A Calma que Dinamiza com Segurança

O contexto atual aconselha, portanto, mais prudência no equilíbrio entre o dinamismo imprimido pelos jovens, ainda que sem as experiências de vida e profissionais, e a calma e sabedoria dos mais idosos, experientes e prudentes. O progresso deve fazer-se com todos os cidadãos, porque todos têm idênticas responsabilidades, embora uns sejam proprietários/empregadores e outros nada possuam, para além da sua própria força de trabalho.
Afigura-se, por isso mesmo, injusto alimentar posições exclusivas, na prática e em teoria defenderem-se outros valores, como a igualdade, a dignidade da pessoa humana, quando se verifica, por parte de quem legisla, pouca sensibilidade para valorizar conhecimentos, experiências, dedicação, competências e dignidade àqueles que vão caminhando para idades mais maduras, mas que ainda se encontram válidos.
Na verdade: «Invoca-se a dignidade da pessoa humana, como se ela não existisse nos operários e na grande maioria dos homens que são proprietários e não aos milhões de homens que nada possuem e para quem também foram criadas as coisas. A justiça e a política devem defender este direito não só aos actuais possuidores, mas também aos miseráveis, que têm o direito e não têm a propriedade.» (GALACH-GINER-ARANZADI, 1969: 373-4).
É verdade que há milhares de pessoas, em todos os países, cuja idade e condição físico-intelectual não lhes permite desenvolverem qualquer atividade produtiva para a sociedade, porém, tais pessoas já deram o seu contributo, já provaram do que são capazes, portanto, para elas, o sistema de políticas públicas de inclusão deve funcionar plenamente, atribuindo-se-lhes os direitos e eventuais benefícios que lhes permitam usufruírem de uma vida digna, com qualidade e tranquilidade.
Por outro lado, também se conhece a existência de outros tantos milhares de indivíduos que continuam, praticamente, na plena posse das suas principais faculdades, que estariam disponíveis para manter atividades profissionais, em diversos cargos e funções, mas que por força da incompreensão do legislador são obrigados a permanecer inativos, ou então a exercer um qualquer tipo de voluntariado, porém, sem nenhum reconhecimento por parte daquele mesmo legislador, o Estado ou da Instituição onde o idoso exerce uma atividade que lhe dá prazer e utilidade para a sociedade.
O dinamismo que resulta de vários fatores existentes nos mais jovens: designadamente força física; capacidade de memorização; criatividade; determinação para ascender a lugares profissionalmente de maior estatuto social e melhores remunerações; pode, entretanto, ser prejudicado, por outros aspetos não menos importantes, como alguma imaturidade, excessos de autoconfiança e autoconhecimento, vaidade, desrespeito pelos mais velhos e alguma deslealdade, sempre que esteja em causa a sua própria progressão na carreira. É por isso que se torna necessário um bom doseamento dos recursos humanos em qualquer instituição: jovens e idosos; mulheres e homens.
Em contrapartida, a calma que oferecem os mais idosos pode significar algumas vantagens e desvantagens. Quanto às primeiras, considera-se que a instituição pode passar uma imagem para o exterior de maior segurança, experiência, respeitabilidade e conhecimentos, mesmo que o aspeto físico não seja o melhor.
Com efeito: «O conhecimento é o combustível necessário para se chegar às portas do amanhã, diante das quais nos encontramos, pois o poder do cérebro vem superando o poder da força física à proporção que decresce o poder da força física; no que concerne à nossa sobrevivência, puramente material, nossa capacidade de nos comunicarmos de uma forma intelectual se tornará cada vez mais importante», (POLE, 1998: 64).
Obviamente que algumas desvantagens também se podem salientar, eventualmente: uma certa resistência a novos processos; a diferentes valores; algum comodismo quanto a práticas adquiridas e, por vezes, alguma resistência na subordinação a chefes etariamente mais novos e, para mentalidades machistas, a dificuldade de aceitar as senhoras como superiores hierárquicos.
Quaisquer que sejam as ilações, todas legítimas e respeitáveis, no que concerne à aplicação do título que antecede “A Calma que Dinamiza com Segurança”, aplicado à conjugação de trabalhadores idosos com jovens, a verdade é que a convivência humana não se restringe a um horário de trabalho, nem a umas horas de lazer.
A partir de um relacionamento extralaboral, pode-se construir uma excelente relação entre trabalhadores e empregadores, logo, haveria lugar para todos trabalharem, enquanto a saúde lhes permitir, e as pessoas assim o desejarem, cumpridas que estejam as normas de tempo de trabalho e de descontos para um sistema social, ou outro, quando as pessoas preferirem abandonar a atividade, sujeitando-se a uma reforma justa, sem penalizações, a que tenham direito.
Não pode haver discriminação entre pessoas de um mesmo mundo, em que para umas existe uma lei extremamente generosa, quanto a salários, reformas, benefícios e outras regalias; e para outras uma lei que violenta os mais elementares direitos da justiça social e humana. A coerência do legislador deve ser um dos seus princípios, entre outros fundamentais.
O legislador, por vezes e para ele próprio elaborará os normativos que, eventualmente, o favorecem mas para os seus concidadãos não utilizará os mesmos critérios, por isso: «O mundo e a vida seriam muito melhores; haveria mais entendimento, acordo, harmonia, parceria, sentido de equipe, sinergia; haveria mais produtividade e qualidade nas organizações; haveria menos discussões no trânsito, menos conflitos familiares, menos separações de casais, menos demissões evitáveis, menos amizades desfeitas – se um maior número de pessoas soubesse controlar suas emoções, soubesse fortalecer suas espiritualidades, soubesse ser simpáticas, soubesse se comunicar melhor e conseguisse ser mais flexível nas ideias e nas posturas.» (RESENDE, 2000:98).

Bibliografia:
BONBOIR, Anna, (Dir.). (1977). Uma Pedagogia para Amanhã. Tradução, Frederico Pessoa de Barros. São Paulo: Cultrix.
FONSECA, António Manuel, (2001). Educar para a Cidadania. Motivações, Princípios e Metodologias, Porto: Porto Editora.
GALACHE – GINER – ARANZADI, (1969). Uma Escola Social. 17ª Edição. São Paulo: Edições Loyola
GIÃO, Ana São, (1989). Etiqueta e Boas Maneiras: A Arte de Viver em Sociedade. Lisboa: Edições 70
MARQUES, Ramiro, (2001). Professores, Famílias e Projeto educativo. 3ª Edição. Porto: Edições ASA.
POLE, Timothy, (1998). Ser Você. Tradução, Arlete Dialetachi. São Paulo: Editora Angra, Ltda.
RESENDE, Enio, (2000). O Livro das Competências. Desenvolvimento das Competências: A melhor Autoajuda para Pessoas, Organizações e Sociedade. Rio de Janeiro: Qualitymark
TOLEDO, Flávio de, (1986). Recursos Humanos, crise e mudanças. 2ª ed. São Paulo: Atlas
TRICHES, Ivo José, (2008). “Filosofia versus O Segredo da Humanidade”, in Filosofia, Ciência & Vida, S. Paulo/Brasil: Escala, Ano II, N. 24, p. 51