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Chanceller, o fino

Autor: Zé Caparica

Antenor era um negro magro, bonito, muito vaidoso, narciso, que nos primeiros dias do slogam “o fino que satisfaz”, dos cigarros Chanceller, adotou-o como se fosse criado para si. Só era conhecido (e respeitado) como Chanceller, embora ele mesmo não soubesse o que fazia mesmo um chanceler. Eu também não sei. É o chefe da chancelaria. Na Alemanha é o que manda em todo mundo. Não sei mais nada. Desde os quinze anos trabalhou como ajudante do Dr. Caruso, advogado grave, de quem, com o passar do tempo, se tornou mordomo, confidente, e até vítima da língua dos escarnecedores, que o achavam um enrustido. Se era, ninguém viu. Chanceller era finíssimo. Só que, dada a profissão, era solteiro.
Dr. Caruso faleceu aos 85 anos deixando Chanceller “órfão” aos 70. Foi-se o patrão-amigo, companheiro por 55 anos, a quem se dedicou todas as horas do dia, abrindo mão até da primeira namorada, em troca de um salário justo, e mais o conhecimento que acumulara. Uma semana após o falecimento do jurista, Dra. Jussara Caruso, a viúva, chamou Chanceller para uma necessária conversa.
- Você dedicou a sua vida a servir a meu marido, Chanceller, mas tanto eu quanto você sabemos que, como empregado, passou da hora de se aposentar. Aqui está seu acerto de contas, seu dinheiro, e também sua liberdade. Vá buscar viver a sua vida, e seja muito feliz. Você sempre foi muito leal a todos nós.
Chanceller ficou entre decepcionado e feliz, mas entendeu a posição da viúva e só acrescentou um pedido particular. Gostaria de levar alguns pertences pessoais de Dr. Caruso, símbolos que só tinham significado para ele e para o finado doutor.
- São coisinhas simbólicas, Dra. Jussara, que se perderão nas mãos de herdeiros desatentos, e eu gostaria de guardá-las comigo, como se fosse um museu da minha vida, e do Dr. Caruso também.
A viúva entendeu, obviamente, e autorizou Chanceller a entrar no quarto do finado e de lá recolher o que bem entendesse, desde que não fossem bens significativos de família. Chanceller trancou a porta atrás de si, tirou as roupas, e começou a se paramentar. Era o mordomo de si próprio. Escolheu meias, sapatos, ternos, gravatas, chapéus, lenços, cintos, bengalas, isqueiros, cigarreiras, perfumes, broches, canetas, chaveiros, enfim, coisas masculinas, que escolhera com tanto carinho por longos anos, e que agora gostaria de usar ele mesmo. Colocou tudo numa elegante mala australiana. Pegou o relógio mais conhecido do patrão, e seu anel de advogado. Voltou à sala e confidenciou à viúva.
- De valor real aqui, Dra. Jussara, só o anel do advogado. Esse Rolex é mais falso que nota de 3 reais. Eu o trouxe do Paraguai há 20 anos e presenteei Dr. Caruso, que por simpatia o usou a vida inteira sem nunca declarar a origem. Por isso o quero. Só o anel é jóia. O resto, são relíquias que só tocam a mim, creio eu.
Depois de um fraterno abraço, Chanceller partiu para São Paulo, cheio de juventude, pronto para recomeçar a sua vida. Conseguiu um simpático apartamento no centro da cidade, colocou seu dinheiro num banco, e foi fazer o que mais gostava na vida: andar de metrô. Todos os dias, inclusive sábados, domingos e feriados, deixava o apartamento precisamente às 7h45min, e 15 minutos depois fazia sua orações na Catedral de São Bento. Dali fazia seu primeiro embarque no Metrô, na estação São Bento, e rumava para um breakfast na Avenida Paulista. Quem o via, terno de risca, gravata italiana, camisa alinhada, sapatos de cromo, reluzente “rolex”, bengala, chapéu, lenço, anel de doutor, não tinha a menor dúvida: tratava-se, mesmo, de um chanceler africano.
Chanceller não era exatamente virgem. Em 70 anos tivera duas relações sexuais completas. O problema é que nas duas ocasiões estava absolutamente embriagado e, portanto, embora tenha feito, não lembrava como tinha sido, e agora queria dar uma clássica, e necessariamente sóbria. Tinha até sonhos de se casar e ser feliz para sempre, como todos têm o direito de sonhar esse tipo de coisa uma vez na vida. Só se impunha dois limites. Não pagaria jamais por sexo, nem direta, nem indiretamente com viagens etc, nem o faria com mulher feia. E era exigente o Chanceller. Cumprimentava, à moda do interior, todos os que lhe davam qualquer atenção e às eleitas, quase todas loiras, Chanceller dedicava um sorriso amplo, com dentes perfeitos, seguro de seu magnético poder de sedução. Não tinham muito mais que 40 anos suas eleitas, e por isso sua taxa de sucesso não era lá muito extensa. Chegara até a pegar na mão de uma linda cabeleireira oxigenada de 38 anos. Era funcionária de um salão de beleza podre de chique, nos Jardins.
O resto do dia ele gastava nas dezenas de estações das linhas metroviárias paulistanas, distribuindo sorrisos e gentilezas a uma larga gama de jovens senhoras que ele ambicionava conquistar. Ao entrar uma dama, sempre se levantava. Se o trem estava lotado, sempre oferecia o lugar. Fazia gestos elegantes quando manipulava a bengala e ajeitava o chapéu, e sempre estava disposto a contar sua vida a quem quisesse ouvir. Bastava que fosse mulher. Para homens o discurso era mais breve e menos detalhado. Carregava pacotes, explicava rotas, dava conselhos em geral e sempre as convidava para almoçar. Depois almoçava sozinho num restaurante próximo à Praça da República. Ao final da tarde fazia uma última tentativa na hora do rush, mas logo se recolhia, via sua novela e adormecia.
E assim os anos se passaram, e Chanceller fez muitos amigos, carinhosos e gentis, mas não conseguira levar alma feminina a seu apartamento, com exceção da empregada que lhe punha ordem na casa uma vez por semana, mas não atendia ao segundo requisito auto-imposto. Era esteticamente prejudicada.
Decidiu passar um final de semana no interior e, ao desembarcar na rodoviária, causou comentários na cidade. Estava elegantérrimo. Como não tinha parentes, visitou os amigos, deu palestra no bar, e depois foi visitar dra. Jussara Caruso, a viúva. Após algumas horas, entre chá preto e biscoitos ingleses, a advogada botou pra rodar um Cauby Peixoto, se ajeitou na ampla poltrona e resolveu explicar para Chanceller a sua solidão. E em poucas outras horas roupas espalhadas pelo chão indicavam o caminho da suíte da alegre viúva.
Chanceller foi readmitido com o mesmo salário, mas com privilégios dobrados. Ainda tinha que vestir e desvestir a "patroa", mas já não havia muitos eventos externos. Recebiam poucas visitas, e ele se encarregava de administrar o dia-a-dia.
Chanceller morreu dormindo na semana passada. Sua viúva chorou inconsolavelmente. Não achou nada justo.

(Zé Caparica é publicitário e escritor) - Email: zecaparica@ig.com.br

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