Bicho urbano

Se disser que prefiro morar em Pirapemas

ou em outra qualquer pequena cidade

do país

estou mentindo

ainda que lá se possa de manhã
lavar o rosto no orvalho
e o pão preserve aquele branco
sabor de alvorada

Não não quero viver em Pirapemas.
Já me perdi.
Como tantos outros brasileiros
me perdi, necessito
deste rebuliço de gete pelas ruas
e meu coração queima gasolina (da
comum)

como qualquer outro motor urbano

A natureza me assusta.
Com seus matos sombrios suas águas
suas aves que são como aparições
me assusta quase tanto quanto
este abimo

de gases e de estrelas

aberto sob minha cabeça.


Extraído do livro: Toda poesia