Sabedoria para os Valores e Direitos Humanos no século XXI

Abordar a Filosofia como uma “ciência” estruturada, sistematizada, sincrónica ou diacronicamente considerada, nos dias de hoje, é uma tarefa praticamente impossível. Ao longo dos séculos e dos milénios, a “mãe de todas as ciências”, o “refúgio da sabedoria” ou quaisquer outros qualificativos que se lhe queira aplicar, têm vindo a ser atribuídos à Filosofia, para o bem e para o mal: analisada, estruturada, debatida, rejeitada, aplaudida. Contudo, o seu estatuto, não pode deixar de ser altamente valorizado, num mundo que tende a globalizar-se, que resvala para as tecnocracias desumanas, para o materialismo insensível aos dramas da Humanidade, e pelo respeito aos mais elementares Direitos Humanos.
É preocupante a situação para a qual os detratores dos valores humanos querem levar a Filosofia. Procuram esvaziá-la dos seus conteúdos mais nobres e vitais para a sociedade humana, desviá-la dos seus objetivos primordiais que, afinal, fundamentam, categoricamente, os mais importantes e imprescindíveis valores humanos, plasmados nos documentos internacionais, sobre a problemática dos Direitos do Homem e do Cidadão. Questões da Filosofia, da Educação, dos Direitos Humanos da Ciência e da Técnica:
a) Filosofia, enquanto “ciência do pensamento estratégico” sobre a situação do homem nas suas mais profundas interrogações: Quem somos? O que queremos? Para onde vamos?
b) Educação, como caminho a percorrer, ao longo desta vida terrena, principal meio para o homem se perspectivar numa dimensão superior enquanto Ser dos seres naturais, concebido à imagem e semelhança do seu Criador?
c) Direitos Humanos, como valores inquestionáveis, delimitadores de toda a praxis humana, na vertente relacional do homem para com o seu semelhante, mas também do homem para com a natureza animada, inanimada e divina?
d) Ciência, o que nos pode ela dizer acerca da situação do homem face aos inúmeros, complexos e velhos problemas que afligem a humanidade? A positividade científica, como deve ela colocar-se ao serviço do bem, da virtude, da paz?
e) E a Técnica, como corolário e aplicação dos saberes, para o bem e para o mal da humanidade e do mundo, como poderá ajudar a conseguir melhores condições de vida para os mundos natural e artificial?
A cumplicidade e solidariedade que devem existir entre Filosofia, Educação, Direitos Humanos, Ciência e Técnica, serão, portanto, nesta breve reflexão, o assunto que se tentará desenvolver de uma forma muito singela, recorrendo, naturalmente, a algumas ilustres personalidades da área filosófica e a uma outra obra, ou a uma ou outra teoria.
Confessadamente, e desde já, será difícil sustentar uma apologia incondicional do acumular de teorias, sem a passagem à prática daquelas que possam, efetivamente, contribuir para a melhor formação do homem e da sua qualidade de vida. Por isso, entende-se que o filósofo deve ser mais interventivo na vida concreta, real, quotidiana, das pessoas, atuando no terreno, saindo um pouco mais das universidades e das bibliotecas. A partir de uma abertura descomplexada, o filósofo terá, certamente, uma nova importância e o estatuto da Filosofia será, seguramente, valorizado, como é da mais elementar justiça.
A dimensão educacional do homem, não é uma questão nova, mas é um problema atual que, a partir dele, se geram conflitos político-partidários e institucionais. Há mais de dois mil anos, Platão afirmava: “São precisos cinquenta anos para fazer um homem” e, mais recentemente, Kant produzia uma das suas máximas, da seguinte forma: “Tratar o homem como fim, não como meio” e muitas outras ideias se podiam aqui trazer, todas válidas, atuais e, talvez, polémicas.
Quer se queira, ou não, quer se goste, ou não, o ser humano move-se num mundo de valores, o homem não pode negar-se, enquanto ser cultural, que está apto a transformar a natureza, ainda que parcialmente, em função das suas carências e/ou objetivos, com a possibilidade de poder escolher os meios e os fins, a partir de valores que a sua cultura lhe oferece. É em função de tais valores que as pessoas reagem, que vivenciam certas experiências, sejam físicas ou psicológicas.
O universo de valores é tão antigo, quanto a capacidade que o homem tem de pensar a respeito das suas ações. Todavia, só no século XIX é que surge uma teoria dos valores ou Axiologia, como disciplina filosófica específica, que aborda, exaustivamente, esta temática.
Com muita frequência, e muitas vezes de forma abusiva e errada, formulam-se juízos de valor, quando se descobrem, em determinadas realidades, um conteúdo que provoca atração ou repulsa, pretende-se, afinal, atribuir um critério de verdade a partir de uma qualquer observação.
Com efeito: «Os valores não são, mas valem. Uma coisa é valor e outra coisa é ser. Quando dizemos de algo que vale, não dizemos nada do seu ser, mas dizemos que não é indiferente. A não-indiferença constitui esta variedade ontológica que contrapõe o valor ao ser. A não-indiferença é a essência do valer.» (MORENTE 1996:296).
Naturalmente que no âmbito da Educação os valores são o fundamento de todas as ações, é impossível não reconhecer a sua importância na prática educativa, apesar de nem sempre serem nitidamente tematizados pela sociedade. Ao nível dos educadores, nem todos pautam a sua intervenção por uma axiologia refletida e atenta.
É certo que a educação se tornará mais coerente e eficaz, se através dela se conseguir implementar os valores que esclareçam as bases de uma educação moderna, isto é, humanista, em que o primado da dignidade da pessoa humana seja uma constante, como um valor a preservar em quaisquer circunstâncias. Aliás, não haverá teoria da educação que possa ignorar os valores morais, políticos, estéticos, religiosos, culturais, sociais e outros da chamada terceira geração dos Direitos Humanos.
No âmbito da praxis educativa, não é linear que se possa ensinar: a virtude, no sentido de dar lições; sobre o que é a justiça; a coragem; a piedade; a esperança; a modéstia; o altruísmo; a obrigação, a humildade, a gratidão e tantas outras. Mas é possível revelar a dimensão formal e processual da constituição da consciência moral, e criar condições para que as pessoas alcancem altos níveis de moralidade.
O auge da vida moral, no sentido da perfeição, será um objetivo impossível de alcançar para o ser humano, no entanto, à medida que o homem se desenvolve pela inteligência e pela afetividade, consegue parâmetros cada vez mais adequados à compreensão racional do mundo, e será capaz de ultrapassar atitudes egocêntricas, pelos valores da solidariedade e reciprocidade.
Vivemos num mundo complexo, de contrastes extremos, de uma certa relativização dos valores fundamentais que enformam (ou deveriam enformar) a dignidade humana. A Filosofia da educação/formação vem desempenhando um papel que é considerado, pelos professores/formadores, insubstituível, de uma importância vital na preparação, não tanto do técnico mas, primeiramente, do cidadão, do Saber-ser, do Saber-estar do Saber-conviver, enfim do saber viver juntos.
A educação/formação deve assim atender às exigências primordiais da elevação do cidadão, e não tanto fazer reivindicações de elites e/ou expectativas de minorias privilegiadas, detentoras do poder absoluto, não democrático, muito embora se tenha de reconhecer que nenhuma educação/formação é totalmente neutra e/ou sem objetivos.
Na discussão contemporânea, a respeito da política, a Democracia é considerada como um objetivo supremo, no sentido do bem, todavia, este ideal colide, quantas vezes, com velhas estruturas instaladas: por outro lado, nas sociedades autoritárias, o poder é exercido por poucos e exclui a maioria da população da faculdade de decidir, no seu próprio interesse. Contrariamente, na Democracia, o poder é distribuído pelos grupos que compõem a sociedade, sendo este regime o que mais favorece a cidadania, muito embora não seja um regime perfeito e, provavelmente, até será o mais frágil de todos.
A Filosofia da educação/formação desempenha (pode e deve desempenhar) aqui, um papel crucial, na sensibilização para a cidadania, pese embora a circunstância de ter que enfrentar atitudes de segregação, preconceito, exclusão e tantos outros comportamentos, ou então porque as pessoas estão acostumadas a obedecer dentro de um regime autoritário, hierarquizado, coercivo e persecutório. Neste cenário, não é suficiente a escola, isoladamente considerada, pois é preciso mobilizar o esforço conjunto e permanente dos: governos, pais e encarregados de educação; professores e alunos; formadores e formandos; coletividades e a sociedade civil em geral.
Educar/formar para a cidadania é, por isso mesmo, uma tarefa árdua, porém gratificante. Deve-se implementar uma ética política que se estenda às relações de trabalho, à vida familiar, às conformidades na escola, exigindo do Estado que cumpra com as suas obrigações constitucionais. Há muito para fazer na educação/formação, desde logo dar melhor preparação humana, técnica e científica aos professores/formadores, aceitar os docentes/formadores experientes na vida ativa quotidiana, dotados de vivências humanas ricas, sem o preconceito e o normativo dos limites de idade, escolas bem equipadas, análises e debates crítico-construtivos, sobre quaisquer situações do mundo atual.
Enfim, uma Filosofia da educação/formação que conduza a um maior respeito pelos Direitos Humanos, da Cidadania plena, que nesta perspectiva, isso sim, poderá ser muito bem coadjuvada pelas ciências cognitivas, pelo conhecimento dos meios e instrumentos mais adequados, pelo exercício prático através de uma normalização das técnicas e tecnologias mais apropriadas.
Não há que recear o avanço da Ciência e da Técnica, aliás, que seria do homem moderno, contemporâneo e/ou o que será, ou como será, o homem do futuro se, neste momento, toda a investigação científica parasse? O que seria do mundo sem a tecnologia? É preciso, portanto, conciliar todas as ciências, todos os saberes, todas as experiências, técnicas e tecnológicas e colocá-las ao serviço do bem-estar da humanidade, aceitando, com humildade, que não há saberes superiores ou absolutos, embora se considerem alguns deles importantes para a vida.
Considere-se, entre outras, seis dimensões que caracterizam o homem da atualidade: a Filosofia, a Ciência, a Tecnologia, a Educação/Formação, a política e a Religião, também ao serviço dos valores humanos porque, verdadeiramente, na transição dos séculos XX para XXI, ou de milénios, do segundo para o terceiro, os problemas que afetavam a humanidade, exigem que o homem os resolva, quer pela reflexão ponderada, quer pela intervenção equilibrada, quer pela formação cívica.
Contudo estas vertentes do conhecimento humano, também elas, reagem à permanente instabilidade do tempo que corre, atravessam crises mais ou menos profundas e emergem com novos conceitos, com novos paradigmas, com novos valores. Neste período transitório, é importante que, todos juntos, se aproveitem as potencialidades dos diversos ramos do saber, conjuguem esforços, reúnam sinergias e, entre filósofos, cientistas, técnicos, educadores, formadores, políticos e religiosos, construam os padrões da dignidade humana, necessários para se poder vencer os inúmeros desafios que os próprios seres humanos se colocam uns aos outros.
Bibliografia
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