Matar o bicho

Este é um processo usado pelos beberrões há mais de quatro séculos para tomar de vez em quando o seu gole de bebida forte.
Inicialmente, e até bem pouco tempo, o pretexto medicinal rezava que um gole de bebida alcoólica de alto teor, ingerida pela manhã em jejum, surpreende o bicho que deve existir dentro do beberrão, combatendo-o.
A história de Madame La Vernade, filha de um general francês, que morreu em 1519 e que tinha um verme atravessado no coração, resistindo a todos os tóxicos, parece ter dado início a esta crença, que mais parece uma desculpa.
Conta-se que Madame La Vernade, falecendo subitamente, foi autopsiada, tendo-se encontrado tal verme atravessado em seu coração. Não morrendo com aplicação de todos os tóxicos disponíveis, os médicos embeberam um pedaço de pão em vinho forte, colocando sobre o pão umedecido o resistente verme. Foi o suficiente para que ele morresse imediatamente.
A partir de então, os médicos passaram a aconselhar que se quebrasse o jejum com pão e vinho.
Os beberrões, no entanto, não se contentaram com o pão e o vinho. Começaram a tomar bebida mais forte e, depois, aboliram o pão. Atualmente, mata-se o bicho a qualquer hora, e o vinho foi substituído pela cachaça, de preferência.
A fraseologia brasileira relacionada com a cachaça é das mais ricas que temos. Com o significado idêntico ao de matar o bicho temos as seguintes, além de outra: Morder a batata; Dobrar o cotovelo; Quebrar a munheca; Acender a lamparina; Alertar as idéias; Molhar a palavra; Molhar o bico; Mudar a camisa; Tomar um oito; Mudar o colarinho; Salgar o galo.


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