Negócio de Família

Autor: Daniel Silva - São Paulo SP

O ar abafado e o silêncio favoreciam a sonolência. A modorra embalando os dois ocupantes da sala abarrotada e desarrumada. Até as moscas, pousadas pelas paredes encardidas, não se atreviam a romper a cena com um vão inútil.
O tilintar da caixa de mensagens quebrou a monotonia e arrancou Zeb de suas divagações. Tirou os pés da mesa e levantou-se pesadamente da poltrona. O calor e o ar seco deixavam-no lento e irritadiço. As malditas mudanças climáticas lhe haviam tirado o prazer de um inverno frio e garoento. Um inverno de verdade era tudo o que ele desejava.
Leu a mensagem recebida e verificou que era importante. Chamou o mensageiro e mandou que a entregasse ao prefeito, sem se desviar pelo caminho. O raio do moleque vivia aproveitando os momentos de entrega para vadiar. Ameaçou-o de uns cascudos se fizesse isso de novo. Assim que o garoto saiu correndo, esboçou uma tentativa de arrumar a sala, mas sem muita convicção. Tinha certeza de que o prefeito iria até lá assim que lesse a mensagem, pois pelo seu teor haveria outra chegando a seguir completando as informações. Essa técnica de mandar apenas metade das informações em cada correio era a única que estava em uso atualmente. Depois do Grande Caos, ninguém mais confiava nem tinha condições técnicas de utilizar as antigas formas de criptografia. Isso fazia parte do passado.
Empurrou os jornais e revistas velhos para um canto da mesa, e livrou a poltrona dos restos do almoço que já começavam a azedar. O prefeito com certeza não iria desejar esperar em pé pela mensagem seguinte. Desistiu de uma faxina mais profunda. Não estava com ânimo e afinal, ele não era pago para isso, se o prefeito não gostasse, que mandasse uma faxineira.
Voltou a sentar-se e a apoiar os pés na mesa. Assim, nessa posição, pensava melhor, nivelando as extremidades e com o sangue fluindo para o cérebro. Era um vício antigo e se antes não se preocupara em livrar-se dele, agora já não tinha idade para fazê-lo. Observou a tela apagada do computador. Havia pichado com "branquinho" uma caretinha sorridente na tela agora inútil. Dava a impressão de que o micro lhe observava com um ar irônico; parecia dizer "você me deve essa, Zeb!".
Realmente devia. Se não fosse pelo colapso da rede global de comunicações talvez ainda estivesse remoendo uma aposentadoria ridícula e insuficiente, tentando sobreviver com as migalhas que a previdência lhe pagava. Realmente, há males quem vem para o bem. A tentativa infeliz e idiota dos Americanos em reverter o efeito estufa manipulando a ionosfera, causara grandes prejuízos ao mundo, mas fora para ele uma benção. Não entendia bem os dados técnicos do que os gringos haviam tentado. Não ligara muito antes, quando fora anunciada a experiência e depois, bem... depois já era tarde demais. Com todas as comunicações entrando em colapso, sem TV, sem rádio, sem Internet, ficou muito mais difícil e restrito saber o que acontecera. Jamais poderia imaginar que por causa dessa estupidez e de um hobby que compartilhava com os familiares e alguns amigos, iriam todos eles tornarem-se importantes e porque não dizê-lo ricos. Fora um golpe de sorte que sua família dominasse uma antiga técnica capaz de restabelecer as comunicações, mesmo que de forma limitada. Quando começaram a receber notícias dos parentes distantes as autoridades perceberam o potencial do que faziam. No inicio foram ameaçados para que o trabalho fosse feito independentemente de suas vontades. Alguns foram agredidos, presos, mas como a técnica requeria experiência, paciência e muita delicadeza acabaram revertendo o quadro e sendo colocados em posição de destaque, com polpudos recursos colocados a disposição.
Afastou as moscas que teimavam em comer os restos do almoço que ele havia escondido numa das gavetas entreabertas. O Prefeito estava demorando. Aquele menino devia estar fazendo hora em alguma sombra. Arrancaria sua pele e faria um belo quadro quando voltasse. Suspirou saudoso. Sentia falta de muitas coisas. Principalmente daquelas que eram tão comuns, tão disponíveis que haviam criado hábitos. Bebidas... fumo... Os bons e velhos prazeres. Com o fim das comunicações os processos produtivos e de distribuição haviam sido os próximos a sentirem a onda caótica que abateu o mundo. As fábricas pararam, o abastecimento de água e eletricidade simplesmente deixou de existir, tudo o que dependia da eletrônica foi afetado. Nada mais era entregue nas cidades que passaram a enfrentar fome e sede. Sem comunicação, sem computadores, sem água, sem comida, sem..., sem..., sem...
As revoltas populares foram contidas com muita dificuldade pelas autoridades. As poucas informações que agora chegavam, davam conta de inúmeros golpes de estado, guerras civis e tragédias similares. As vidas ceifadas se contavam aos milhões. Um calafrio sacudiu seu corpo. A Terra submergira numa era de loucuras. Um longo período de trevas ameaçara se instalar. Isso tornava seu trabalho extremamente importante. Com as comunicações retornando, o caos fora controlado e buscava-se voltar à normalidade. Limpou o suor sonhando com uma cerveja gelada. Que adiantava o dinheiro que agora ganhava se os pequenos mimos que tanto desejava não estavam mais disponíveis. Quem sabe quando essas coisas voltariam a estar disponíveis...

Interrompeu suas divagações com a chegada do prefeito, seguido de perto pelo garoto que se escondia atrás do corpulento homem, com um olhar de quem dizia que a demora não era sua culpa, mas da lerdeza da gorda figura que o protegia.
- A segunda mensagem já chegou?
- Ainda não, mas deve chegar a qualquer momento! afirmou. Sente-se senhor prefeito. Aceita um pouco de água?
- Obrigado - recusou o prefeito, observando com ar de nojo a espelunca que era a sala de Zeb. - Por que não mantém um ambiente digamos... mais saudável nesta sala? Você pode pagar por isso.
- Não vale a pena. Tirando o senhor ninguém mais entra aqui, além de mim e desse peste escondido lá no canto. É melhor guardar para quando houver algo que valha a pena comprar. Bebidas, cigarros, etc.
- Vejo que ainda sente falta do antigo modo de vida. Mas não é o único. Está sendo difícil para todos.
- Quando é que vocês, políticos, vão consertar essa porcaria toda que foi feita?
- Estamos trabalhando para isso, Zeb. Mas o caos foi muito grande. Muita coisa foi destruída e para complicar o povo está muito mais desconfiado agora. Não acreditam em tudo o que falamos.
- Pena que não fizemos isso antes.
- Ora Zeb, nem todos éramos a favor do que foi feito. Os que foram a favor do projeto já receberam o que mereciam durante a Grande Caçada. Todos foram sumariamente executados. O povo não esqueceu quem teve a idéia e nem de quem a apoiou. Souberam dar o troco.
- Pelo mal que causaram, foi pouco.
- Mas, você não deveria se lamentar tanto, afinal está enriquecendo a cada dia. Quando tudo se normalizar, o seu trabalho talvez não tenha mais tanta importância como agora.
- Por essa razão economizo. Sei que um dia tudo vai acabar voltando aos eixos e não quero voltar a depender da aposentadoria, que por sinal nem existe mais.
- Um homem previdente, um homem previdente...
Foram interrompidos pelo som da chegada da mensagem.
- Finalmente, resmungou Zeb, levantando-se para apanhá-la.
Deu uma passada de olhos no pequeno bilhete antes de entregá-lo ao prefeito, como que conferindo se a mensagem estava completa.
- Lembre-se, senhor, de unir as duas metades para que a mensagem completa faça sentido. Pelo que entendi estão para restabelecer o fornecimento de energia, é isso?
- Aos poucos, Zeb... aos poucos voltaremos a ter uma vida normal.
- Boa tarde, Zeb. - Afastou-se arfando o pesado prefeito juntando as duas mensagens e resmungando algo que Zeb não conseguiu ouvir.
- Boa tarde, prefeito. Respondeu Zeb distraído.
Dispensou o pequeno ajudante, que ansioso por esse momento saiu em disparada sem mesmo se despedir.
- Crianças - sorriu Zeb - quem sabe possam reconstruir com mais bom senso o que a nossa geração destruiu por ganância e orgulho.
Enquanto as sombras da sala se alongavam com os últimos raios do sol que penetravam pela janela, pôs-se novamente na sua posição favorita, sonhando com um mundo renascido e afagando carinhosamente a cabeça do exausto pombo-correio em seu colo.