando alguns passos da valsa. “Perdão, filha”. Desculpava-se. Ela era só sorrisos. Um futuro brilhante desejou para Carol, como a chamava.
A campainha interrompeu a sua “viagem” ao passado. Guardou o retrato da filha na gaveta do criado-mudo. Vestiu a bermuda e a camisa. E apressou-se para abrir a porta.
- Deve ser a vagabunda!
Era ela. Mas, “Jéssica” era Carolina.
Um enfarte fulminou Eduardo. Uns poucos conhecidos compareceram ao seu enterro no cemitério do Caju.

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