Nome do Escritor: Paulo Gravina

Um continho de Natal

- Obrigado a Sonia Rosa

Nathália, todos os dias, olhava da janela do seu quarto os vários meninos do prédio andando de skate no play. Alguns eram maiores, porém havia outros da idade dela. Impressionada, decidiu desde cedo o seu presente de Natal e quando a mãe, antes que começasse dezembro, veio perguntar, ela respondeu sem pensar: “eu quero um skate”. Isto, normalmente, causaria uma reação exagerada, mas a mãe simplesmente não deu muita bola. É claro que a mãe só viu problemas, era perigoso e muito masculino, um brinquedo de menino; mas estava cedo e era quase certo que, até o Natal, a menina iria mudar de ideia umas dez vezes. Em dezembro, começaram as conversas sobre os presentes e Nathália insistiu no presente, estava decidida. No entanto, as conversas logo viraram impasses do tipo que ela já estava bem acostumada a ver. Os impasses viraram brigas, o clima na casa foi ficando aborrecido e, assim, a menina decidiu ficar bem quietinha e não voltar mais ao brinquedo, pelo menos não para os pais. Teve uma noite em que a briga foi mais alta e ela ficou triste porque ouviu o pai chamar o seu presente de “maldito skate” e Nathália prometeu ao papai Noel em troca do presente jamais brigar daquele jeito com ninguém, nem com a Silvinha da creche. Quando a mãe veio dar o beijo de boa noite daquela vez, veio desacompanhada do pai, e Nathália aproveitou para falar: “eu posso mandar uma carta para o papai Noel...”, meio em tom de pergunta, com medo de que a mãe ainda estivesse chateada. A mãe ficou muda, o que deixou Nathália confusa, mas pelo menos não tinha vindo uma bronca. Nos dias que se seguiram, ela percebeu que os ânimos se acalmaram e os corações se enterneceram, assim, começou a crescer a esperança do presente. Ela viu uma caixa bem grande colocada na árvore exatamente na véspera do Natal, mas não parecia muito um skate. Nathália ficou cismada porque podia não ser um skate; será que era? Ela chegou a imaginar um presente até maior e melhor do que pensara, mas não, estava decidida pelo presente. Os pais vieram acordá-la na manhã de Natal, levaram-na de mãos dadas até a árvore e ficaram colados um do lado do outro enquanto ela abria a caixa. Nathália abriu tudo com pressa e tirou com ansiedade todos os papéis lá de dentro. Debaixo dos embrulhos lá estava um skate escondido. Ela olhou para aquilo, cheia de alegria e espanto, e disse:
- Pronto! Agora só falta o meu irmãozinho...

Publicado em 06/08/2017 no site: www.meart.com.br

Data de Nascimento: 05/09/1982

Local de Nascimento: Rio de Janeiro RJ

Estalinho

A festa junina dos adultos é bem diferente da das crianças. A das crianças tem barraquinhas, bandeiras e brincadeiras. A dos adultos tem música alta, vozes ainda mais altas, ocasionalmente interrompidas por goles de bebida. A das crianças tem doces, danças, divertimentos. A dos adultos tem risadas, fofocas, política. A das crianças tem pescaria, latas, boca do palhaço. A dos adultos, namoro, latas viradas, filas no banheiro. Acaba de começar uma festa junina dos adultos.
Há, porém, duas crianças largadas no meio do jardim: Miguel e Sabrina. Ele de dez, ela de onze — vizinhos e amigos desde que conseguem se lembrar. Ele loiro, ela de olhos puxados. Ela é filha dos donos da casa; ele, no momento, segura uma bombinha em uma das mãos, pronta para ser estourada:
— Bora, vamos acender, vai ser legal.
— Não, se a minha mãe descobrir, ela vai me dar a maior bronca.
— Ahh... Qual é, Bina, vamos lá; por favor, a sua mãe tá cuidando lá da festa.
— Mas seus pais tão aí também, eles nunca mais vão deixar você vir para cá.
— Olha, tem um formigueiro ali no canto, vamos botar ali em cima... – diz ele, já se dirigindo à lateral do jardim.
Ela, mais curiosa do que preocupada, segue-o. Ele encaixa o canudinho no formigueiro e acende. Bem depressa, os dois se escondem atrás de uma árvore.
Ela pensa no final da festa, na bronca, no castigo. Ele pensa no fim da festa, numa explosão de formigas invadindo a casa! Ela pensa na gritaria, nos puxões de orelha, em um mês sem brincar. Ele pensa na gritaria, na correria, no fim do mundo! De súbito, no meio daqueles segundos corridos e eternos, ele olha para ela. Eles se esbarram, quase caem e dão um estalinho. Primeiro é estranho, mas o beijinho logo é interrompido pela bombinha, enquanto parecia que o mundo estava explodindo lá fora. Era o primeiro beijo, com gostinho de último.
Logo após, eles voltam ao jardim e tudo estava exatamente igual: até o formigueiro permanecia praticamente intacto. A festa continuava a mesma, e os adultos apenas prestavam atenção ao que estava em seu alto horizonte. A decepção de ambos é gigantesca, até que, com um brilho renovado nos olhos, ela propõe a ele:
— Vamos acender de novo?

Publicado na capa do jornal literário Plástico Bolha, edição 19 (de março de 2008): www.jornalplasticobolha.com.br

Formação Acadêmica: Economia e Literatura Brasileira

Local onde vive: Rio de Janeiro RJ

Jamala via o céu,
Dia 13/02
Ano 2007,
Percebeu só depois:
Ficou a cruz no céu
Do avião que passou.
A cruz desceu na reta,
Pesada com ardor,
Descendo foi direto
Atingir o terror;
A mãe ergueu o véu
Para gritar socorro.
Perdeu a luz o céu
A terra perdeu cor,
Subiu um fogaréu
E tudo se acabou.
Jamala tinha dez
A bomba vinte e dois.

Paulo Otávio Barreiros Gravina graduou-se em Economia e concluiu o mestrado em Literatura Brasileira na PUC-Rio. Trabalha com redação, tradução, revisão e edição de livros e de textos. Também já participou de alguns projetos para incentivar a leitura e atua como diretor-geral dos arquivos do Centro Dom Vital. Seus textos já foram publicados em jornais literários, em sites de literatura e em publicações acadêmicas. Em 2014, quatro textos seus apareceram na exposição Espace Urbain, ocorrida em Paris (França), entre 13 de setembro e 25 de outubro. Seu conto “Cárceres” foi publicado na antologia de terror Das trevas, lançada pela Cultura em Letras Edições, em 2017. Também neste ano, lançou, em 07 de fevereiro, pela editora Livros Ilimitados, seu primeiro livro: QUE BRAZIL É ESSE? — O que eles disseram sobre o Brasil.

EMAIL: po_gravina@yahoo.com

No meio do caminho...

A concha também é pedra
Guardando o som do mar,
A Lua disseram que é pedra
E o Sol, pedra amarela.
O caminho todo é pedra,
Asfaltando a alma,
Uma alma de pedra.
Este poema,
Pura pedra.
E só montanhas maiores
Movem montanhas.

Pedra também sou eu,
Apedrejado,
Educado
Pela pedra.
Minhas retinas,
Duras como pedras.
E quem coração tiver
Em que medusa já não tenha navegado
Que atire a primeira pedra.
Oremos
Ao deus de pedra.

Livros publicados:
QUE BRAZIL É ESSE? -- O que eles disseram sobre o Brasil (2017).

Site/Blog:
minhastraducoespoeticas.wordpress.com

Para a Maria Valentina, filha do grande amigo Mário César

As estrelas cochicham toda noite
Sobre o dia que passou.
Cheias de si, elas assistem à novela
Terrena fazendo uma boquinha,
Costurando, jogando buraco
E falando baixinho
Para não acordar ninguém.

Elas nos veem envelhecer
Na velocidade da luz.
Então, antes de adulterarmos
Nossa vida com carteiras
De identidade, pequenas mentiras
E falta de imaginação,
Lembremos das estrelas e
Amanheçamos.

(23/11/2014)
Publicado em 06/08/2017 no site: www.meart.com.br

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