Últimos instantes

Autora: Raissa Miranda

Contato: raissamiranda55@yahoo.com.br

Já era manhã e o caos se fazia, quando deitado em meu leito, ouvia estalar em meus ouvidos os nós desesperados das gargantas ali presentes, e inundado pela pena que me rodeava, apenas fui capaz de algo escrever, e este tão mais refúgio do que algo se compunha assim:
"Queridos parentes e honrosos amigos que aqui se fazem presentes, creio que já é hora de partir, e nada aqui fazem se não esperar minha morte, morte que ao atacar-me tão frágil peito, leva-me cada vez mais rumo a um caminho sem fim, caminho que jamais imaginara eu tomar um dia. Enquanto disserto minhas desprezíveis e vãs lástimas, não deixo de notar em vossas faces tão transparente preocupação, a qual se mistura a cada movimento de seus traços, com a enojadora espera pelo fechar permanente de minhas pálpebras, e ainda mais, o ponto de interrogação que se explicita a cada letra que escrevo neste velho papel. As formas que dou à tinta escorrida da caneta que entorno em minhas mãos, formam a mais sincera mensagem, levando em consideração a alma de quem escreve, nestas sucintas frases com as quais preencho tantas linhas, expresso meu mais profundo arrependimento e deixo meu mais necessário conselho, eis aqui um homem que morre sem conhecer as ondas que quebram à beira das praias do Rio de Janeiro, que adormece lentamente rumo ao canto eterno dos anjos, sem tocar seus pés na terra, sem sujar suas mãos na lama, sem ouvir a voz de um mendigo, sem ter vivido a mais simples e sincera amizade, eis aqui um homem que morre, naturalmente pela sua velhice, e morre ainda mais pelo desgosto, a terrível desaprovação de seu passado, o qual gastou com a tão somente finalidade de agradar a tudo e a todos, e que nos seus últimos instantes de vida, implora a todos os Senhores e Senhoras que o observam para que vivam, para que façam tudo o que não fez, para que arrependidas lágrimas como as que hoje escorrem não se repitam. Caso minha breve testemunha não vos sirva, peço-lhes que analisem minha triste condição e nela espelhem-se, para que não cometam os erros que cometi, não deixem o beijo para o partir da boca, nem o amor para o fechar dos olhos, nem o toque para o afastar das mãos, assim não deixem a vida para o chegar da morte."