Prefiro achar que sou feio

Autor: Wallace Fauth

Gosto de ler e de escrever. Isso é ruim porque em mim é doentio. Não são só letras que existem na vida. Há um sol que brilha lá fora. Há mulher e filhos que me querem por perto, mas eu continuo enfurnado nesse quarto, na frente da tela de um computador. Acordo antes de todo mundo pra chocar menos, mas a manhã vai acabando e eu vou perdendo-me em notícias e textos do Veríssimo, Ubaldo, Mário Prata. Inspiro-me na tão noticiada genética e sinto-me impulsionado a dizer algo. Depois leio uma notícia sobre a passeata gay e não consigo ficar quieto, desligar-me e ir "viver a vida", tenho que dar alguma opinião, tenho que escrever alguma coisa senão me sinto mal.
É um círculo vicioso. Quando não estou lendo, estou escrevendo e assim sucessivamente, num sem-fim que causa problemas. Minha mulher, quando está feliz e bem-humorada diz que é agradável ser casada com um cara dado à literatura, intelectual, que escreve, etc. Acho que é para fazer tipo, assim como quem gosta de ter um carro importado para mostrar, mas na hora de pagar o seguro e as despesas de manutenção, meu amigo, o bicho vira uma fera.
Hoje, por exemplo, ela acordou azeda porque desde cedo estou neste computador, e ontem também, e domingo também... Informou-me, também, que eu não pego um sol, que não saio com meus filhos, não faço nada, só saio de casa empurrado, tudo por causa dessa merda desse computador. Se fosse há anos, o problema seria a máquina de escrever, a caneta, a pena. E eu, ouvindo-a, tentava ler uma crônica do Veríssimo e não saía daquele parágrafo. Difícil se concentrar quando alguém o está criticando porque você está lendo. Eu poderia parar, desligar tudo e ficar com ela li na sala... fazendo o quê? Perguntei isso, mas a resposta não me convenceu. Eu queria uma resposta que fosse capaz de me persuadir de ficar aqui, lendo e escrevendo o dia inteiro, aproveitando que estou dispensado do trabalho temporariamente por motivo de saúde. Mas não houve nada. Na televisão há desenhos animados, programas de viagens pelo mundo, filmes velhos ou a TV Japão que não sei pra que serve, já que não entendo nada mesmo. Na cozinha tem comida, mas só na hora do almoço. No quarto tem a cama, mas já dormi a noite inteira e sexo é impossível com as duas crianças acordadas e a empregada arrumando a casa. No corredor não tem nem uma cadeira para sentar, eu teria que ficar em pé. No banheiro tem água, um banho até que não era má idéia, mas isso dura alguns minutos, e depois? Ficar olhando a minha cara no espelho? Sentar no vaso? Só pra cagar. E ler (olha aí a perseguição!). O que eu posso fazer? Penso, sinceramente, no que fazer que não seja ficar no computador lendo e escrevendo, ou que não seja ficar no sofá da sala, também lendo.
Já verifiquei os cômodos e, decididamente, só dá pra ficar na sala com um livro ou aqui no escritório com o teclado. Se não for assim, tenho que ultrapassar os domínios das paredes. Ir para a rua, pegar um sol, passear com as crianças e com a mulher. Bem, está aí uma boa pedida. Vou lá chamar a mulher pra passear, mas lembrando que estamos no cheque especial e não podemos tomar sequer um refrigerante se quisermos sair dessa. Sei que a gente sai, acaba tomando o refrigerante e passa mais um ano inteiro pagando juros pela utilização do limite. Tudo bem, podemos sair aqui em volta de casa, apenas. Vou fazer isso, mas quanto tempo dura? Não mais que uma ou duas horas. Suponhamos que eu almoce ao meio dia e às treze horas dê um passeio aqui no bairro. Às quinze horas estarei de volta, e aí? Farei o quê? Vou ler. Ou escrever. E volta tudo à estaca zero. Enfurnado de novo dentro de casa. Vamos pegar o carro, então e ir mais longe. Todos os dias de manhã, vamos acordar a família e passear de carro pela cidade, visitar os parques, passar o dia na rua. A mulher ficaria satisfeita? Talvez, nos primeiros dias. Mas e eu? Vendo tantas figuras na rua, a vontade de chegar logo em casa para escrever o que vi será ainda maior, terei ainda mais assunto, apesar de um pouco mais desinformado. Mas informação não é tudo.
O fato é que, pensando friamente, não há nada melhor para fazer, estando em casa, do que ler e escrever. Um sexo é bom, também, mas quando os filhos estão dormindo e a empregada já foi embora. Realmente fico buscando uma solução. Enquanto não encontro, fico aqui.
- O Verissimo é casado? – pergunto a ela, mal comparando com meu caso.
- É, por quê?
- Ele escreve todo dia – insinuo pra ver se cola.
- Mas é o trabalho dele. Além do mais deve ser muito mais fácil para a mulher dele deixá-lo sozinho num canto.
- Por quê? – pergunto já prevendo a resposta.
- Ora, porque ele é feio pra burro!
- E o Ubaldo?
- Ih, piorou. Gordinho de óculos. Aquela cara dele tá meio inchada...
Pronto. Agora não sei se foi um elogio. Se ela está reclamando de que não largo o computador, é porque eu não sou feio como os escritores citados e isso é um elogio. No entanto, se os escritores são feios e por isso suas mulheres o abandonam mais facilmente, isso significa que não sou escritor, ou o que escrevo é sofrível. Foi uma maneira irônica e inteligente de criticar-me. Confesso que fiquei feliz no amor, mas infeliz no trabalho (chamo de trabalho porque o outro é para eu poder almoçar). Dizem os astrólogos que é sempre assim.
Estou preocupado com o desenrolar da vida daqui pra frente. Caso deixe-me aqui como já o fez hoje à tarde sendo até simpática, ficarei num dilema: estarei trabalhando em paz porque ando escrevendo bem ou porque estou ficando feio mesmo? Pelo que ela disse, acho que o motivo será este último. Deve ser por isso que estou me sentindo assim, tão feio. E até que não é tão ruim, se isso for necessário para que eu escreva e paz. Aliás prefiro achar que sou feio, pois isso tira a possibilidade de ser sofrível...
Mas a preocupação imediata mesmo é se hoje à noite vai haver greve com direito a piquete na entrada... Vamos esperar pra ver.


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