Da Pátria, Caneta e Armas

Autor: Marcio - Guarulhos SP

"Ele pensou mesmo em mudar o mundo com aquela porra de caneta em punho e muita merda na cabeça, não é mesmo? Achou que alguém iria, no final dos tempos, comprar aquela idéia comunista esquecendo-se que comprar era um verbo direto e de direita. Seus irmãos com os troncos nós, e olhar estreito, abriam caminho pela longa estrada da vergonha até o futuro, ferozes no trato com as armas, incapazes do ato do perdão, mas que choravam sobre a tumbas de suas velhas mães. Algumas noites quando alguma puta me fazia crer que ainda era possível extrair algum prazer daquela latrina, a pouca luz, dava para vê-lo lutando com as palavras e com o mundo. Me esforçava como um cavalo na lavoura para não meter-lhe uma bala na cabeça ou na minha mesmo. O idiota insistia em mudar o mundo com tinta, enquanto o sangue de nossas mulheres desciam vala abaixo. Na noite mais negras dos meus dias, quando tudo que queria, cansado da batalha, a morte, balbuciando algo como "meu Deus", minha mão segurava tão firme minha pistola que hora se confundia com um parte de meu próprio corpo, veio ele em minha direção:
"Acalma irmão, já está pra nascer o dia em que saberão de nossa aflição"
Cuspi-lhe a face. Covarde!
Pouco dias depois foi capturado, torturado e morto. Sua tinta tinha ferido a besta no próprio coração, havia prostrado e desnudado a face daquele que nos oprimia. Meu coração rasga em noites frias quando me lembro da minha intolerância, e de como vendi minha juventude por ideologias que nunca foram minhas. Enquanto minha espada lutava por uma bandeira sua pena lutava por minha alma. Eu cuspi em minha própria alma!"
- Desce mais uma Nicolas.
- Não acha que bebeu de mais, capitão? Não prefere uma Coca?
- HAHAHAHAHAHAH! Hummmmm!!! Mas é claro, não foi por isso mesmo que vendi minha alma?