Saudades do sertão

Autora: Branca Neves - Rio de Janeiro RJ

“Não há ó gente ó não luar como este do sertão”
Severino e Raimunda são de uma época em que o Sudeste, principalmente Rio e São Paulo, era o Sul Maravilha. Pegar o pau de arara, o ônibus era uma aventura. Mas logo, eram acomodados em São Cristóvão, em qualquer um desses subúrbios, que não demorava muito para terem a sua casinha, modesta, mas própria, como toda casa de pobre. Severino era porteiro e Raimunda, empregada doméstica. Só se encontravam no final de semana e nos feriados. Desta união, nasceram oito filhos. As filhas, que eram quatro, duas foram ser enfermeiras e as outras duas, professoras. Os outros quatro filhos, um foi ser eletricista, outro, mestre de obra, o terceiro, encanador e o último, marceneiro.
Na geração seguinte, Severino e Raimunda, já não viam o Sudeste como o Sul Maravilha. Já existia liberdade de direitos, mas no lugar de casas no subúrbios, casas modestas nas favelas. Severino era servente e Raimunda, diarista. Só se encontravam no domingo e nos feriados. Desta união, nasceram quatro filhos. Os filhos homens, que eram três, um foi ser serralheiro, outro, PM e o terceiro, jogador de futebol. A única filha foi ser secretária.
Em compensação, os netos de Severino e Raimunda, porteiro e empregada eram médicos, engenheiros e arquitetos que de alguma forma contribuíram para o emprego dos filhos de Severino e Raimunda, diarista e servente.
Na geração atual, Severino e Raimunda, com toda a seca do mundo, têm medo de trocar o sertão pela violência e pelo tráfico de drogas do Rio e São Paulo. Só vão para lá se tiverem onde ficar. Eles conhecem várias histórias de famílias que foram com a cara e a coragem e estão dormindo nas ruas. Eles têm um casal de filhos e não estão criando os dois para se envolverem com a marginalidade e a prostituição.
Isto faz sentido quando os filhos de Severino e Raimunda pioneiros sentem um aperto muito grande no coração ao verem que seus netos, pessoas privilegiadas, que fazem parte da chamada elite carioca, se envolvem com drogas, mesmo usando o futebol e a música como fachada, ou se prostituem quando resolvem ser modelo, manequim, ator/atriz.
Os netos do Severino servente e da Raimunda diarista alguns descobriram o trabalho, a informática, o serviço público. Mas outros, se desviaram completamente. Falta de oportunidade, personalidade ou caráter?
E assim como eu iniciei, eu termino este texto: “Não há ó gente ó não luar como este do sertão...”