Valores e Prudência na Vida Social

Apesar de, alegadamente, se considerar um lugar-comum, a verdade é que o ser humano não consegue viver separado: seja dos seus semelhantes, da natureza e até, em certas circunstâncias e limites, de uma entidade Divina, muito menos, e de ora em diante, terá condições para se isolar, levar uma existência sem estar em permanente contacto com a humanidade, sem se relacionar em diversos contextos e situações da vida, tudo pela simples e verídica razão de que ele é um ser limitado, frágil e degradável, designadamente na sua compleição física e mental.
O relacionamento interpessoal em diferentes âmbitos da sua existência, naturalmente que conduz a diversas situações, através dos: princípios, valores, práticas, sentimentos e emoções que, tanto quanto se julga saber, só ele possui e desenvolve, precisamente no quadro da sua organização social, esta, por sua vez, composta por diferentes e articulados parâmetros, desde logo de ao nível da amizade e dos afetos.
Com efeito: «A amizade é a base na qual a consciência grupal é edificada e a cooperação é aprendida e praticada. O sucesso dos esforços de cooperação e consciência grupal depende da qualidade dos relacionamentos entre as pessoas. Sua nação é uma espécie de amizade, sem amizade não há nação.» (SARAYADARIAN, in CARVLHO, 2007:47).
As relações sociais, nesta sociedade extremamente complexa, competitiva e dinâmica, seja qual for o domínio pelo qual se pretende analisar, tornam-se, por isso mesmo, singularmente difíceis e, por vezes, com elevados níveis de melindre e/ou então, a partir de estratégias pouco claras, para se atingirem objetivos irreveláveis, recorrendo-se, para tanto, a uma linguagem verbal e não-verbal dos estilos passivo, manipulador e agressivo, enfim, valerá tudo menos o comportamento assertivo, transparente, compreensivo, tolerante e amigável.
No livro da minha autoria: “Valores e Prudência na Vida Social” (2015), que, obviamente não se pretende que seja um manual de práticas impositivas, de afetadas boas-maneiras, mas deseja-se que possa contribuir para alertar e sensibilizar as/os leitoras/es, no sentido de se precaverem contra situações que ocorrem, cada vez com mais frequência, no contexto das relações sociais, na medida em que os exercícios, bem elaborados de hipocrisia, cinismo, bajulação, jogos de cintura, falinhas mansas, por vezes escondem intenções ética e moralmente condenáveis e são cada vez mais recorrentes.
Ensina-nos a experiência da vida, ao longo de mais de seis décadas, no desempenho de diversos papéis: familiares, académicos, profissionais, políticos, associativismo, sociais, educativo-formativos e religiosos que, por distintas vezes, temos na nossa presença imensos falsos “cordeiros” para se apoderarem dos nossos conhecimentos, influências, apoios e todo o tipo de colaboração que lhes é necessário para alcançarem os seus objetivos, eventualmente, os mais ignóbeis e, quando atingidos, revelam-se verdadeiros “lobos”, que passam a atacar-nos ferozmente, tentando destruir a nossa credibilidade, reputação e até a própria família, aliando-se, de seguida a outros “lobos” constituindo-se assim em perigosíssimas alcateias.
“Valores e Prudência na Vida Social” não significa, de forma alguma, uma descrença total na sociedade no seu todo, muito menos nas pessoas verdadeiramente humanas, pelo contrário, pretende-se enaltecer a autenticidade, a generosidade, a solidariedade, a amizade, a lealdade e outros valores culturais, éticos e morais, justamente, porque “nem sempre se diz o que se pensa; e nem sempre se pensa o que se diz”, logo para se evitarem mal-entendidos, ofensas, mágoas, toda a precaução será pouca, porque depois da palavra dita, escrita, caricaturada ou por qualquer outro meio divulgada, as consequências serão imprevisíveis, por tudo isto é fundamental que exista uma excelente base para se desenvolver e consolidar relações sociais do mais elevado nível civilizacional.
“Valores e Prudência na Vida Social” deverá revelar-se como sendo um comportamento a praticar-se permanentemente, não só como um processo de inquestionável transparência, como também numa perspetiva de autodefesa, na medida em que: «Descobrir os pontos fracos e fazer com que eles não se tornem flancos, dando margem a investidas danificadoras, é uma missão difícil, mas necessária. É pela fraqueza que se escraviza e manipula um cargo, função ou sentimento. Isso ocorre de diversas maneiras – a mais comum é a chantagem.» (ROMÃO, 2000:70-71).
Na sociedade moderna, construída, sempre e alegadamente melhorada, conservada a partir dos seus últimos desenvolvimentos, verifica-se que os relacionamentos interpessoais vão passando para segundos, terceiros e últimos planos. A corrida ao TER, ultrapassa a meta do SER, as ambições pessoais, e de grupo, quantas vezes ilegítimas e ilegais, praticamente, não têm limites: «A competição é antissocial, hoje e outrora, porque implica a negação do outro, a recusa da partilha e do afeto. A sociedade moderna neoliberal, especialmente o mercado, se assenta na competição. Por isso é excludente, desumana e faz tantas vítimas. Essa lógica remete-nos a uma sociedade enferma que impede o bem-estar dos seres humanos, já que lhes nega a sua satisfação essencial.» (MATURANA, in: CARVALHO, 2007:53).
Seja qual for o enquadramento em que a pessoa humana se coloque, a verdade é que cada vez se torna mais necessário adotar uma firme e leal “Prudência na Vida Social”, sem subterfúgios nem hipocrisias, porque será suficiente revelar que a maioria das situações com que se é confrontado diariamente, exige uma, ainda que breve, reflexão, para se poder decidir sobre o que as pessoas e a vida colocam perante cada um, porque resolver o que quer que seja apressadamente, por vezes, conduz a autênticas catástrofes pessoais, grupais e/ou humanitárias, à escala mundial.
Evidentemente que há situações, atividades, envolvimentos e intervenções cujas decisões: ou se tomam em frações de segundo, com todas as consequências resultantes e a respetiva assunção de responsabilidades, para o bem ou para o mal; ou se protelam tais resoluções para mais tarde, porque é possível adiá-las e até se pode calcular resultados e riscos. Claro que não decidir, no momento, ou nunca, também é uma opção que se coloca, em determinadas circunstâncias.
“Valores e Prudência na Vida Social” normalmente revela, por parte de quem é cauteloso, alguma sabedoria, experiência de vida, mas também, em determinados contextos, e com objetivos, inconfessavelmente, bem definidos, alguma astúcia, hipocrisia e até deslealdade e, aqui, uma vez mais, dir-se-á que se está perante os tais “cordeiros vestidos de lobos”. Quem tem de se relacionar com este tipo de pessoas, indiscutivelmente que todas as precauções são necessárias e, ainda assim, nunca serão demais.
Importa, portanto, desenvolver, no bom sentido, esta característica, ou capacidade das pessoas, que aqui se designa por “Prudência”, se possível, em todos os domínios da atividade humana, porque permitirá que cada indivíduo tenha as melhores condições para agir com alguma segurança, com benefício para as partes envolvidas e, no limite, para melhorar o relacionamento interpessoal, no seio da sociedade complexa em que hoje se vive.
“Valores e Prudência na Vida Social” debruça-se sobre dezenas te temas/situações que, entre muitos outros, fazem parte da vida real quotidiana, para os quais é desejável a máxima atenção, a maior “Prudência” possível, para se evitarem erros, injustiças, discriminações, deslealdades, conflitos, mágoas, sofrimento, dor e, contingentemente, até a morte prematura. Neste livro, cuja leitura não obedece a qualquer sequência, também se pretende partilhar experiências de vida, princípios, valores, sentimentos e emoções, que o seu autor tem vivenciado e/ou de que tem conhecimento direto.
Aconselha a “Prudência” que não se mencionem nomes, que não se identifiquem locais, que não se revelem situações e que se omitam decisões, todavia o recurso à investigação através da literatura conseguida, para os diversos temas, garante, precisamente, a atualidade das afirmações e, prudentemente, demonstra, a quem ler esta obra, a importância da moderação, dos relacionamentos assertivos, do não envolvimento com pessoas que, de alguma forma, pelos mais diversos meios, se revelam, com excessiva frequência, muito precipitadas, por vezes com inqualificável indecência, sem respeito pelo próximo nem pelos amigos, então, nestas circunstâncias, uma vez mais, aconselha a ”Prudência” que nos afastemos delas, porque de contrário, perde-se o que existe de mais valioso na pessoa humana: dignidade, credibilidade, honorabilidade e reputação.
“Valores e Prudência na Vida Social” é um trabalho que vem na sequência de outros, nomeadamente: “O Desafio de Viver em Sociedade”; “S. Bento: Pescador de Homens”; “Direitos Humanos: Alicerces da Dignidade”; “A Nobreza do Poder Local Democrático” e “Lealdade nas Relações Pessoais”, que versam temas atuais da sociedade, no âmbito das relações humanas, nos seus diferentes contextos e que antecede outras obras que apontam na linha dos grandes problemas nacionais, em particular, e do mundo em geral.
O conjunto de reflexões que integram “Valores e Prudência na Vida Social” pretendem, finalmente, dar testemunho das profundas preocupações que afligem a humanidade, em geral; e os portugueses, em particular. É, enfim, um muito modesto contributo ao incentivo para o pensamento positivo, a partir da realidade que nos circunda, para as possibilidades de construção de um mundo melhor, uma sociedade mais humana, justa, solidária, fraterna, amiga e tolerante, com Prudência, Verdade, Lealdade, Respeito, Afeto, entre seres que, no fim das suas existências terrenas, terão todos o mesmo destino, a morte, e que, para além dela, fica a pairar o incerto, o misterioso e, possivelmente, para muitas pessoas, o não-retorno, por isso sejamos, generosa e sabiamente prudentes.

Bibliografia
CARVALHO, Maria do Carmo Nacif de, (2007). Gestão de Pessoas. 2ª Reimpressão. Rio de Janeiro: SENAC Nacional
ROMÃO, Cesar, (2000). Fábrica de Gente. Lições de vida e administração com capital humano. São Paulo: Mandarim.

Venade/Caminha – Portugal 2017
Diamantino Lourenço Rodrigues de Bártolo
Jornal: “Terra e Mar”