Sul de concreto

Autora: Kika Perez – São Paulo SP

Deixando minha vida para trás, em uma cidade qualquer, de um estado pobre, seco, sofrido, faminto, batalhador, duro de ser vencido.
Subi no ônibus empoeirado, vazio de malas e bagagens. Cheio de minha angustia, tristeza e medo. Dizendo num aceno o quanto de saudade estava. Levando, deixando apenas a esperança de poder ajudar aos que ficavam, com os olhos secos porque as lágrimas a muito se acabaram.
Ao longo da estrada, passavam por mim os sonhos. E, a grande cidade ia chegando com toda sua imensidão, com todo o seu poder de construir fortunas e destruir ilusões.
Me agarrei a luta diária, como se fosse a vida dos meus queridos que longe deixei.
Assim, valeu a pena, a saudade que aperta o peito e fere a alma. Entre um dia e outro, sobre a dor de não ter ao meu lado, o meu povo, minha terra, a seca, o mandacaru magestoso que matava a sede e a fome, até disso sinto falta.
Pois aqui tudo tenho, muita água, comida, um teto. Mas, esse concreto consome e engole a todos, como se fossemos alimento para essa máquina de fazer crescer, até explodir.
Aos poucos me encaixo dentro da multidão que, corre para não perder o ônibus, a hora, a oportunidade, tudo tem que ser pego. Nessa corrida vou indo também, me perdendo, correndo.
Aos poucos faço parte desse mundo estranho, diferente do que eu avistava naquela estrada que me trouxe aqui, mas, que me dá a chance de continuar buscando, sonhando. Sonhando com a volta, com o abraço, com o descanso, o sono tranqüilo na rede surrada, uma casinha simples, numa cidadezinha lá no norte, que deixei a procura de minha sorte.