Pergunta: Linguagem literária trabalhada em Toada do Amor

Primeiro, leia com atenção o poema "Toada do amor", depois, a explanaçào sobre o que é linguagem literária. Certamente você encontrará a sua resposta.

            Toada do Amor
             
            E o amor sempre nessa toada!
            briga perdoa perdoa briga.
            Não se deve xingar a vida,
            a gente vive, depois esquece.
            Só o amor volta para brigar,
            para perdoar,
            amor cachorro bandido trem. 
             
            Mas, se não fosse ele, também
            que graça que a vida tinha? 
             
            Mariquita, dá cá o pito,
            no teu pito está o infinito. 
           

A linguagem literária. A literatura é uma arte, uma manifestação estética de grande valor. E como toda arte, possui um objeto estético, aquilo que está presente no mundo e que deve ser recriado. A literatura recria as palavras. É por isso que costumamos enunciar a Literatura como a arte da palavra.
Há muitas coisas além desta breve definição. Não é válido afirmar que a Literatura é a arte da palavra sem antes compreender o que é arte. Pois, se Literatura é uma manifestação artística, é de vital importância o entendimento da palavra arte para que, então, seja possível trabalhar com os conceitos de Literatura.
O mundo real está repleto de coisas: pessoas, animais, plantas, matéria inanimada etc. E todos nós somos capazes de perceber a existência e a utensilidade dessas coisas. Acontece que a percepção de toda a matéria existente é algo muito comum, uma visão profundamente automatizada, que almeja sempre a utensilidade dos objetos. É justamente neste ponto em que a arte atua: ela amplia a nossa percepção da realidade, desautomatizando os objetos e dando a eles uma percepção singular. Para o artista singularizar a noção de realidade, precisa ser movido pela percepção estética, ter um olhar desautomatizador.
A palavra é o material primordial da literatura, constituindo seu objeto estético. Acontece que, mesmo a palavra precisa ser desrealizada e recriada. No cotidiano, a palavra é um mero utensílio que serve para comunicar idéias e pensamentos, ou seja, é um signo lingüístico formado por um significado e seu respectivo significante. É deste uso que se servem as linguagens históricas, filosóficas e científicas. Todavia, depois que o processo da mímesis atua sobre a palavra, desrealizando-a e recriando-a, esta deixa de ser um utensílio e passa a constituir um objeto artístico. Deixa de ser apenas um signo lingüístico para tornar-se uma imagem, um signo literário.
Neste signo literário, um único significante tem vários significados e mesmo o significante significa. Quando um texto alcança este patamar de linguagem, denominamo-lo literário.
A Literatura é uma recriação da realidade; mas essa recriação se dá a partir da recriação da linguagem. É com a linguagem que o artista da palavra transforma o utensílio em objeto estético. E neste caso, o objeto é o código lingüístico. Mais precisamente, o autor não só utiliza o código, mas transgride-o. É devido a essas transgressões que o texto literário provoca um estranhamento ao leitor. Junto a esse estranhamento, estão os significados da obra literária, que não vêm expressos claramente. Pois a literatura trabalha com os “silêncios”, o “não-dito” ou ainda – e como é mais típico dizer
– nas “entrelinhas”. Mas que artifícios o artista da palavra utiliza para elaborar construções tão ricas? Que marcas diferenciam este tipo de construção dos demais textos? Que outras peculiaridades podemos identificar dentro de uma obra literária?
Pode-se apontar uma importante característica literária: sua autonomia. Todo texto literário é autônomo semanticamente, isto é, tem poder suficiente para estruturar e organizar seu próprio mundo. Por este mesmo motivo a linguagem literária basta a si própria, é verdadeira por si mesma, não podendo ser verificada, apenas explicada.
Baudelaire, em “Correspondências” recria a realidade e a localiza numa natureza especialmente construída pela atividade poética num mundo expressivo próprio ao poema. O templo de vivos pilares não é a natureza empírica da qual Baudelaire buscaria aproximar-se numa tentativa de comunhão, mas uma recriação artificial do que poderia ser a imagem de tal harmonia.
Mesmo sendo o mundo da literatura um lugar autônomo, este não perde completamente os vínculos com o mundo real. A ficção literária e a realidade empírica jamais se desprendem, pois o mundo literário não consiste em uma mera deformação do mundo real, mas a criação de uma realidade nova que preserva o vínculo significativo com o real objetivo.
O texto não-literário prima pelo predomínio da denotação, pois para textos de cunho científico, filosófico e histórico a objetividade na maneira como as informações são veiculadas é muito importante. Em contrapartida, a linguagem literária é predominantemente conotativa.
Contudo, a conotatividade não é uma propriedade pertencente apenas à literatura: ela está presente também em outros textos não-literários, como o discurso político, por exemplo. A própria comunicação pela fala faz uso de inúmeras conotações. Acontece que a conotatividade literária é uma componente de um fenômeno mais complexo e extenso a que se convencionou chamar por ambigüidade.
Devido aos fatos anteriormente esclarecidos, seria mais adequado tomarmos a Linguagem Literária como plurissignificativa; nela, o signo lingüístico carrega em si múltiplas dimensões semânticas, diferençando-se do significado unívoco próprio da linguagem monossignificativa de textos não-literários.
Num plano sincrônico ou horizontal, a palavra adquire dimensões plurissignificativas graças às relações conceptuais, imaginativas, rítmicas, etc., que contrai com os outros elementos que constituem o seu contexto verbal. “A obra literária é uma estrutura, um sistema de elementos interligados, e a palavra só ganha valor quando integrada nesta unidade estrutural.”
Outra questão que merece ser discutida, diz respeito à transgressão das normas e da alta criatividade presente em um texto literário. A linguagem literária desvia-se, sistematicamente, da norma padrão com o objetivo de colocar em primeiro plano as propriedades imagísticas do texto e de desfamiliarizar as percepções automatizadas do leitor. Isto é, a língua literária não é gramaticalmente "correta” porque descaracterizando a norma culta o autor tem muito mais a dizer do que se ele simplesmente utilizasse a forma gramaticalmente aceita para falar o que pretende.
Este comentário nos conduz a outro elemento importante: A literariedade, em oposição à literalidade. Quando o artista da palavra rejeita a norma, ele nega a literalidade, e se apropria da literariedade. Ou seja, para recriar a realidade, faz uso de uma deformação criadora, que provoca ao leitor um certo estranhamento – visto que o texto está construído de maneira inovadora.


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