Começo do fim - Capítulo 1

Autor: Rafael Barbosa

Contato: rafael_santos_sk8@hotmail.com

Olá, sou Rafael Barbosa, que já tem algumas sinopses para telenovelas publicadas aqui. Agora mais uma vez volto, a fim de publicar o roteiro do primeiro capítulo de uma de minhas sinopses, \"Começo do fim\". Envio, porque sinto falta de artigos e textos que expliquem como técnicas de roteiro na escrita das telenovelas. Este que envio, claro se trata de um roteiro amador, mas é fruto de minhas leituras e pesquisas e com certeza ajudará aqueles que ainda se sentem meio perdidos quanto a escrita de roteiros, espero que seja válido, lá vai. Roteiro: Começo do fim Escrito por: Rafael Barbosa dos Santos E-mail: Rafael Barbosa dos Santos Contato: Cel. (18) 81395642 Blog: Brincando de escrever (brincdeescrever.blogspot.com) Apreciem!

ROTEIRO CAPÍTULO 1 (TRATAMENTO UM)
CENA 1 - MANSÃO DE AUGUSTO/SALA - INT/NOITE. Augusto desce lentamente as escadas. PG da sala revela uma porção de pessoas, todas de luto em clima fúnebre em torno de algo. Intrigado, Augusto vai se aproximando. Passa entre as pessoas que não notam sua presença, como se ele estivesse invisível. CAM vai buscar Marli, Teobaldo e Alberto, os pais e o irmão de Augusto que estão abraçados, aos prantos. Do lado oposto está sua esposa Ana, vestida em um belo vestido preto, também chorando, sendo consolada por Rômulo amigo de Augusto. Augusto vai se enfiando no meio das pessoas, até que consegue ver um caixão, ainda mais perturbado se aproxima, e se assusta ao constatar que o corpo velado no caixão é o seu. Em pânico, Augusto olha para todos os lados com desespero. Ninguém o enxerga. Está sozinho. (PV) vista embaralhada. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 2 - MANSÃO DE AUGUSTO/SUÍTE PRINCIPAL - INT/MANHÃ. Augusto acorda subitamente, com a mesma tensão da cena anterior, ofegante, assustado. Ao seu lado Ana dorme um sono tranqüilo. Augusto olha em volta, e percebe tudo no lugar, nada fora do normal. Agora aliviado constata que tudo não passou de um pesadelo. Lança um olhar para Ana. Levanta-se e caminha rumo ao banheiro. CORTA PARA:
CENA 3 - RIO DE JANEIRO/PLANOS AÉREOS - INT/MANHÃ. Planos aéreos do melhor do Rio de Janeiro. Praias, calçadão, Cristo, pão de açúcar e etc. CORTA PARA:
CENA 4 - MANSÃO DE AUGUSTO/BANHEIRO SUÍTE - INT/MANHÃ. Augusto liga o chuveiro. Toma seu banho. Relaxa em baixo d’água. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 5 - MANSÃO DE AUGUSTO/SUÍTE - INT/MANHÃ. Augusto termina de se vestir, colocando o paletó. CAM vai buscar Ana que desperta calmamente. Ela olha o marido surpresa. ANA - Já de pé? AUGUSTO - (ajeita a gravata,) Resolvi levantar mais cedo hoje, tenho uma reunião importante. ANA - Reunião sobre o que? AUGUSTO - (frio) Pra que você quer saber? ANA - Uma mulher não pode querer saber sobre o trabalho do marido? AUGUSTO - (arrogância) Até pode, mas não há necessidade, afinal, você não tem que se preocupar com nada á não ser gastar o dinheiro que eu ganho. Augusto dá um nó na gravata e segue para o banheiro calado Fecha em Ana, sem graça. CORTA PARA:
CENA 6 - MANSÃO DE AUGUSTO/SALA DE JANTAR- INT/MANHÃ. Mesa do café farta, com pães, suco, fruta e etc. Marli e Teobaldo tomam café em lados opostos, Alberto de cara amarrada está ao lado de Marli. Conceição bastante ágil surge com uma forma de bolo que deposita na mesa, ao mesmo tempo Ana e Augusto aparecem e vão se sentando. Conceição sai de cena. MARLI - Bom dia meu filho! TEOBALDO E ALBERTO - Bom dia! AUGUSTO - (seco) Bom dia! MARLI - Olha só, veio tomar café com a família, há quanto tempo você não faz isso hein? Sai sempre atrasado para empresa. ANA - Pois é hoje eu acordei e ele já estava de pé. TEOBALDO - Madrugou meu filho? AUGUSTO - (leve irritação) Só resolvi acordar mais cedo, não vejo motivo pra tanto falatório. Silencio. Todos tomam café. Marli olha para Alberto, e para Augusto, inquieta. MARLI - (para Alberto) Você não vai falar com o seu irmão, Alberto? ALBERTO - Falar o que mãe? MARLI - Há você sabe meu filho, fala logo, Todos se voltam para Alberto. ALBERTO - (Desconfortável) Mãe, não precisa ser agora! MARLI - E porque não agora? TEOBALDO - Deixa o menino Marli! MARLI - Não se meta! AUGUSTO - Falar o que? ANA - (Conciliadora) Gente não vamos aborrecer o Augusto agora, ele tem uma reunião importante/ AUGUSTO - (corta) Não, agora eu quero saber, (para Alberto) O que é que você tem para me dizer Alberto? Close de Alberto tenso. CORTA PARA:
CENA 7 - PARATY/PLANOS GERAIS - INT/DIA. Belas imagens da cidade Museu, em um dia ensolarado. - Praias - Águas de Baía da Ilha grande - Porto - Igreja de Santa Rita - Capela de nossa senhora das dores - Igreja de nossa senhora do Rosário e São Benedito. - Ruas e Avenidas - casario colonial (centro histórico) - Sobrados. CORTA PARA:
CENA 8 - TRABALHO DE LUCIANA/COZINHA - INT/DIA. O quadro se abre com os joelhos de Luciana junto ao chão, enquanto ela limpa uma mancha no piso. CAM vai lhe revelando aos poucos. De uniforme, Luciana para por um instante, respira fundo. Ar preocupado. Volta a esfregar o piso. CORTA RAPIDO PARA:
CENA 9 - TRABALHO DE LUCIANA/COZINHA - INT/DIA. Luciana agora enxuga á louça, um pouco trêmula, visivelmente ansiosa. Cabeça em outro lugar. PATROA (em Off) - (grita) Luciaaaana, Cadê o chá que te pedi? Assustada com o berro da outra, Luciana deixa um prato cair, que se parte em mil pedacinhos. Imediatamente ela se agacha e começa a juntar os cacos com as próprias mãos. Sua patroa, uma senhora grisalha, feia e acima do peso se aproxima. Ao se deparar com os cacos, fica histérica. PATROA - Eu não acredito que você deixou quebrar uma peça dessas LUCIANA - Mil perdões, dona Beth, eu me distraí/ PATROA - Você tem noção do que uma louça dessas significa, isso aqui é da época do Brasil colônia, está na minha família há anos... (faz drama), meus antepassados devem estar se revirando em baixo da terra. LUCIANA - desculpa dona Beth, eu vou juntar tudo, olha à senhora pode descontar do meu salário/ PATROA - Do seu salário, HAHAHA faz me rir, pra pagar esse prato, você teria que trabalhar pra mim pelo menos um ano de graça. Estava com a mão na onde hein? Por falar nisso não é de hoje que ando notado você meio aérea, onde anda com a cabeça menina? LUCIANA - (quase chorando) Sabe o que é dona Beth, é que/ Antes que Luciana se explique, adentra pela porta dos fundos, um jovem rapaz, o segurança. SEGURANÇA - Com licença dona Beth, tem um cara aí fora, querendo dar um recado pra Luciana. É sobre a mãe dela! PATROA - mais essa agora! Close de Luciana angustiada. CORTA RAPIDO PARA:
CENA 10 - TRABALHO DE LUCIANA/FRENTE - EXT/DIA. Conversa em andamento. Luciana com Fábio seu amigo, chora com o que ele acaba de dizer. LUCIANA - Como é que é Fábio? Você está me dizendo que a minha mãe piorou? FÁBIO - Eu sinto muito Lú, mas os médicos disseram que o estado da dona Maria é muito grave. LUCIANA - Isso não pode estar acontecendo!! FÁBIO - Ela esta muito agitada, pergunta de você o tempo todo, acho melhor você ir lá. Aqui entra em off o diálogo da cena seguinte: PATROA (EM OFF) - Deixa eu ver seu eu entendi direito... JÁ CORTOU ANTES PARA:
CENA 11 - TRABALHO DE LUCIANA/SALA - INT/DIA. Luciana já sem uniforme, com uma roupa bem simples, olhos e nariz vermelho de tanto chorar, está diante da patroa. Fábio á parte. PATROA -... Você ta me pedindo pra sair, com esse monte de serviço pra fazer? Você não acha que é demais não, filhinha? LUCIANA - Eu preciso ver a minha mãe no hospital... Agora dona Beth! PATROA - Mas agora, não dava pra ser/ LUCIANA - (cortando, firme) Tem que ser agora... Á minha mãe ta morrendo. Luciana desaba em lágrimas. Close da patroa penalizada. LUCIANA - Eu preciso estar do lado dela... Pode me demitir se quiser, mas eu não abro mão de ficar com a minha mãe! PATROA - (contrariada) Tudo bem, se é assim, eu é que não vou fazer a carrasca, vai lá segurar a mão da moribunda, pode ir. LUCIANA - Obrigada, dona Beth! Luciana sai com Fábio deixando a patroa com cara de tacho. CORTA PARA:
CENA 12/MANSÃO DE AUGUSTO/SALA DE JANTAR - INT/DIA. Continua de onde parou na cena 5. Augusto questiona o irmão. Todos na expectativa. AUGUSTO - Então Alberto, eu to esperando! ALBERTO - Bem, é que... É que.../ MARLI - Para de enrolar menino! TEOBALDO - Deixa ele falar! Marli encara o marido. Tempo. ALBERTO - Bem, eu não ia nem te falar agora, mais é que eu to... Eu to Precisando de uma grana? AUGUSTO - Grana? MARLI - (para Augusto) infelizmente a tal loja de artigos de skate não deu certo. AUGUSTO - (agressivo) Que novidade, já sabia que isso ia acontecer, mas dessa vez você se superou Alberto, em menos de dois meses e você já faliu? ALBERTO - Eu Calculei errado mano, não soube analisar o mercado, eu não consegui tantos clientes como eu esperava, e agora to devendo fornecedor, aluguel do prédio/ AUGUSTO - (T) Mas é muita incompetência! ANA - Querido/ MARLI - Calma Augusto! AUGUSTO - (Extremamente irritado) Calma nada, eu já cansei de investir o meu dinheiro nessas idéias do Alberto, nada dá certo, já foi lanchonete, locadora, lan house, agora loja de skate, qual vai se á próxima, uma Barraquinha de pastel na feira? MARLI - Pelo amor de Deus Augusto/ ALBERTO (arrasado) - Ele tá certo mãe, eu sou um fracasso! Alberto se levanta rapidamente. Closes alternados de todos. Clima tenso. Silencio. AUGUSTO - Ele precisa desistir dessas idéias e estudar, fazer uma faculdade, se formar ou quem sabe passar em algum concurso público. MARLI - Seu irmão se esforça muito, ele só não anda tendo sorte. AUGUSTO - A gente não tem que contar com a sorte mãe, ou você acha que eu cheguei a onde cheguei por sorte? Não, eu estudei, eu trabalhei duro, fui atrás, não tinha pai e mãe rico e muito menos irmão pra me bancar. TEOBALDO - Você tá certo meu filho! Marli se levantando alterada. MARLI - (para Teobaldo) Você não tem que abrir a boca Teobaldo, porque se o Alberto é assim hoje, perdido tadinho, a culpa é sua que nunca soube orientar, incentivar/ ANA - Briga agora não dona Marli! TEOBALDO - Então, agora a culpa é minha. Se eu realmente não fosse um bom pai, o Augusto não seria quem é? MARLI - (ri) Há faz me rir, você tá querendo dizer o quê?... ANA - Gente, vamos se acalmar! CAM vai buscar Augusto ainda mais irritado, se segurando para não explodir. Ana percebe. Cresce a discussão. Falas se sobrepõem. RITMO. MARLI - Quer me dizer que você é responsável pelo Augusto ser bem sucedido, logo você, o rei dos fracassados/ TEOBALDO - Fracassado não hein, eu sou teu marido, e te sustentei por muito tempo/ ANA - Gente, por favor, seu Teobaldo se acalma! MARLI - Me sustentou, mais essa agora, não parava em emprego nenhum/ TEOBALDO - Sustentei sim, nunca faltei aos meus compromissos. MARLI - Você sempre vai ser um nada, fracassado sim/ TEOBALDO - E você, uma inútil, desocupada, / ANA - para com isso gente/ MARLI - O quê? Repete/ Augusto fica de pé e bate forte na mesa. AUGUSTO - Chega! Todos se voltam para ele. Silencio. AUGUSTO - Parem com isso... Eu me mato de trabalhar naquela empresa pra ter que ficar ouvindo isso? Discussão de um casal em crise a essa altura da vida. MARLI - Tá querendo dizer que to velha demais pra discutir com meu marido/ AUGUSTO - Chega mãe... Olha eu trabalho pra sustentar essa casa, e o mínimo que vocês podem me dar em troca é paz, um pouco de sossego. Eu to preferindo ficar na empresa, do que ficar aqui. TEOBALDO - (envergonhado) desculpa filho! AUGUSTO - Desculpa, não resolve nada pai... Augusto respira fundo. Tempo. Ana observando. AUGUSTO - Vou pro trabalho, perdi a fome. Augusto sai, Ana vai atrás. Marli e Teobaldo se encaram. MARLI - Ta vendo só! TEOBALDO - Foi você quem começou! MARLI - (magoada) Como eu pude ter me casado com você, maldito dia em que te conheci, estorvo! Marli sai, Fecha em Teobaldo abalado. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 13 - MANSÃO DE AUGUSTO/SALA - INT/DIA. Augusto cruza o quadro, como um raio, Ana tenta lhe alcançar. ANA - Querido espera! AUGUSTO - Me deixa Ana! Augusto sai e bate a porta. Fecha em Ana descontente. CORTA PARA:
CENA 14 - HOSPITAL PARATY/SALA DE ESPERA - INT/DIA. Luciana chega com Fábio, apavorada. Dona Clarita os recebe. Bastante fluxo de pessoas. LUCIANA - Como é que tá minha mãe? CLARITA - (triste) O Fábio já deve ter te falado, ela piorou. LUCIANA - Eu quero ver ela, falar com ela. Close de Luciana em lágrimas. CORTA RAPIDO PARA:
CENA 15 - HOSPITAL PARATY/UTI - INT/DIA. Há uns Três ou quatro leitos ocupados. Pacientes em estado grave. Dona Maria, bem frágil e debilitada, está em um dos leitos. Luciana adentra ao quarto acompanhada de uma enfermeira. Olha emocionada para mãe. ENFERMEIRA - Você tem 5 minutos! LUCIANA - Tudo bem! A enfermeira sai. Luciana caminha até a mãe. Se senta na cama, segura a mão dela. LUCIANA - Mãezinha, eu to aqui! Dona Maria abre os olhos lentamente, nota a filha. Se olham emocionadas. D. MARIA - (com esforço) Filha... LUCIANA - Não precisa falar nada! D. MARIA - precisa sim... LUCIANA - Deixa eu cuidar da senhora? D. MARIA - Você sempre Cuidou de mim... E eu... Eu sempre... Te dei... Muito... trabalho. LUCIANA - Para com isso mãe! D. MARIA - Eu preciso falar... Me deixa... falar! Emoção vai crescendo. D. MARIA - Eu errei muito nessa vida... Mas eu sempre amei... Você... LUCIANA - (quase não consegue falar) Eu sei! D. MARIA - Eu te peço perdão... Minha filha, por eu não... Por eu não ter sido... A mãe que você merecia ter. Luciana acaricia os cabelos da mãe. LUCIANA - Você foi uma mãe maravilhosa! D. MARIA - Você sabe... que eu não fui... Me perdoa minha filha (vai as lágrimas), eu... Preciso... Ouvir... Que você me perdoa! LUCIANA - Eu não tenho que te perdoar / D. MARIA - (quase sem voz), por favor... Filha... Eu preciso... Ouvir. No monitor, é possível ver que os batimentos de Dona Maria, aceleram em um ritmo frenético. Luciana se deita sobre a mãe, a abraça. LUCIANA - Eu perdôo! CLOSE em dona Maria, que aliviada, parece se entregar. Luciana chora copiosamente. O monitor pára, os batimentos zeram, Dona Maria fecha os olhos. Está morta. Luciana aperta firme a mão da mãe. CAM vai se afastando, com Luciana debruçada sobre o corpo. CORTA PARA: CENA 15 - CONSTRUTORA/HALL DE ESCRITORIOS - INT/DIA. Augusto acaba de chegar, Mal humorado passa rapidamente diante do olhar de Rita a secretária, rumo á sua sala. RITA - Bom dia Dr. Augusto! AUGUSTO - Na minha sala agora, Rita! Augusto entra e Rita vai atrás. Corta para: CONSTRUTORA/SALA DE AUGUSTO/INT/DIA. Augusto se senta em sua mesa, e começa a mexer em papeis que estão sobre ela. Rita em sua frente. AUGUSTO - (distraído) Algum recado para mim? RITA - O Adelmo ligou marcando aquela reunião pra discutir sobre a compra dos terrenos de Jacarepaguá. AUGUSTO - marcou pra quando? RITA - Semana que vem na quinta feira de manhã. AUGUSTO - Ok, o que mais? RITA - Bom tem aquele jantar com o Altair da empreiteira Amaro que já foi confirmado, e a visita do seu Acácio do Edifício Maison, pra discutir o projeto de infra-estrutura do prédio. AUGUSTO - ótimo, já preparou a sala de reuniões? RITA - Já sim, está tudo pronto! AUGUSTO - Ok, já estou indo pra lá, obrigado e pode ir Rita. Rita vai saindo, se lembra de algo e recua. RITA - Já ia me esquecendo, seu médico Dr. Reinaldo ligou avisando que seus exames estão prontos. Augusto congela, para o que está fazendo, fica tenso. AUGUSTO - Quando ele ligou? RITA - Hoje de manhã! Fecha em Augusto preocupado. CORTA PARA:
CENA 16 - CONSTRUTORA/SALA DE REUNIÕES - INT/DIA. Estão reunidos: Augusto, Rômulo, Marcos, Gustavo e mais uns três ou quatro homens e duas mulheres, que debatem. Rita á parte faz suas anotações. AUGUSTO - Bem, não pretendo me estender muito, fica decidido então que não vamos aceitar fazer a obra da tal clínica. ROMULO - É a melhor decisão, fazer negócio com um empreendimento inviável com futuro incerto não vale á pena, seria prejuízo na certa. A maioria dá sinais de que concordam. Entre elas Gustavo que atento faz anotações. Marcos contrariado se levanta. MARCOS - (seguro) Me permite discordar Rômulo. (Para Augusto) Eu acredito que a construção dessa clínica será de grande importância pra construtora. É um projeto de visibilidade, os envolvidos têm credibilidade no mercado. Acho que vale fechar o negócio, pois teremos um excelente retorno. Todos se voltam para Marcos que mantém um ar superior. MARCOS - (entregando a Augusto) Tomei á liberdade de preparar um relatório, onde indico às principais vantagens de se fazer a obra da clínica e reúno o maior número de informações possíveis sobre o projeto. Acho que vale a pena você conferir. Augusto indiferente passa o olho rapidamente no relatório. AUGUSTO - Muito bem Marcos, se saiu na frente... Augusto joga o relatório sobre á mesa. AUGUSTO - acontece que já tomamos uma decisão de comum acordo, a reunião está encerrada. MARCOS - Eu sei disso, mas eu discordo do resultado, e acho que vale á pena repensar sobre o assunto. AUGUSTO - O que faz você achar que eu vou mudar o resultado de uma reunião que foi decidida por unanimidade por toda uma equipe? Todos aqui concordam que o negócio é inviável. (para Gustavo) Até mesmo o nosso estagiário. Como é mesmo o seu nome rapaz? Reação de Gustavo. GUSTAVO - Gustavo. AUGUSTO - Gustavo me fala sua opinião á respeito da reunião. GUSTAVO - (tímido) Bom, eu concordo com a maioria, não acho que seja um bom negócio investir nessa obra, justamente pela inviabilidade do empreendimento, seria se arriscar muito, e eu acho que não vale o risco. Marcos encara Gustavo querendo fuzilá-lo. MARCOS - Augusto, vai me desculpar, mas não acho que deva dar ouvidos á um mero estagiário, que/ AUGUSTO - Eu dou ouvido a todos que fazem parte da minha equipe, tanto que estou te ouvindo agora (olha o relógio), e estou perdendo meu tempo. Você é um bom profissional Marcos, articulado, tem lábia, ambição, mas tem uma coisa que me incomoda em você. É muito topetudo, arrogante, já reparou que você é sempre do contra. MARCOS - Olha Augusto eu só/ AUGUSTO - (corrige) Minha decisão já está tomada. MARCOS - (nervoso) Pode pelo menos ler o relatório. Augusto ri sarcástico. Closes alternados de todos. AUGUSTO - E ele ainda insiste, olha o que eu faço com seu relatório. Augusto pega o relatório, e vai rasgando pedaço por pedaço diante do olhar furioso de Marcos que tenta manter o controle. Reação de todos os outros espantados. AUGUSTO - Pronto... Você é bom Marcos, mas essa sua empáfia não vai te levar á lugar nenhum aqui dentro. MARCOS - (vermelho de raiva) Você está certo, me desculpe. AUGUSTO - Você me permitiria encerrar essa reunião agora, ou vai discordar de mais alguma coisa? MARCOS - Não, por mim a conversa acaba aqui, me dou por vencido. AUGUSTO - ótimo, então vamos todos voltar ao trabalho. Com licença. Augusto sai, e todos os outros vão saindo atrás. Marcos mantendo controle fica. Aqui em off entra á fala da cena seguinte: MARCOS (EM OFF) - (ódio) Desgraçado... JÁ CORTOU ANTES PARA:
CENA 17 - CONSTRUTORA/SALA DE MARCOS - INT/DIA. Ligar diálogo pela cena anterior: Marcos sozinho, irado. Joga uns papeis de sua mesa no chão. MARCOS - Maldito dos infernos, quem ele pensa que é pra me/ (se contem) Mas isso não vai ficar assim, você não perde por esperar, babaca! CAM vai buscar Gustavo que passa no corredor e acaba vendo Marcos pela porta entreaberta. Corta para: CONSTRUTORA/CORREDOR - INT/DIA. Gustavo ainda observando intrigado, segue pelo corredor. Corta novamente para: CONSTRUTORA/SALA DE MARCOS - INT/DIA. Marcos mais calmo recolhe os papeis do chão, se senta, desaperta a gravata, pega seu celular e disca. Atendem do outro lado da linha. MARCOS (Ao cel.) - Oi, sou eu, a gente precisa se ver, te encontro em uma hora no mesmo lugar de sempre! CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 18 - CONSTRUTORA/SALA DE AUGUSTO - INT/DIA. Augusto e Rômulo sentados. ROMULO - Eu acho que você pegou pesado demais, ta certo que o Marcos tem o ego nas alturas, mas você humilhou o rapaz, e olha que ele é um excelente profissional. AUGUSTO - (mexendo em papelada) existem centenas de profissionais por aí, já faz tempo que eu estou reparando o Marcos, tava na hora de cortar as asinhas dele. RÔMULO - Mas precisava ser na frente de todo mundo (ri), viu como ele ficou sem graça. AUGUSTO - É bom pra ele me conhecer de verdade, e procurar mudar, porque se não, não vai durar muito aqui. RÔMULO - Se eu fosse você, tomava cuidado com a forma com que trata as pessoas, não acha que exagera ás vezes? AUGUSTO - (levantando e ajeitando a maleta) Nenhum pouco, falo o que penso, se a pessoa não está preparada para ouvir á verdade, não posso fazer nada. Augusto se levanta, pronto para sair. RÔMULO - Entendi. Vai aonde? AUGUSTO - Fazer uma visita ao médico. CORTA PARA:
CENA 19 - CONSTRUTORA/ÁREA DO CAFEZINHO - INT/DIA. Soraia com uma sacola imensa, tenta vender seus cosméticos para a mulherada. Está presente Rita, Janice e mais umas duas. Burburinho. Leve bagunça. SORAIA - (produto na mão) E então minha filha, ó esse aqui é creme de morango, menina, mas isso faz um bem pra pele, e ó, ta na promoção, sente só o cheiro. (entrega a Rita, que sente) JANICE - E você trouxe aquela colônia que te pedi Soraia? SORAIA - Ai amor vou ficar te devendo, mais ó, se você quiser, faço o pedido e aí vem na próxima remessa, vai querer? JANICE - Ai acho que vou querer sim. RITA - Hum cheiroso né? SORAIA - Gostou, eu to te falando, coisa boa menina, não vendo porcaria não. RITA - Pode marcar pra mim esse creme. SORAIA - Vou marcar sim, seu creme e a colônia da outra aqui, e o resto, hein mulherada, vão querer nada não? SECRETÁRIA - Hoje não. SORAIA - Aproveita menina, tem bastante coisa na promoção. RITA - Quando chegam esses pedidos Soraia? SORAIA - Colega, daqui pra uns quinze dias ta chegando, aí trago aqui, e tu já compra mais. RITA - Que isso, to podendo gastar não. SORAIA - Há mais vale á pena, ficar cheirosa, perfumada, gostosona pro teu bofe menina,.E ó, vou pegar umas biju pra vender, coisa fina/ Neste momento, Gustavo chega e interrompe o falatório. GUSTAVO - Opa desculpa meninas, atrapalho? SORAIA - (reconhece) Gustavo, e aí menino? GUSTAVO - (olhar apaixonado) Oi Soraia, você por aqui! SORAIA - Pois é, to trabalhando, mulherada aqui ó, tudo minhas clientes. JANICE - Hum, cliente. SORAIA - Cliente sim minha filha! Ouvi dizer que freguesa é coisa de pobre. Gargalhadas gerais. SORAIA - E tu Gustavo, ta gostando de trabalhar aqui, é estágio que cê ta fazendo não é? GUSTAVO - è sim, to adorando, ta sendo muito bom pra mim. SORAIA - Imagino trabalhar numa empresa chique dessas, dona Benedita que deve ta feliz né não? GUSTAVO - a Mãe ta bem contente mesmo. RITA - Bom, deixa eu voltar pro trabalho. SORAIA - (Vai juntando) meninas, deixa eu já juntar minhas coisa, que eu também tenho que passar na casa de umas madame cliente minha aí. GUSTAVO - Quer ajuda? SORAIA - Que nada, to acostumada já. Soraia termina de juntar e já vai saindo. SORAIA - Então ó, quando chega às coisas que cêis pediram, eu venho entregar, e ó vai divulgando meus produto pra mulherada aí hein. . RITA - Pode deixar JANICE - Boas vendas! Soraia diante de Gustavo. SORAIA - E tu menino, bom trabalho, a gente se vê lá na vila. GUSTAVO - a gente se vê sim. SORAIA - Ta, então fui gente, beijo até mais. RITA - Tchau. Soraia já saiu. JANICE - Essa aí é uma figura né. RITA - (observando Gustavo) Pois é! Rita se aproxima de Gustavo com pensamento em Soraia. RITA - E você vai ficar aí babando é? GUSTAVO - (sem graça) Eu? RITA - Não, eu de certo, bem vi seu olho comprido pra cima da Soraia viu. GUSTAVO - Que isso Rita, ela é minha vizinha conheço á um tempão já. RITA - Sei... Conversando já fora de áudio, vão saindo seguidos por Janice e pelas outras. CORTA PARA:
CENA 20 - CASINHA DE LUCIANA/QUARTO - INT/DIA. Luciana recolhe um vestido estampado do armário no meio de alguns outros. Olha o vestido, levemente emocionada. Abraça a peça de roupa, se senta na cama. Fábio na porta do quarto lhe observa. LUCIANA - Ela adorava esse vestido, não tirava ele do corpo, é com ele que ela vai ser enterrada... Ai como é difícil isso! FÁBIO - (se aproximando) Eu sei como é, passei por isso quando perdi meu pai! LUCIANA - Mas você ainda tinha á sua mãe, e eu? Eu não tenho ninguém á não ser eu mesma, to sozinha na vida, cheia de dívidas, aluguel, água, luz, e pra piorar as dividas de jogo da minha mãe. FÁBIO - Você não ta sozinha, eu to aqui, sempre, do seu lado. LUCIANA - (Desaba) Brigada... Muito obrigada! Se abraçam. CORTA PARA:
CENA 21 - MANSÃO DE AUGUSTO/SALA - INT/DIA. Ana agoniada finge ler uma revista, Teobaldo está esparramado no sofá, sem perceber nada. CAM vai buscar Marli descendo as escadas, que vai se colocar no centro da sala. MARLI - Alberto ta arrasado, ta lá trancado no quarto, tentei de tudo pra animar ele, mais nada adiantou. TEOBALDO - Você mima demais esse garoto, por isso que ele é assim. MARLI - Cala essa boca, que não quero mais ouvir sua voz hoje. TEOBALDO - Eu falo quando eu quiser minha filha, os incomodados é que se mudem/ ANA - Gente já vai começar com essa briga de novo, chega por hoje né! MARLI - Nem me abalo com esse aí! Agora o Augusto, francamente exagerou e muito, não devia ter falado daquele jeito com o irmão dele. ANA - O Augusto anda muito estressado com coisas lá da construtora. MARLI - Mas ele vive estressado, de mau humor, eu nem reconheço mais o meu filho. ANA - Eu vou conversar com ele... Bom gente eu tenho hora marcada no cabeleireiro, e já estou atrasada. MARLI - De novo cabeleireiro, mas você não sai mais do salão? ANA - (tensa) è um tratamento novo que eu to fazendo pra hidratação sabe! MARLI - (desconfiada) Sei... ANA - Eu vou indo, até já! Ana sai. MARLI - Salão de beleza, vaidosa essa Ana... TEOBALDO - ô velha chata! MARLI - Cala boca, encosto! Os dois ficam de cara virada. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 22 - MOTEL/SUÍTE - INT/DIA. CAM vai revelando os corpos de Ana e Marcos entre lençóis. Os dois trocam beijos ardentes. Param e Marcos sorri vaidoso. MARCOS - Há como é bom saber que Augusto Nobre não passa de um corno. A sensação de saber que eu sou o responsável pelos chifres que aquele idiota carrega, é maravilhosa. Enquanto ele ta lá bancando uma de doutor, eu to na cama com a mulher dele. (sorri) ANA - (séria) Eu me sinto um lixo quando você fala assim, você me quer pra que? Só pra cornear o Augusto é isso? MARCOS - (carinhoso) Que isso meu amor, eu gosto de ficar com você, você sabe disso minha gata. ANA - (levantando - se irritada) Não sei não, aliás, eu não sei de mais nada... Marcos eu não agüento mais ficar naquela casa, agüentando aquela família. MARCOS - Epa! Nem começa, você sabe que eu preciso de você lá, no território inimigo, você é os meus olhos naquela casa. ANA - E até quando isso vai durar? MARCOS - (autoritário) O tempo que for necessário. Que foi Ana, quer dá pra trás agora? ANA - Não ta fácil não viu Marcos! Marcos se aproxima segura o rosto de Ana. MARCOS - Relaxa meu amorzinho, logo isso vai acabar você vai deixar aquela casa e nós vamos passar á perna no idiota do seu marido (lhe dá um selinho). ANA - E como vai ser isso? Você não fala nada dos seus planos/ MARCOS - Ana confia em mim, eu sei o que eu faço... Agora vem cá, ta esperando o que pra engravidar do babacão hein? ANA - Você não ta falando sério, você quer mesmo me obrigar a engravidar? MARCOS - (firme) É claro, se der alguma coisa errada, a gente vai ter pelo menos a pensão do idiota, e além de tudo você vai ser mãe do herdeiro da construtora nobre, já pensou nisso? Se não, é melhor começar a pensar. Que é ta preocupada com o corpinho? ANA - Não é isso, filho é coisa séria cara! MARCOS - Qualquer coisa você contrata uma babá pra cuidar do moleque, não precisa se preocupar/ ANA - Não é só isso Marcos Ana preocupada anda de um lado para o outro. ANA - O Augusto anda estranho, distante, nem me procura mais na cama, acho que ele não é mais apaixonado por mim. Marcos se enfurece. MARCOS - O que? Ficou maluca, como assim não é mais apaixonado? Olha lá Ana, faz sua parte, era só o que me faltava o babacão te dar um pé na bunda, isso não pode acontecer, eu preciso desse seu casamento... Se ele se separar de você vai ser muita incompetência sua, usa seu jogo de sedução, fura camisinha, pega camisinha usada no lixo, dá seu jeito, você não vê novela? Presta atenção, você precisa manter esse casamento, e um filho é a chance de assegurar isso. ANA - Até onde você quer chegar Marcos? Eu pensei que eu ia me casar, dá o famoso golpe do baú e pronto, o que é que você quer de verdade hein? Se a gente é parceiro acho bom você começar á dividir as coisas comigo. MARCOS - Para com isso Ana, você sabe o suficiente, no fim vai dar tudo certo, daqui á um bom tempo a gente vai estar por aí fazendo um tour pela Europa gastando toda a grana do babacão, confia em mim meu amor, você confia? ANA - (hesitante) Confio! Os dois se beijam. CORTA PARA:
CENA 23 - CLÍNICAS TOLEDO/RECEPÇÃO- INT/DIA. Meia dúzia de pessoas sentadas aguardando. Augusto acaba de chegar apressadamente. Vai até o balcão, de onde uma pessoa acaba de sair. RECEPCIONISTA - Dr. Augusto Nobre, veio ver doutor Reinaldo né? AUGUSTO - Isso mesmo! RECEPCIONISTA - Só um segundinho, vou avisar que o senhor chegou. CLOSE em Augusto tenso. CORTA RÁPIDO PARA;
CENA 24 - CLÍNICA TOLEDO/SALA DR. REINALDO - INT/DIA. Batidas na porta. Augusto entra, vai até a mesa do médico. Apertam as mãos. DR. REINALDO - Como vai Augusto? AUGUSTO - Bem doutor! DR. REINALDO - Sente - se, por favor! AUGUSTO - (sentando-se) Quer dizer que ficaram prontos os exames? DR. REINALDO - (pegando os exames) Sim, os resultados estão aqui. AUGUSTO - E então? DR. REINALDO - (sério) Augusto nós vamos ter uma séria conversa agora, eu preciso que você me ouça com muita atenção. AUGUSTO - (intrigado) Por quê? Algum problema DR. REINALDO - Você precisa estar preparado para ouvir, pois o que tenho pra te dizer é a pior coisa que se pode dizer á uma pessoa! AUGUSTO - (ansioso) É tão sério assim? DR. REINALDO - É! AUGUSTO - Então fala de uma vez! DR. REINALDO - Nós detectamos na ressonância, uma mancha no seu cérebro, e pelos resultados da tomografia, ficou clara a existência de um tumor em uma área delicada já em estado avançado. AUGUSTO - Tumor? Augusto tenta digerir o que acaba de ouvir. Mantém a calma. AUGUSTO - Mas e daí como é o tratamento disso, como é que eu/ DR. REINALDO - (cortando) Augusto. Não existe tratamento! AUGUSTO - Não? DR. REINALDO - O tumor já está em um tamanho em que não é possível operar, você não resistiria! AUGUSTO - (agitado) espera aí, você ta me dizendo que tem um tumor crescendo na minha cabeça, e que eu não posso fazer nada? DR. REINALDO - Exatamente! AUGUSTO - mas então/... Quer dizer que eu... DR. REINALDO - Você deve viver pouco mais de um ano, não passa disso? AUGUSTO - (apavorado) O que? DR. REINALDO - Eu sinto muito Augusto, mas infelizmente você está morrendo. Fecha em Augusto desnorteado. CORTA PARA:
CENA 25 - MOTEL/SUÍTE - INT/DIA. Marcos e Ana acabando de se vestir. Conversa no meio. ANA - o que é que você ta me pedindo? MARCOS - Eu preciso que você pegue pra mim esses documentos que acabei de te falar, não deve ser difícil de encontrar! ANA - Como é que eu vou pegar isso? MARCOS - Dá seu jeito, pega, tira cópias e me entrega o mais rápido possível, se der hoje mesmo. ANA - Hoje? MARCOS - è hoje! ANA - Que documentos são esses? MARCOS - São da empresa, documentos sigilosos, o seu maridinho vai ter que começar á me respeitar, aquele paspalho metido á doutor vai comer na minha mão ainda! Posso contar você? ANA - Vai adiantar eu dizer não? MARCOS - (rindo) Não! Fecha em Ana contrariada. CORTA PARA: CENA 25 - CLÍNICA TOLEDO/SALA DR. REINALDO - INT/DIA. Augusto anda atordoado pela sala. Dr. Reinaldo tenta conte-lo. AUGUSTO - Tem que haver um tratamento alternativo, qualquer possibilidade, que porcaria de medicina é essa que nós temos? DR. REINALDO - Eu adoraria poder dizer que existe sim um tratamento, á cura pra sua doença, mas infelizmente não tem, o máximo que podemos fazer é um acompanhamento, e te passar remédios para tentar inibir o crescimento do tumor/ AUGUSTO - Isso não ta acontecendo/ DR. REINALDO - Calma Augusto/ AUGUSTO - (T) Que calma, eu acabo de saber que eu vou morrer e você me pede calma! DR. REINALDO - Eu sei que é difícil, mas assim as coisas só pioram! AUGUSTO - (transtornado) Pior do que já está? DR. REINALDO - Eu imagino o que você está sentindo, deve ta passando um filme na sua cabeça, mas agora você tem que ser forte... Se você quiser ir atrás de outros médicos, tratamentos alternativos, fazer outros exames, pode ir, mas quer um conselho? Se eu descobrisse que tinha apenas um ano pela frente, eu ia fazer desse um ano, o melhor da minha vida ia aproveitar e muito minha família, dizer o quanto os amo, ia beijar, abraçar, viajar, aproveitar intensamente. (tempo) pensa nisso... AUGUSTO - (emocionado) è isso o que você tem pra me dizer! DR. REINALDO - Infelizmente agora é! AUGUSTO - Preciso respirar, tenho que sair daqui! Augusto sai meio sem rumo. DR. REINALDO - Augusto... Augusto! Fecha no médico preocupado. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 26 - CLÍNICA/FRENTE - EXT/DIA. Augusto acaba de sair da clínica, caminha desorientado. PV dele observa as pessoas que o reparam. Augusto para, fica olhando ao redor, angustiado, tentando segurar a emoção. Caminha até seu carro, entra, segue. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 27 - AVENIDAS DO RIO DE JANEIRO - INT/EXT/DIA. Carro em movimento. Augusto dirige transtornado, acelera. O carro segue perigosamente pelas ruas e avenidas. Faz manobras arriscadas. Augusto não se contém e vai as lágrimas, está assustado, visivelmente com medo. Percebe uma caminhonete que vem á sua frente. REAÇÃO. Desvia, o carro invade a calçada, e bate em uma árvore. Augusto respira fundo, parece mais calmo, ele avista uma igreja com várias pessoas na frente, ele fica observando. FUNDI COM:
CENA 28 - IGREJA DE SANTA RITA - INT/DIA. O quadro se abre com as mãos de Luciana ascendendo duas velas. Ajoelhada ela começa a rezar, forte emoção, chora copiosamente diante da santa que parece lhe confortar. LUCIANA - Pai nosso que estais no céu, santificado seja vosso nome, venha a nós o vosso reino... FUNDI COM:
CENA 29 - AVENIDA DO RIO DE JANEIRO - INT/EXT/DIA. Ligar áudio pela cena anterior. Continuamos ouvindo em off a oração de Luciana. Augusto observa a igreja. Pessoas vêm ao seu socorro que lhe ajudam. Fora de áudio. LUCIANA (EM OFF) -... Seja feita a tua vontade, o pão nosso de cada dia nos dai hoje, perdoai ás nossas ofensas assim como nós perdoamos á quem nos tenha ofendido, e não os deixei e cair em tentação... As pessoas tiram Augusto do carro. Ele está inteiro, apenas alguns arranhões. A movimentação em torno dele, não lhe faz tirar os olhos da igreja. As pessoas que lá estão também olham para ele, observando o movimento. FUNDI COM:
CENA 30 - IGREJA DE SANTA RITA - INT/DIA. Luciana na mesma posição termina sua oração, agora mais calma. LUCIANA - Mas livrai-os do mau. amém. Luciana fita a santa, como que se estivesse pedindo forças. Escurece o quadro. CORTA PARA:
CENA 31 - MANSÃO DE AUGUSTO/ESCRITORIO - INT/DIA. A porta se abre e Ana sorrateiramente entra. Da uma olhada no corredor, vê que está tudo calmo, fecha porta sem fazer barulho. Analisa o ambiente. Começa sua procura, revira a mesa, abre gavetas, meche e remexe nas coisas. Na ultima gaveta que abre, pega um papel, finalmente encontrando o que procura. ANA - (lendo) Contrato de compra do terreno de Jacarepaguá... È esse o documento que o Marcos quer. Fecha em Ana satisfeita. FUNDI COM:
CENA 32 - MANSÃO DE AUGUSTO/ESCRITORIO - INT/DIA. O quadro se abre com as mãos de Ana apertando um botão da copiadora. Olha atentamente para porta e para máquina. As copias ficam prontas, ela as pega e confere. Tudo certo. Rapidamente guarda o documento original, na gaveta onde estava. Neste momento a porta se abre. CLOSE de Ana em pânico. Alberto entra intrigado. ALBERTO - Ana? LUCIANA - (se levantando) Oi Aberto! ALBERTO - Escutei um barulho resolvi vir ver o que era.. O que você ta fazendo aqui? Closes alternados dos dois. CORTA PARA:
CENA 33 - BARRA DA TIJUCA/PRAIA - INT/DIA. O quadro se abre com os pés de Augusto, que caminha descalço lentamente na areia. Carrega os sapatos e o paletó na mão. Camisa desabotoada, despenteado, nem parece o mesmo o homem sério do início. Está abalado. Para, lança um olhar melancólico para o mar agitado. Começa a observar as pessoas em volta. MONTAGEM: - Duas crianças brincando de fazer castelinho de areia. - Um casal jovem aos beijos. - Um casal de velhinhos caminhando na areia. - Um vendedor de água de coco puxando seu carrinho. - Uma família completa, pai, mãe e duas crianças embaixo de um enorme guarda sol, em clima de alegria e harmonia. Tudo isso diante do olhar triste de Augusto. INSERT: DR. REINALDO (EM OFF): Se eu descobrisse que tinha apenas um ano pela frente eu ia fazer desse um ano o melhor da minha vida, ia aproveitar e muito minha família, dizer o quanto os amo, ia beijar, abraçar, viajar, aproveitar intensamente, pensa nisso... Fim do insert: Fecha no rosto de Augusto, arrasado. CORTA PARA:
CENA 34 - MANSÃO DE AUGUSTO/ESCRITORIO - INT/DIA. Ana pálida diante de Alberto. ALBERTO - Algum problema Ana? ANA - Não... É... Problema nenhum! ALBERTO - Tava procurando alguma coisa? ANA - estava sim... Uma foto... Uma foto minha e do seu irmão que a gente tirou lá em Paraty depois do nosso casamento, eu tava querendo ampliar e imprimir, pra poder fazer um quadro. ALBERTO - Há sim, e achou? ANA - O que? ALBERTO - A foto? ANA - Claro... Quer dizer, não a que eu queria, mas outras, depois eu continuo procurando. ALBERTO - Certo! ANA - (mudando de assunto) E você ta bem? ALBERTO - estou. ANA - Não liga pro Augusto, você sabe como ele é! ALBERTO - Sem problemas, ele está certo no que ele fala, não consigo fazer nada certo mesmo. ANA - Não fala assim. Olha eu tenho certeza que logo você vai achar uma coisa que combine com você e que de certo. ALBERTO - Eu já desanimei, mas tudo bem, to subindo pro meu quarto. ANA - Ta! Alberto cabisbaixo sai e deixa Ana que suspira aliviada. Ela pega as copias que fez, e olha fixamente para elas. ANA - pra que o Marcos precisa disso? CLOSE de Ana pensativa. CORTA PARA:
CENA 35 - PONTO DE ONIBUS - EXT/DIA. Soraia meio irritada está em pé com todas as suas coisas. Acompanhada de mais um grupo de pessoas: Uma senhora, uma moça com um bebe de colo, e mais dois agarrados na saia, dois velhinhos, três jovens rapazes e mais algumas pessoas. SORAIA - Ih, cadê esse busão que não chega! SENHORA - (á seu lado) Já está atrasado! SORAIA - Atrasaderrimo! Olha só (mostrando no relógio) 15 minutos, 15 minutos pra gente que tem que ralar é muuuito tempo. O Ônibus desponta no inicio da avenida. SORAIA - Alá o bendito vem chegando. Ela se levanta rapidamente, junta sua tralha. As outras pessoas também se movem. Mais gente vem chegando. O Ônibus para, começa a rolar uma desordem. Começa a vir gente de tudo quanto é lugar. A porta do ônibus se abre, todos querem entrar de uma vez. Soraia se mete na fila. SORAIA - Quer me dá licença... Uma licencinha, por favor, eh tira a mão daí moço... Eu cheguei primeiro... Com dificuldade Ana consegue entrar no ônibus. Corta para: ONIBUS CHEIO - INT/DIA. Soraia paga o motorista, uma multidão está atrás dela, esperando para entrar. SORAIA - (para o motorista) Ta atrasadinho hein! Com mais dificuldade ainda passa pela roleta. SORAIA - (para um rapaz forte sentado a frente) Oh moço pelo amor de Deus, vai ficar aí olhando é, me dá uma forcinha aqui... O rapaz lhe ajuda pegando a sacola maior. Ela consegue passar se apertando. SORAIA - Obrigada viu moço. Ele lhe entrega a sacola. “No corredor do ônibus, suas sacolas vão esbarrando nas pessoas que estão em pé, e ela vai se desculpando “me desculpa” “ foi sem querer”. Algumas pessoas reclamam. Ela passa e uma sacola bate na cara de um senhor que cochilava. SENHOR - (irritado) ô minha filha, presta atenção! SORAIA - Desculpa aí tiozinho, machucou? Suas coisas trancam a passagem. Mais reclamações. MULHER - Oh beleza! Dá pra tirar essa muamba daqui, que eu quero passar. SORAIA - (T) Muamba não, que isso aqui é meu ganha pão colega, mais respeito. MULHER - Tu é uma espaçosa isso sim. SORAIA - Como é que é/ Uma senhora á parte entra na conversa: SENHORA - Que é que tu ta vendendo minha filha? Soraia muda o tom rapidamente, interessada em uma possível venda. A outra ainda irritada. SORAIA - (fala rápido) Oh tia, tem de tudo, cremes pra pele e cabelo, perfume, colônia, desodorante, tem uns catálogos aqui também, (já revirando suas coisas) sou revendedora da Avon conhece? Que dar uma olhadinha? Olhar não paga nada né! MULHER - (enfezada) escuta aqui minha filha a gente quer passar. Pessoas concordam. Reação de Soraia. SORAIA - gente a pessoa não pode nem mais trabalhar. MULHER - Ah dá licença né, sua folgada/ Discussão só aumenta. Ouve-se muitos “folgadas”, Soraia retruca. SORAIA- (grita) Que afobação é essa, o gente, eu to tentando vender aqui/ O Ônibus arranca com tudo, Um bando de gente vai pro chão, Soraia se desequilibra, o vidro de creme cai no chão, e rola pra debaixo de uma poltrona. SORAIA - Eh cadê meu creme, me ajuda a procurar gente. MULHER - Sai do meu caminho agora, ou eu passo por cima de você. SORAIA- Escuta aqui sua barraqueira, é barraco que tu quer é, então vem... As duas começam a se engalfinhar dentro do ônibus que não para de chacoalhar. Barulheira geral. Terminamos fora de áudio. CORTA PARA:
CENA 36 - ZONA NORTE/PLANOS AEREOS - EXT/DIA. Planos aéreos do melhor da zona norte do Rio de Janeiro. CORTA PARA:
CENA 37 - VILA PEDAÇO DE CÉU - EXT/DIA. Planos mostra o dia a dia das pessoas da vila Pedaço de céu. O mesmo Ônibus da cena 35 estaciona a frente da mercearia de dona Benedita. Um bando de gente desce entre eles Soraia toda atrapalhada com suas coisas. SORAIA - Ai meu senhor, finalmente, hoje foi dureza hein. Seu Jurandir que empurra o carrinho de sorvete grita pra ela. JURANDIR - (simpático) Cansada Soraia? SORAIA - ô seu Jurandir, cansada é pouco, eu to morta, me vê um picolé aí! JURANDIR - Opa é só vim escolher, tem de fruta, tem de leite. Soaria se aproxima do carrinho vai escolher seu picolé. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 38 - PENSÃO/RECEPÇÃO - INT/DIA. Soraia acaba de chegar carregando suas coisas. Exausta larga tudo no chão e cai numa das poltronas. Dona Guilhermina junto ao balcão está do lado da sobrinha, a tímida Márcia. GUILHERMINA - è pelo visto não foi um dia fácil né menina! SORAIA - Ai foi não dona Guilhermina! GUILHERMINA - (se aproximando) Que isso, ta toda arranhada. SORAIA - Há teve o maior barraco lá no ônibus, saí no tapa com uma estressadinha. MÁRCIA - (horrorizada) Apanhou? SORAIA - Que nada Marcinha, mais bati do que apanhei (risada súbita) Sabe que foi divertido. GUILHERMINA - Só você mesmo Soraia, e aí vendeu bem? SORAIA - Há mais ou menos! A coisa não ta fácil não. GUILHERMINA - Depois quero dá uma olhadinha nos catálogos hein! Ouve-se em off uma gritaria com frases desconexas. As três estranham. GUILHERMINA - Que forrobodó é esse? MÁRCIA- Parece que tem gente brigando! SORAIA - Ih hoje é dia! GUILHERMINA - Era só o que me faltava. O pequeno Tito desce as escadas com os olhos esbugalhados. TITO - Dona Gui, Dona Gui... GUILHERMINA - Que foi menino? TITO - Tava lá em cima engraxando o sapato do seu Anésio, e comecei á ouvir uma briga lá do quarto do seu Wagner e da mulher dele. GUILHERMINA - De novo esses dois! SORAIA - (se divertindo) O coro ta comendo lá em cima! MÁRCIA - Faz alguma coisa tia! GUILHERMINA - Fazer o que? È briga de casal! MÁRCIA - A senhora não é a dona da pensão? GUILHERMINA - Ta certa, não admito barraco na minha pensão! Vou por um fim nisso e é já. Dona Guilhermina sai determinada seguida por todos os outros. CORTA RÁPIDO PARA:
CENA 39 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/DIA. Wagner e Elis andando agitados pelo quarto no meio de uma discussão. WAGNER - Para com isso Elis, deve ta todo mundo escutando. ELIS - (aos berros) Eu quero é que escutem mesmo, eu quero que saibam que eu sou uma mulher frustrada, infeliz/ WAGNER - Para com esse dramalhão/ ELIS - Há é dramalhão é? Você perde o emprego por pura incompetência, e me tira de um apartamento de luxo da zona sul e me enfia nessa pensãozinha e eu to fazendo drama/ WAGNER - Já te falei que é passageiro Elis/ ELIS - A gente já ta aqui a mais de um mês/ WAGNER - Tem que ter paciência/ ELIS - Já fui paciente demais/ CAM vai buscar o buraco da fechadura, onde se é possível um olho espiando. FUNDI COM:
CENA 40 - PENSÃO/CORREDOR DOS QUARTOS - INT/DIA. Dona Matilde é quem está olhando pelo buraco da fechadura. De repente Dona Guilhermina chega acompanhada de Soraia, Márcia e Tito e a flagram que se levanta num susto. Diálogos que se seguem baixinhos. GUILHERMINA - Bonito em dona Matilde! SORAIA - A beata espionando a família alheia, olha só! MATILDE - Mais respeito comigo, eu estava aqui na paz do meu quarto, quando eu começo a escutar essa baixaria, como é que é Guilhermina, a sua pensão virou o que? Isso aqui já esteve melhor! GUILHERMINA - Ah é, não te perguntei nada. Discussão segue em off. ELIS (EM OFF) - Eu não agüento mais WAGNER (EM OFF) - Eu é que não te agüento mais... SORAIA - Ih a coisa ta feia lá hein. MARCIA - Tia! MATILDE - Faz alguma coisa Guilhermina. GUILHERME - Epa, espera vamos esperar pra ver no que dá essa discussão toda. Seu Anésio sai de toalha do quarto curioso. ANÉSIO - Quem é que está brigando aí hein, é o casal metidinho é? MARCIA - è os dois sim! ELIS (EM OFF) - Quer saber, eu vou embora daqui! WAGNER (EM OFF) - Pode ir, volta lá pra casa da sua mãe, aí você aproveita e cuida dela que ela já ta caducando né! Reação de todos. MATILDE - Ela vai embora! MARCIA - E ele deixou! SORAIA - O bicho ta pegando! ANÉSIO - Eu acho é pouco, eu quero é mais. TITO - Eles vão se separar? GUILHERMINA - Xiiii vamos ouvir! Sai de seu quarto Magali. MAGALI - Gente que confusão é essa dona Matilde? MATILDE - Isso é o diabo minha filha, esse casal não deve ter Deus na vida deles. Seu Jurandir aparece, junto com dona Benedita e Cristiana. CRISTIANA - onde é que é o barraco! BENEDITA - Ta dando pra ouvir a gritaria de lá do bar! JURANDIR - Tão se pegando é! SORAIA - Gente que é que é isso, briga de casal com direito a platéia agora! MAGALI - ò quem fala que é ta fazendo o que aqui! SORAIA - Não falei com você oh estranha! GUILHERMINA - Silencio assim não dá pra ouvir. ELIS (EM OFF) Então é isso, né você quer que eu vá, eu vou! WAGNER (EM OFF) - Pode ir, se você não me entende que é que eu posso fazer! GUILHERMINA - Eles vão se separar! FUNDI COM:
CENA 41 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/DIA. Wagner e Elis. ELIS - Então acabou já chega! WAGNER - è isso mesmo, tudo ia bem até eu perder o emprego e perder tudo, bastou o primeiro momento difícil pra você me deixar, pra abandonar o barco! FUNDI COM:
CENA 42 - PENSÃO/CORREDOR DOS QUARTOS - INT/DIA. Todos na mesma: SORAIA - Tadinho dele! GUILHERMINA - Fiquei com pena! MATILDE - Será que ela vai? JURANDIR - Agora que ela vai dizer! Todos na expectativa! FUNDI COM:
CENA 43 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/DIA. ELIS - Agora você é a vítima, pois você devia ter pensado em mim, você achou mesmo que eu ia aceitar numa boa viver numa pensão! FUNDI COM:
CENA 44 - PENSÃO/CORREDOR DOS QUARTOS - INT/DIA. GUILHERMINA - Qual o problema com a minha pensão? FUNDI COM:
CENA 45 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/DIA. WAGNER - O importante é ta junto! ELIS - Chega! Eu vou embora prefiro aturar minha mãe do que morar nessa espelunca. FUNDI COM:
CENA 46 - PENSÃO/CORREDOR DOS QUARTOS - INT/DIA. GUILHERMINA - (nervosa) O que, espelunca não, agora eu vou ter que interferir, dá licença! Todos na expectativa: Dona Guilhermina bate na porta. GUILHERMINA - O seu Wagner faz o favor? FUNDI COM:
CENA 47 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/DIA. ELIS - Aí ta vendo, era só o que faltava! WAGNER - Viu só, foi seu escândalo! Wagner abre a porta. Guilhermina entra com tudo, todos atrás dela espiando. ELIS - Mais o que é isso? GUILHERMINA - Como é que você chama minha pensão de espelunca? ELIS - Ta vendo só isso Wagner, a pensão inteira ouvindo a nossa briga, nem brigar em paz a gente pode aqui, não tem privacidade nenhuma. GUILHERMINA - Você quer o que, vocês estão brigando pra vila inteira ouvir, já chega de barraco na minha pensão, porque isso aqui é de família. ELIS - (desdenhando) Só se for! WAGNER - (Firme) Chega Elis! MATILDE - Vocês dois tão precisando ir à igreja! SORAIA - Gente, vamos deixar o casal em paz. WAGNER - Eu gostaria de pedir pra vocês me darem licença. Elis está em pânico se dirige para janela. Wagner vai expulsando. WAGNER - Já Chega, acabou o espetáculo... Dona Guilhermina eu lhe peço desculpas mais/ TITO - Gente, gente ela vai se jogar! Todos se voltam para Elis que está dependurada na janela. WAGNER - (espantado) Elis! ELIS - Eu não agüento mais esse inferno, eu prefiro morrer do que ter que passar o resto dos meus dias nessa droga de pensão, agora vocês vão ter um espetáculo de verdade, e aproveitem que é de graça! Reação de todos. SORAIA - Pronto, a outra surtou de vez! Closes alternados de todos. Fecha no rosto perturbado de Elis. CORTA PARA:
CENA 48 - BARZINHO - INT/DIA. Augusto acaba de chegar em um barzinho, se senta faz sinal para o garçom. AUGUSTO - Me vê uma dose! GARÇOM - cachaça? AUGUSTO - Isso mesmo, cachaça. Augusto inconsolável abaixa a cabeça, um simpático senhor de meia idade sentado não muito longe dele que acaba de virar um copo na garganta, lhe observa. Garçom surge com a garrafa e serve um copo para Augusto, que pega e toma de uma só vez. AUGUSTO - Mais um! O garçom serve, e ele mais uma vez vira o copo. Respira fundo. O senhor que lhe observa sorri. SENHOR - è mulher é? Augusto se volta para o senhor. AUGUSTO - Falou comigo? SENHOR - Falei sim, um cara do seu tipo, pelas roupas parece rico, pra ta aqui bebendo com essa cara de cachorro morto, só pode ter levado um pé na bunda. AUGUSTO - Antes fosse! SENHOR - Não é não é? Augusto lhe encara, faz sinal para o garçom que já vai lhe servir. Silencio. RAPAZ - Já vi que não quer falar... Olha se for mulher, fica sossegado, tu é rico, boa pinta, novo, deve ter um monte de mulher no seu pé, ainda tem uma vida inteira pela frente rapaz, vai amar muita mulher nessa vida, eu sei disso, já perdi a conta pra quantas mulheres eu disse te amo, umas foi bem verdade já outras foi coisa de momento, na hora sai tudo... Aproveita rapaz, aproveita bastante, mais um dia sossega, senão vai acabar sozinho que nem eu, velho, bebendo sozinho num bar como esse, sem ninguém pra dizer eu te amo, pra chamar de meu amor! Há se eu pudesse voltar atrás, pena que a vida é uma só. Augusto ouve tudo atento, fica mexido com o comentário do senhor. O senhor se levanta caminha até ele, bate em suas costas. SENHOR - Fica assim não meu jovem! E ó, pensa no que esse velho aqui lhe falou! O senhor toma seu rumo. Augusto pensativo toma mais um gole. AUGUSTO- (para si) Amor!... Ta aí uma coisa que nunca soube sentir! Augusto sofrendo, fica com os olhos marejados, chama o garçom que lhe serva mais uma, ele toma em um só gole. Fecha nele. CORTA PARA:
CENA 49 - RIO DE JANEIRO/PLANOS GERAIS - EXT/NOITE. Anoitece no Rio de Janeiro. CORTA PARA:
CENA 50 - MANSÃO DE AUGUSTO/SALA - INT/NOITE. Teobaldo sentado vendo TV, Marli surge agitada. MARLI - Meu Deus, mais cadê o Augusto que não chegou ainda, já era pra ele estar aqui em casa, e a Ana onde foi que ela se meteu. TEOBALDO - Dá pra você parar de gritar, eu to tentando assistir meu jornal. MARLI - (irritada) Impressionante, você não muda mesmo, o mundo pode estar acabado lá fora, e você aí, esparramado no sofá vendo TV, quer que traga uma cervejinha, uns croquetes? TEOBALDO - Opa! Boa idéia, (grita) Conceição! MARLI - é muita folga viu! Conceição adentra a sala. CONCEIÇÃO - Chamou seu Teobaldo! TEOBALDO - Chamei sim, me vê uma cervejinha gelada, e uns salgadinhos, você pode arrumar pra mim? CONCEIÇÃO - Posso sim! MARLI - Conceição, você sabe se o Augusto ligou, ele não chegou até agora! CONCEIÇÃO - Não vi não senhora, se ligou eu não escutei! MARLI - E a Ana, cadê? CONCEIÇÃO - Saiu! MARLI - Como assim, saiu pra onde? CONCEIÇÃO - Disse que foi ver uma amiga! MARLI - que amiga? TEOBALDO - Agora a moça não pode ter amiga, mais deixa de ser nojenta o Marli! MARLI - Nojenta é sua mãe, pois então pode ir pondo a mesa do jantar Conceição! TEOBALDO - Eu não vou jantar! Vou ficar com meus salgadinhos! MARLI - Ta bom, eu e o Alberto jantamos, pode ir Conceição/ ALBERTO (EM OFF) - Eu também não vou jantar! CAM vai buscar Alberto no alto da escada, com uma mala na mão e uma mochila nas costas. MARLI - Como assim não vai jantar em casa! ALBERTO - Nem hoje, e nem nunca, eu estou indo embora de casa mãe! Reação de Marli e Teobaldo que se voltam para ele. Fecha em Alberto. CORTA PARA:
CENA 51 - FUNERÁRIA DE PARATY/VELÓRIO - INT/NOITE. Plano geral de todo o ambiente. Poucas pessoas. Luciana sóbria junta do caixão. Desliza sua mão sobre ele. CAM vai buscar Clarita e Fábio, que observam a cena. CLARITA - Tadinha da Luciana, eu sou testemunha do que à bichinha passou com essa mãe, a Maria vivia bebendo, se metendo com jogo, deixava a menina pra ir pra baile, e mesmo assim ela sempre teve um amor por essa mãe, FÁBIO - A Luciana é uma pessoa muito especial! CLARITA - Ela ta sofrendo muito, tão esforçada, trabalhadeira, só Deus pra iluminar ela agora. Os dois seguem olhando para Luciana, que com seu olhar triste fica á vigiar o caixão da mãe. CORTA PARA:
CENA 52 - APARTAMENTO DE MARCOS/SALA - INT/NOITE. Marcos sem camisa, ao celular. MARCOS (AO TEL.) E aí conseguiu os documentos? FUNDI COM:
CENA 53 - CARRO EM MOVIMENTO - INT/NOITE. Luciana dirige ao celular. LUCIANA (ao cel.) - Consegui sim, tirei as copias, já estou indo pro lugar que a gente combinou, vê se não demora hein, não tenho muito tempo! FUNDI COM:
CENA 54 - APARTAMENTO DE MARCOS/SALA - INT/NOITE. Marcos sorri empolgado. MARCOS - Maravilha, já estou indo praí, beijo (fala sozinho comemorando) Beleza! Ele pega uma camiseta no sofá, veste, pega sua chave em cima da mesa de centro vai até a porta, abre e sai. CORTA PARA:
CENA 55 - BARZINHO - INT/EXT/NOITE. Augusto na mesma posição da cena 48. Visivelmente alterado, toma a ultima gota de uma no seu copo. Faz ânsia, respira. Garçom o observa. Se levanta, tateia o bolso, encontra a carteira, pega, abre, tira de dentro um bolo de notas, põe em cima do balcão. AUGUSTO - Ta aqui! O Garçom vai contar as notas, percebe algo errado. GARÇOM - Aqui tem dinheiro á mais! AUGUSTO - (bêbado) Pode ficar com tudo, pode ficar eu tenho muito dinheiro, eu sou rico, aliás, foi a única coisa que eu fiz... Em toda essa minha vida, foi juntar dinheiro pra ficar rico... Pra que... Pra que se agora eu nem vou pode gastar, (T) de que adiantou tanto trabalho. Augusto se desequilibra esbarra em uma mesa, as coisas que estão em cima vão pro chão. Reação das pessoas em volta. O garçom se dispõe a ajudar. GARÇOM - Senhor! AUGUSTO - (se desvencilhando) Me deixa, me deixa... Augusto cambaleando deixa o bar, e segue pela rua, sem rumo. Fecha em seu rosto zonzo. CORTA PARA:
CENA 56 - VILA PEDAÇO DE CÉU/FRENTE PENSÃO - EXT/NOITE. Uma multidão reunida frente à pensão. Matilde, Jurandir, Tito, Anésio, Magali, Soraia, Benedita e dona Guilhermina. Todos olham para o alto da pensão onde está Elis prestes á se jogar. ANÉSIO - Se é pra se jogar, se joga de uma vez. MARCIA - Vira essa boca pra lá, seu Anésio. MAGALI - Alguém tem que fazer alguma coisa! MATILDE - Começa rezando pela alma dessa pobre desgraçada! GUILHERMINA - Era só o que me faltava um suicídio na minha pensão, agora é que ninguém se hospeda mais aqui! Seu Jurandir aparece com seu carrinho anunciando seu sorvete. JURANDIR - ò o sorvete minha gente pra refrescar, aproveita que ta acabando SORAIA - Olha só seu Jurandir, aproveitando o movimento! JURANDIR - Tem que aproveitar né. Algumas pessoas se aproximam dele para comprar. Gustavo se embrenha no meio da bagunça e se junta de sua mãe dona Benedita. GUSTAVO - Que é que ta acontecendo mãe? BENEDITA - Olha lá meu filho, é uma hospede da pensão, brigou com o marido e agora ta querendo se matar! SORAIA - (que esta perto) Que nada, isso é tudo frescura! Agora é Jorge quem surge no meio da bagunça, se aproxima de Márcia que suspira ao vê-lo. JORGE - A mulher quer se matar mesmo é? MARCIA - Parece que sim. Jorge avista Soraia que também o olha e sorri para ele, ele acena, Márcia percebe. CAM vai buscar Elis na janela que faz um movimento brusco. Todos vibram. GUILHERMINA - Oh meu pai, ela vai acabar cai feito jaca podre no chão (gritando) Ô minha filha, já chega de show, desce daí! CORTA RAPIDO PARA:
CENA 57 - PENSÃO/QUARTO DE WAGNER E ELIS - INT/NOITE. Elis na janela e Wagner apavorado diante dela. È possível ouvir o falatório do lado de fora. WAGNER - Já chega disso Elis, sai dessa janela! ELIS - Já disse que eu não vou sair, eu vou pular daqui agora, você ta duvidando é? WAGNER - Olha desiste dessa idéia, e a gente conversa. ELIS - A gente não tem mais nada pra conversar, se é pré ter essa porcaria de vida, eu prefiro não viver... Você não pode me obrigar a viver aqui numa pensão, não foi essa a vida que eu sonhei pra mim. WAGNER - Olha eu vou dar um jeito da gente sair daqui, arrumar uma casa, agora, por favor, desce! ELIS - (mais calma) Só se você me prometer que a gente vai embora daqui o mais rápido possível. WAGNER - Eu prometo, eu prometo... ELIS - Você tem uma semana, pra conseguir uma casa e me tirar daqui dessa espelunca. WAGNER - Uma semana, eu preciso de mais tempo? ELIS - Uma semana, nada mais, nada menos, olha que eu pulo hein! WAGNER - Não, tudo bem, dentro de uma semana a gente esta se mudando daqui! Agora vem me dá sua mão! Wagner estende a mão, Elis vai sai da janela se desequilibra e cai pra trás, soltando um alto grito. Pânico de Wagner WAGNER - (berrando) Eliiiiiiiiiiiiiiiiiiiis! CORTA PARA:
CENA 58 - FUNERARIA EM PARATY/VELÓRIO - INT/NOITE. Continua o velório com Mesmos da cena 51. Fábio se aproxima de Luciana com um copo d’água. FÁBIO - Eu peguei pra você! LUCIANA - Obrigada! Luciana pega o copo e toma a água. FÁBIO - Você não deve ter comido nada né. LUCIANA - Não consigo por nada na boca! CAM vai buscar Otto um senhor de meia idade, com uma camisa estampada, desabotoada e uma corrente no pescoço, bem malandro. Todos se voltam pra ele. Clarita o olha assustada. CLARITA - Sangue de cristo, que é que esse diabo veio fazer aqui? Fábio percebe a chegada dele. Luciana olha para o amigo e estranha. LUCIANA - Que foi Fábio? Luciana se vira e se depara com Otto atrás dela. Ele fixa seu olhar nela lhe encarando. OTTO - To precisando levar um papo contigo menina! LUCIANA - Comigo? FÁBIO - Que é que você quer com ela? OTTO - Não falei com você frangote, meu assunto é com a mocinha. LUCIANA - Pode deixar Fábio (encarando Otto) Fala, o que o senhor quer comigo? OTTO - Assim pra todo mundo ouvir? LUCIANA - (corajosa) Eu não tenho nada pra esconder, o senhor tem? OTTO - (sorrindo) Eu também não, então lá vai, (TOM) agora que a cachaceira da tua mãe bateu com as dez, quem é que vai me pagar o que ela ficou devendo? Eu é que não vou ficar sem minha grana! Todos observam horrorizados. Closes alternados de Clarita, Fábio e Otto. Fecha no rosto de Luciana. CORTA PARA:
CENA 59 - AVENIDA QUALQUER/CARRO DE ANA - INT/EXT/NOITE. Ana dentro do carro pensativa. Ouvimos a BUZINA de um outro carro. Luciana avista o carro de Marcos que acena pra ela. Ela pega um envelope e desce de seu carro, caminha olhando para os lados até o carro de Marcos, entra. Corta para. CARRO DE MARCOS - INT/NOITE. MARCOS - Trouxe? ANA - (entregando) Tão aqui! Marcos pega o envelope, tira os papeis e confere. MARCOS - Maravilha, são esses mesmo, mandou bem minha gata, são copias né. ANA - Claro, pra que você quer isso? MARCOS - Negócios minha cara! ANA - Tenho que voltar logo, se o Augusto chega e eu não estou lá! MARCOS - (surpreso) O que? Ele não chegou ainda! ANA - Quando eu saí ele ainda não tinha chegado, e olha que ela tava atrasado, eu disse pra Conceição que ia ver uma amiga/ MARCOS - Espera aí, o Augusto saiu cedo da empresa e não voltou mais! ANA - O que? MARCOS - è ele ficou o dia todo fora, disse que ia mais cedo pra casa. ANA - pra casa ele não foi! MARCOS - Onde é que ele esteve o dia todo então? CORTA PARA:
CENA 60 - AVENIDA QUALQUER - EXT/NOITE. Augusto caminhando pelas ruas, ainda cambaleante, angustiado, desarrumado. Aqui entra o diálogo da cena seguinte em off: ANA (EM OFF) - Mas pra onde ele pode ter ido?... CORTA RAPIDO PARA:
CENA 61 - CARRO DE MARCOS - INT/NOITE. Ligar diálogo pela cena anterior. MARCOS - Tem alguma coisa errada, primeiro você me diz que ele anda distante, não ta mais apaixonado, ele só pode ta com outra, o babaca ta te botando chifres! ANA - Será? Não, eu não acho que o Augusto faria isso! MARCOS - Só pode ser, era só o que faltava, o Augusto com outra mulher, você tem que ficar de olho, acho bom você ir pra sua casa, esperar ele voltar e tirar a limpo essa historia. ANA - è isso mesmo que eu vou fazer. Ana vai abrindo a porta do carro, assim que sai se depara com Augusto, no susto ela congela em pânico. Augusto a olha, e enxerga Marcos dentro do carro que também o olha assustado. AUGUSTO - Ana, o que é que você ta fazendo aqui... No carro do Marcos? Augusto encara Ana e Marcos que estão paralisados sem reação. Fecha em Augusto. CORTA PARA: FIM DO CAPÍTULO.


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