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A Mangueira

Enviado por Darville Lizis, de Nova Iguaçu/RJ

Um frio, aliado a chuva, tentava com persistência entrar pela janela. Não logrou sucesso. Ela com a ajuda de um cobertor velho venceu a batalha. Deita na cama que range com o peso do seu corpo.
Há dias o céu não perdoava o declive onde morava. Dia após dia de água. A lama, resultado do dilúvio, dava um aspecto triste e desolador ao morro. Para quem via de baixo parecia uma cachoeira verde descendo pouco a pouco as ruelas irregulares.
Pensava nas crianças. Fizera bem deixá-las com a madrinha. Faltava luz a todo momento, seus filhos tinham medo do escuro e da luz de velas. Tinha dois, um com seis outro com oito anos. Naquele momento olhava as roupas dos miúdos, dispostas numa cadeira no canto da sala, que se confundia com quarto e cozinha. A situação estava delicada, as roupas limpas escasseando. Era impossível lavar e estendê-las naquele tempo. Tinha um bom e grande varal, pendurado entre a mangueira e um pé de jambo. A mangueira... Lembra quando comprara o lote, aliás, o que a fez comprar foi a grande e intempestuosa mangueira. Seu orgulho, a maior da vizinhança. Pensou na sombra que ela faria no verão, quase sempre era verão. De recursos escassos e mãe solteira, resolveu construir a casa de modo que a árvore fizesse sombra no telhado de sua simples e digna pousada. Não tinha condições de construir terraço, mal dava para cobri-la de telhas. Lograra apenas colocar reboco e vermelhão no chão. Uma escolha infeliz, as meias dos meninos viviam sujas, além dos pés encardidos.
Na primavera gostava de ouvir os estalidos produzidos pelas mangas caindo no telhado. Aproveitava as frutas e regalava os filhos com sucos e outras iguarias, tudo na medida pequena de seus recursos. Distribuía o excedente entre os vizinhos, afinal era a dona do maior pé de manga do lugar.
Começava a prever que dentro de horas teria que sair para labuta. Todos os dias a mesma história. Levantava às quatro e meia da manhã, realizava a higiene matinal, coava café, lavava o bule e o coador, bebia rapidamente, não comia pão, temia que enjoasse no trem.
Quase duas horas da manhã, ainda não conseguiu dormir. Insônia terrível. O barulho da chuva nas telhas acalentava e a deixava inquieta. Se assusta. Uma manga. Espera que não tenha rachado nenhuma telha. Todas suas bacias estavam aparando alguma goteira causada por mangas. De vez em quando limpava o telhado, pois o peso poderiam prejudicar a estrutura da moradia. Sua moradia. Só sua. Construíra com seu dinheiro, entre faxinas, bicos e costuras. Todo o dia bainhas, calças apertadas, remendos de toda a sorte de roupa. Tudo feito na máquina herdada de sua mãe, única herança. Sua mãe não legou apenas a máquina, o ofício viera com o tempo. Não sabe quantas madrugadas ficara com a mãe observando-a na faina da costura. Gostava. No meio das divagações outro susto, um raio. Tinha medo de raios. Será que os filhos dormiam?!? Certamente. Mais uma vez outra manga cai no telhado. Domingo, se o tempo ajudasse iria limpar o telhado. Pensava em podar um pouco a mangueira. Ela mesma o faria. Não confiava em ninguém mexendo na sua árvore. Gostaria de no verão colocar uma rede na mangueira. Outro barulho. O balanço dos meninos, começa a bater nos troncos e na parede. Mais raios. Sente uma tranquilidade estranha. O sono?!? Tomara. O quintal devia estar todo cheio de folhas, ao chegar à casa, de noite, iria varrê-las e queimá-las, longe do tronco. A fumaça e o calor poderiam fazer-lhe mal.
Um ânimo estranho toma posse de sua consciência, sorrateiramente, talvez, nem soubesse que isso era ânimo. Apenas sentia. Se as costuras melhorassem, surgissem faxinas novas iria juntar dinheiro para colocar laje. Sim, iria realizar uma vontade de família, nenhum familiar seu tivera uma casa lajeada. Não ficaria só nisso, iria colocar um piso no chão, estava farta de meias e pés sujos. E por que não um quarto para seus filhos? Iria, ainda, autorizar que tivessem um cão, construiria uma casinha para ele. Era só não fazer a necessidade em sua mangueira. Dizem que a urina faz com que os frutos diminuam de tamanho, e as mangas de sua mangueira eram enormes, saborosas.
Outro barulho, desta vez, oco, um trovão. Pensa que a chuva piorara, mas não se importava. Estava ocupada demais com seus planos, sente vontade de levantar e fazer café. Não consegue. Manga no telhado. Barulho, barulho. Balanço. Frio. Barulho. Telhas. Raio. Barulho grande. Chuva caindo no seu rosto. Tijolos quebrados na cama. Mangas esmagadas, algumas inteiras. Folhas, muitas folhas no cobertor surrado, agora manchado de amarelo e vermelho. Não imaginava tantas mangas...

Email: darvillelizis@yahoo.com.br

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