CRÔNICA

As três cantarinhas

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Tenho, na gavetinha das recordações, três lindas cantarinhas; cada qual a mais graciosa. Três bonitas cantarinhas, autografadas. Recebi-as numa tarde soalheira de maio, cheias de sol e amor. Uma, deu-ma rapazinho, que partiu para não voltar. E se voltar, será transubstanciado em: luz e amor. As outras duas, recebi-as de lindas e virtuosas meninas, com carinho e amizade. Naquela tépida e longínqua manhã de Maio, deambulava, distraído, entre milhentos cestinhos, repletos de cantarinhas. Eram todas em miniatura; todas pequeninas; todas de barro bem vermelhinho. Pintadas com amor e carinho. Raparigas travessas, banhadas de sol, e saias garridas, soltavam gaias gargalhadas, e, mirando-me de soslaio, perpassavam por mim. Mocinhas sisudas, de saias compridas, e olhos baixos, reclinavam, recatadas, os rostos trigueiros, sorrindo…; mas nenhuma oferecia-me cantarinhas… Tinham namorado; e as que não tinham, buscavam-no.
Não eu; pobre solitário, que em dia de sol, de vento fresco e acariciador, passeava entre fogosa meninada, que comprava dúzias de cantarinhas. Porém, ao pôr-do-sol, ao recolher da tarde, duas lindas meninas, brindaram-me com duas amorosas cantarinhas; pintadas a cores festivas, e gravadas a letra manuscrita. Uma, é “alta”, esguia, e elegante, tem um: “T”, bem lançado; a outra, é baixa e graciosa, tem no “ largo” bojo, um: “G”, tremidinho. Quase cinco décadas passaram. Passaram, também, ilusões e risonhos sonhos da juventude; mas, na gavetinha das recordações, há, bem aconchegadas, três cantarinhas, pequeninas, que três jovens, em tépido dia de Maio, ofereceram-me com carinho e amor. Como é bom recordar! … Como é bom ver as cantarinhas! …Todas três embrulhadinhas. Todas três juntinhas, como estão as meninas, que mas deram, ainda, no meu coração… A Feira das Cantarinhas, realiza-se no primeiro fim - de- semana de maio.


MEDITAÇÃO

Sobre os pobres

Autora: Irmã Dulce

Muita gente acredita que não devemos dar aos pobres a mesma atenção que damos às outras pessoas. Para mim, o pobre, o doente, aquele que sofre, o abandonado, é a imagem de Cristo [...]. Se virmos o pobre com esses olhos, o seu exterior, o estar sujo, cheio de parasitas, com grandes chagas, não nos incomodará, pois na sua pessoa está presente o Cristo sofredor.
Somente quem convive com o pobre pode compreendê-lo. Muita gente pensa que faço muito, que concedo muita atenção aos pobres, e me criticam por isso.
Cada um de nós não gostaria de ser bem recebido, de ser bem tratado? E o pobre não possui o direito de ser bem acolhido, de receber todas as atenções espirituais e materiais? [...] Fazemos muito por eles? Eu pergunto: é muito o que fazemos por Deus? Ele não merece tudo de nós? Se o pobre representa a imagem de Deus – Estava nu e me vestiste, doente e me visitaste, com fome e me deste de comer (cf. Mt 25,35-36) -, então, pode ser demais aquilo que fazemos pelos pobres?
Extraído do livro: Irmã Dulce, o anjo bom da Bahia – Autor: Gaetano Passarelli. Compre e leia o livro, vale a pena.


CRÔNICAS

Movimento em defesa do Brasil

Autor: Antônio de Pádua Elias de Sousa
Contato: paduadesousa@yahoo.com.br

Em Junho de 2002, o então candidato à Presidência da República pelo PT (Partido dos Trabalhadores), o Sr. Luiz Inácio Lula da Silva, leu durante encontro sobre o programa de governo do partido, uma carta, a qual denominou de “Carta ao povo brasileiro”. Usando agora dos meu direitos e deveres de cidadão brasileiro, gostaria de plagiar o mesmo gesto, escrevendo este, o qual denomino de “Movimento em defesa do Brasil”. Gostaria de salientar que não sou “Lulista”, apesar de lhe ter confiado o meu voto, por duas vezes e, muito menos “petista”, apesar de considera-lo o único partido organizado no país, pois é notório, de quem é filiado ao mesmo, não foge à sua ideologia partidária, ou seja, de oposição, e ainda também que, pelo menos por enquanto, não sou candidato a nada, em que pese ter sido em 2012 a Vereador, sendo hoje um escritor e cronista.
Logo, iniciando o “Movimento em defesa do Brasil”, venho lhes redigir o texto a seguir, como modelo de protesto pacífico, em busca de nossos direitos e deveres constitucionais, registrados no Título II – Artigos de 5º à 17º - da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 e suas Emendas Constitucionais e Decreto Legislativo, citando a parte inicial da carta mencionada, de autoria do então candidato: “O Brasil quer mudar. Mudar para crescer, incluir, pacificar. Mudar para conquistar o desenvolvimento econômico que hoje não temos e a justiça social que tanto almejamos. Há em nosso país uma poderosa vontade popular de encerrar o atual ciclo econômico e político”. Vejamos pois, que a carta era até bem intencionada, que de alguma forma e, em alguns casos, surtiram efeitos paliativos, mas como é de natureza da política brasileira, não tiveram continuidade e muito menos consenso das instituições governamentais e sem apoio judiciais, legislativos e partidários.
Hoje em 2018, às vésperas das eleições, nos vemos novamente às voltas dos mesmos anseios e com os mesmos problemas para serem resolvidos, agravados pelos escândalos de corrupção, falta de educação, saúde, segurança e, o que é pior, ética e consciência política. Assim sendo continuo, pois a decepção foi grande e necessitamos renovar as esperanças, mas esperança em que ou quem? Nosso povo, ordeiro, de bem, se revela indignado, achando que, o fato de não comparecer às urnas, ou mesmo se votar em branco e nulo, solucionaria em parte os problemas. Ledo engano, pois o título de eleitor é arma poderosa, que faz com que, um monte de desonestos, com raríssimas exceções, lhes visitem de 4 em 4 anos, sob juras de amizades e oportunidades, cabendo-nos saber discernir quem é quem, se vale a pena ou não, e ainda, denunciar as mazelas, se for o caso.
Portando, o modelo atual da política brasileira, nos leva a descrença, ao desânimo, negativismo, achando que tudo está perdido, o que não pode ser considerado verdadeiro, já que existe um chavão de que: “O Brasil é o país do futuro”, onde esse futuro, se faz presente. Sendo assim a população almeja, urgentemente, as possibilidades de mudanças do país, se mostrando disposta a apoiar qualquer projeto que, tenha por prioridade, o crescimento do Brasil, na valorização da educação, investimentos na saúde, na gerarão empregos, a redução da criminalidade, o resgate da nossa soberania, para termos a dignidade respeitada em todo mundo, não sendo motivos de chacotas internacionais, e até por nós mesmos.
Necessitamos de posturas corajosas e mudanças cuidadosas para punirmos os responsáveis pela situação atual do país, por seus erros, corrupções e, para que a justiça faça valer a “lei igual para todos”, acabando com as impunidades, colocando quem deve nas cadeias, limpando as casas legislativas, fortalecendo os judiciários e a valorizando os cidadãos de bem, quais tenham proposta de patriotismo humanitário. É chover no molhado, mas o caminho são as reformas tributária, agrária, previdenciária, trabalhista e, mais urgente a eleitoral, contemplando um verdadeiro processo democrático, onde o povo possa ser ouvido e governe juntamente com o próprio governo, ou seja, qualquer que seja a instância, essa será a casa do povo, propriamente dita. Utopia? Não sei. Acredito mais no poder da conversa do que na unilateralidade.
O país precisa retomar a sua capacidade de administrar sua dívida interna e externa e endividamento público, o combate à inflação, qual afugenta e preocupa os investidores, onde haja uma melhor geração de empregos e distribuição de renda. Uma política externa que proteja nossos interesses comerciais e solucionar os entraves que prejudicam o comércio internacional, imposto pelos chamados “países ricos”. Afinal o Brasil é rico de tudo, principalmente de seu povo miscigenado. Em resumo, o governo é obrigado a honrar os seus compromissos, sejam eles na educação, saúde, segurança, transporte, emprego, lazer e qualquer outro de sua alçada, constituído pela carta magna, mas alerto que o crescimento não pode e não deve penalizar novamente, nem levar o país à instabilidade, sem o controle das contas públicas e da inflação e ainda, obtidos com uma grande carga de sacrifícios, dos mais necessitados, que outrora já pagaram o preço da injustiça social.
Citando ainda mais um trecho da carta do candidato: “O Brasil precisa navegar no mar aberto do desenvolvimento econômico e social. É com essa convicção que chamo todos os que querem o bem do Brasil a se unirem em torno de um programa de mudanças corajosas e responsáveis”. E para finalizar, cito uma frase, por ocasião de sua posse, que ora modifiquei, ficando assim: “O medo deu lugar a esperança”, mas agora a esperança está perdendo espaço para o medo e a incerteza”! Formiga MG, 13 de março de 2018.

CONTOS

O cavalo Sansão de “A revolução dos bichos” (ou de “Um país chamado Brasil”)

Sansão era um bicho enorme, de quase um metro e noventa de altura, forte como dois cavalos. ...ele não tinha lá uma inteligência de primeira ordem, embora fosse grandemente respeitado pela retidão de caráter e pela tremenda capacidade de trabalho. ...Dias houve em que todo o trabalho da granja parecia cair em seu lombo. Dá manhã à noite, lá estava ele, puxando e empurrando, sempre no lugar onde o trabalho era mais pesado. ...Sua solução para cada problema, para cada contratempo, era “Trabalharei mais ainda”, frase que adotara como seu lema particular.
... se resolveu – coisa que, em si, não podia sofrer a objeção de ninguém – que o potreiro situado além do pomar seria reservado para os animais aposentados, houve uma agitada discussão a respeito da idade de aposentadoria para cada classe de animal.
...As aulas de ler e escrever, pelo contrário, fizeram enorme sucesso. Pelo outono, quase todos os bichos estavam alfabetizados, uns mais, outros menos. ...Sansão não foi capaz de ir além da letra D. ...É verdade que em vária ocasiões aprendeu E, F, G, H, mas ao consegui-lo descobria sempre que havia esquecido A, B, C, D. Afinal, decidiu contentar-se com as quatro primeiras letras...
...Jones e todos os seus homens, com mais meia dúzia de Foxwood e Pinchfield, haviam entrado pela porteira... Era evidentemente uma tentativa de recuperar a granja. ...o espetáculo mais aterrorizante em tudo aquilo era Sansão, erguendo-se nos posteriores e dando manotaços com seus enormes cascos ferrados, feito um garanhão. Logo no primeiro golpe atingiu o crânio de um cavalariço de Foxwood, que caiu prostrado sem vida na lama. Diante disso, vários homens largaram os bastões e tentaram correr. O pânico tomou conta deles... Os animais decidiram, por unanimidade, criar uma condecoração militar, a Herói Animal, Primeira Classe, conferida ali mesmo a Bola-de-Neve e a Sansão.
...Napoleão, com seus cães a segui-lo... Anunciou que daquele momento em diante... Para o futuro , todos os problemas relacionados com o funcionamento da granja seriam resolvidos por uma comissão de porcos, presidida por ele, que se reuniria em particular e depois comunicaria as decisões aos demais. ...Vários teriam protestado, se conseguissem achar os argumentos. Até Sansão ficou um tanto inquieto. Murchou as orelhas, sacudiu o topete várias vezes e fez um esforço tremendo para pôr em ordem as ideias; mas afinal não conseguiu pensar em nada para dizer. ...Sansão, que já tivera tempo de pensar, expressou o sentimento geral: “Se é o que diz o camarada Napoleão, deve estar certo”. E daí por diante adotou a máxima “Napoleão tem sempre razão”, acrescentando-a ao seu lema particular “Trabalharei mais ainda”.
...A construção do moinho de vento apresentou dificuldades imprevistas ...Nada se teria feito sem Sansão, cuja força parecia igual à de todos os outros bichos juntos. ...Era sempre Sansão que retesava os cabos e continha a pedra. Vê-lo na faina da subida, palmo a palmo, com a respiração acelerada, e os costados molhados de suor e as pontas dos cascos cravadas no solo, era algo que enchia a todos de admiração. Quitéria recomendava-lhe que tivesse cuidado e não se esforçasse demais, mas Sansão não lhe dava ouvidos. As duas máximas “Trabalharei mais ainda” e “Napoleão tem sempre razão” pareciam resolver todos os seus problemas. ...ia sozinho à pedreira, juntava um monte de pedras quebradas e puxava-o até o local do moinho de vento, sem ajuda de ninguém.
...Napoleão decretou uma ampla investigação sobre as atividades de Bola-de-Neve. ...”Camaradas”, gritou, cheio de tiques nervosos, “descobrimos uma coisa pavorosa, Bola-de-Neve vendeu-se a Frederick... Até Sansão, que raras vezes fazia perguntas, ficou confuso. Deitou-se, enfiou as patas dianteiras debaixo do corpanzil, fechou os olhos e, com grande esforço, tentou reunir os pensamentos. “Não acredito”, disse. “Bola-de-Neve lutou bravamente na batalha do estábulo. Isso eu vi com meus próprios olhos. Pois até não lhe demos uma Herói Animal, Primeira Classe logo depois?” “Esse foi o nosso erro camarada, já que agora sabemos – está tudo lá, nos papéis que encontramos – que, na realidade, ele tentava nos conduzir à derrota.” “Mas ele foi ferido”, insistiu Sansão. “Todos nós o vimos ensanguentado.” “Era parte do plano”, gritou garganta... Sansão, porém, ainda permanecia contrafeito. “Não acredito que Bola-de-Neve fosse traidor desde o começo”, disse por fim. “O que fez depois é outra coisa. Eu ainda acho que na batalha do estábulo ele foi um bom camarada.” “Nosso líder, o camarada Napoleão”, disse Garganta, falando devagar e com firmeza, “declarou categoricamente (categoricamente camaradas!) que Bola-de-Neve era agente de Jones desde o início... “Ah! Aí é diferente!”, respondeu Sansão, “Se o camarada Napoleão diz, deve ter razão.” “Esse é o verdadeiro espírito, camarada!”, exclamou Garganta. Porém todos notaram a olhadela feia que deu para Sansão... e acrescentou de maneira contundente: “Alert o a todos os animais desta fazenda para que mantenham os olhos bem abertos. Temos motivos para pensar que alguns agentes secretos de Bola-de-Neve estão ocultos entre nós neste momento!”
...Quatro dias depois, à tardinha, Napoleão mandou que os bichos se reunissem no pátio... deu um guincho estridente. Imediatamente os cachorros avançaram... Para surpresa de todos, três deles lançaram-se sobre Sansão. Ele reagiu com um pataço, que pegou um dos cachorros ainda no ar, e apertou-o no chão. O cachorro ganiu pedindo piedade, e os outros dois fugiram com o rabo entre as pernas. Sansão olho para Napoleão para saber se devia liquidar o cachorro ou deixá-lo ir. Napoleão pareceu mudar de expressão e, ríspido, ordenou a Sansão que o soltasse... E assim prosseguiu a sessão de confissões e execuções, até haver um montão de cadáveres aos pés de Napoleão... Durante algum tempo ninguém falou. Só Sansão permanecia de pé. Andava, impaciente, de um lado para o outro, batendo com a longa cauda negra nos flancos e proferindo, de vez em quando, um gemido de estupefação. Finalmente disse: “Não entendo. Nunca pensei que coisas assim pudessem acontecer em nossa granja. Deve ser o resultado de alguma falha nossa. A solução que vejo é trabalhar mais ainda. Daqui por diante vou levantar uma hora mais cedo.”
...Os animais estavam fazendo a refeição matinal quando os sentinelas chegaram correndo com a notícia de que Frederick e seus seguidores já haviam atravessado a porteira... Corajosos, os bichos saíram ao seu encontro, mas desta vez não obteriam uma vitória fácil... E os animais ouviram, vindo da direção da granja, o troar solene da espingarda. “A troco de que está atirando aquela arma?”, perguntou Sansão. “Celebrando a nossa vitória!”, exclamou Garganta. “Vitória? Que vitória?”, gritou Sansão. Tinha os joelhos sangrando, perdera uma ferradura, rachara o casco, e uma dúzia de chumbinhos havia se alojado em sua pata traseira. “...eles destruíram o moinho de vento. Nosso trabalho de dois anos!” “Que importa? Construiremos outro...” Quer dizer que ganhamos o que já era nosso”, retrucou Sansão... As balas sob o couro de Sansão aferroavam dolorosamente. Ele enxergava a sua frente a pesada tarefa de reconstruir o moinho de vento, e mesmo em imaginação já se atirava ao trabalho. Pela primeira vez, entretanto, ocorreu-lhe a lembrança de que tinha onze anos de idade e que talvez seus músculos não tivessem a mesma força de antes.
...Napoleão ordenou que fosse arado o pequeno potreiro atrás do pomar, anteriormente destinado ao repouso dos animais aposentados. Espalhou-se que a grama estava cansada e necessitava de uma nova semeadura, porém, logo se soube que Napoleão pretendia semeá-la com cevada.
...A rachadura do casco de Sansão levou tempo para cicatrizar... Sansão recusou-se a aceitar um só dia de dispensa, e fez questão de não dar mostras da dor que sofria... tanto Quitéria como Benjamim dizia a Sansão que não trabalhasse tanto. “Pulmão de cavalo não é de ferro”, alertava ela. Sansão, porém, não atendia. Explicava que só tinha uma ambição, ver o moinho de vento concluído antes de aposentar-se. De início, quando as leis da granja dos bichos foram elaboradas, fixara-se a idade de doze anos para os cavalos... Para os animais idosos, fixaram-se pensões generosas. Até então nenhum bicho se aposentara, mas ultimamente o assunto vinha sendo objeto de frequentes conversas. ...O décimo segundo aniversário de Sansão seria no fim do verão do ano seguinte.
...Depois que o casco ficou bom, Sansão trabalhou mais violentamente do que nunca. Aliás, naquele ano, todos os bichos trabalharam feito escravos. ...Às vezes ficava difícil aguentar as longas horas sem comer, mas Sansão nunca fraquejou. ...Apenas sua aparência estava um pouco modificada... “Sansão vai se recuperar quando crescer o capim da primavera”, diziam os outros, mas a primavera chegou, e Sansão não mudou de aspecto. Por vezes, na rampa da pedreira, quando enrijecia a musculatura contra o peso de um enorme pedregulho, tinha-se a impressão de que apenas a vontade o mantinha em pé. Nesses momentos seus lábios formavam claramente as palavras “Trabalharei mais ainda”, mas não emitiam nenhum som.
...Certa noite, no verão, correu a súbita notícia de que algo acontecera a Sansão. ...”Sansão está caído, não consegue levantar-se!” ...Lá estava Sansão, deitado entre os paus da carroça, com o pescoço esticado e sem poder sequer levantar a cabeça. Corria-lhe da boca um filete de sangue. Quitéria abaixou-se ao seu lado. “Sansão”, chamou, “você está bem?” “É o meu pulmão”, ele disse quase sem voz. “Não tem importância. Vocês terminarão o moinho sem mim. Já deixei bastante pedra aí. De qualquer maneira, só me restava um mês de atividade. Para falar a verdade, tenho estado à espera desta hora. E, como Benjamim também está ficando velho, talvez o deixem aposentar-se para me fazer companhia.”
...“Precisamos de socorro imediatamente”, gritou Quitéria. ...Mais ou menos um quarto de hora depois, Garganta apareceu, cheio de simpatia e preocupação. Disse que o camarada Napoleão tomara conhecimento, abaladíssimo, do mal que sucedera a uma dos trabalhadores mais leais da granja, e já estava cuidando de enviar Sansão para tratar-se no hospital de Willingdon. ...Durante os dois dias seguintes Sansão permaneceu na baia. ...Sansão afirmava não estar triste com o acontecido. Caso se recuperasse bem, poderia viver mais três anos, e já imaginava os dias tranquilos que passaria no rincão da pastagem. Seria a primeira vez que lhe sobraria tempo de folga para estudar e melhorar seus conhecimentos. Pretendia dedicar o resto de sua existência ao aprendizado das vinte e duas letras restantes do alfabeto.
...Era a primeira vez na vida que viam Benjamim nervoso – para falar a verdade, era a primeira vez que alguém o via galopar. “Depressa, corram!”, gritou. “Venham logo! Estão levando Sansão!” ...”Até breve, Sansão!”, gritaram. “Até já!” ...”Idiotas! Idiotas!, exclamou Benjamim, corcoveando em volta deles e ferindo o chão com os cascos pequeninos. “Imbecis! Não veem o que está escrito ali ao lado?” “Alfred Simmonds, matadouros de cavalos, fabricante de cola, Wellington, peles e farinhas de ossos. Fornece para canis. Será que não percebem? Vão levar Sansão para o carniceiro!” ...Nesse momento, o homem da boleia estalou o chicote, o os cavalos saíram a trote vivo, abandonando o pátio.
...Três dias depois, chegou a notícia de que havia falecido no hospital veterinário de Wellington...
Extraído do livro: A revolução dos bichos – Autor: George Orwell. Compre e leia o livro, vale a pena.

POESIA

Prece consoladora

Autor: Santo Agostinho

A morte não é nada.
Apenas passei ao outro lado do mundo.
Eu sou eu. Você é você.
O que fomos um para o outro, ainda o somos.
Dá-me o nome que sempre me deste.
Fala-me como sempre me falaste.
Não mudes o tom para um triste ou solene.
Continua rindo com aquilo que nos fazia rir juntos.
Reza, sorri, pensa em mim, reza comigo.
Que o meu nome se pronuncie em casa como sempre se pronunciou,
sem nenhuma ênfase, sem rosto de sombra.
A vida continua significando o que significou:
Continua sendo o que era.
O cordão de união não se quebrou.
Por que eu estaria fora dos teus pensamentos,
apenas porque estou fora da tua vista?
Não estou longe,
somente estou do outro lado do caminho.
Já veras, tudo está bem...
Redescobrirás o meu coração,
e nele redescobrirás a ternura mais pura.
Seca tuas lágrimas e, se me amas,
Não chores mais.

PROVÉRBIOS

O valor das coisas não está no tempo que elas duram, mas na intensidade com que acontecem. Por isso existem momentos inesquecíveis, coisa inexplicáveis e pessoas incomparáveis.
Fernando Pessoa

A narrativa revelará sempre a marca do narrador, assim como a mão do artista é percebida, por exemplo, na obra de cerâmica.
Walter Benjamin

Meu dilema não significa, em primeiro lugar, que se escolha entre o bem e o mal; ele designa a escolha pela qual se exclui ou se escolhe o bem ou o mal.
Soren Kierkegaard

A triste ciência se refere a um domínio que por tempos imemoriais foi considerado o específico da filosofia, porém, desde a transformação desta em método, caiu no desprezo intelectual, na arbitrariedade das sentenças e afinal no esquecimento: a doutrina da vida correta.
Theodor W. Adorno

Se queres prever o futuro, estuda o passado.
Confúcio

Um sonho que se sonha só, é só um sonho que se sonha só, mas sonho que se sonha junto é realidade.
Raul Seixas

Os livros não mudam o mundo, quem muda o mundo são as pessoas. Os livros só mudam as pessoas.
Mário Quintana

Ler não é caminhar e nem voar sobre as palavras. Ler é reescrever o que estamos lendo, é perceber a conexão entre o texto e o contexto e como vincula com o meu contexto.
Paulo Freire

O segredo é cair sete vezes e se levantar oito!
Paulo Coelho

Não busque o passado. Não espere o futuro. Observe a verdade, hoje e aqui. Investigue, apreenda e siga-a, sem medo.
Sidarta Gautama

POESIA

Lágrimas

Autora: Fernanda R-Mesquita
Contato: fernandaroc@msn.com

Gotinhas úmidas e transparentes
queimam o meu rosto cansado!
Mas não são lume!
São lágrimas fortes e quentes,
são um grito silenciado
num silencioso queixume.
São um livro fechado
tão quase depois de o abrir,
são o poema inacabado
que a meio quis partir.
E nessa lágrima transparente,
nesse silencioso queixume,
morreu o sorriso inocente
numa gotinha quente
que queima sem ser lume!

NOVELA

Machismo

Enviado por: Vitória Santos Conceição
Contato: Vitoriasantosvsc123@gmail.com

Quem poderia fazer uma novela sobre meninas que gostam de futebol? Meninas que moram numa comunidade e sonham ser jogadoras. São duas irmãs que gostam de futebol e que não tem apoio da mãe, mas o pai delas dá o maior apoio. A mãe fala que futebol é coisa de homem, já o pai fala que é para a mãe parar com esse pensamento machista, pois a gente está no século XXI. As irmãs chamam algumas amigas que gostam de futebol e armam um time feminino. Um belo dia um empresário vê essas meninas jogando é fica impressionado com tanto talento. Já numa família mais rica, um menino que mora somente com o pai. O menino quer ser bailarino, mas o pai não apoia o filho porque ele tem medo do filho sofrer agressão da sociedade machista. Mas o pai, mesmo com medo da sociedade, leva o filho para as aulas de balé. Quem sería capaz de fazer uma novela com esse assunto? Eu tenho 17 anos e sonho ser jogadora de futebol. Seria bom ver esse assunto sendo retratado numa novela. Eu tenho um time feminino aqui na minha comunidade. Amo futebol. Faço teatro também.

CONTOS

Lutas invisíveis

Autora: Fernanda R-Mesquita

A casa parecia cheirar apenas a água a ferver. Tem cheiro, a água, quando ferve? Neste caso, sim. As bolhas libertavam o cheiro da pressa. Saltavam, ansiosas por transformar as batatas em puré. Entre os meus dedos da mão esquerda um pobre tubérculo gemia, enquanto a direita manejava a faca, atingindo-o com duros cortes. A poesia... ah, a poesia ficara à minha espera. ´´ Que espere por melhores horas ``- pensei. Naquele momento a poesia era outra; a dos tachos, à luta com o meu cansaço. Mais um pouco, o derrotado tubérculo, seria um vaidoso puré de batata nos pratos, que já esperavam na mesa. Os convidados estavam ausentes. Encontravam-se na sala ao lado, mas ausentes. Eles não sentiam nem um pingo de curiosidade. Se assim fosse, teriam movido a cabeça, enquanto eu desabafava o meu enfado, batendo com mais força do que a necessária, com a colher de pau nos ombros do tacho que suava a bom suar. E o pobre pano da cozinha?
Convertido a rodilha, experimentou a força de uma mulher aborrecida. Sempre gostei de cozinhar, mas nem sempre nos momentos em que os outros me querem na cozinha. A poesia esbracejava em um outro universo, impaciente que eu lhe desse autorização de se manifestar. Que coisa! A poesia também precisa ser paciente! Não? Ela segredou-me que não. Desabafou: ´´a espera aniquila-me``. Agora comam que eu vou escrever- senti vontade de dizer. Contive-me, sentei-me na mesa. A poesia brincou de rio dentro do meu copo de água e de jardim na jarra de flores. Nem me deixava mastigar. Nunca ansiei tanto que todos terminassem de comer. ´´ Ah, mas depois de todos satisfeitos, quem arruma os pratos sujos?``- pensei levantando-me. Os pratos tremiam de medo nas minhas mãos, Elas quase que os afundavam no pobre do caixote do lixo, que por sua vez quase se engasgava, tal era a velocidade e fúria com que o obrigava a engolir os restos de comida deixados pelos convidados.
A poesia, essa coitada já desaparecera. Ocupara o seu lugar, a desilusão por eu mesma lhe ter feito o funeral. Horas depois... muitas depois. Após aquele período em que eu tentei deitar a cabeça na almofada e chamei o sono. Mas ele decidiu ficar de folga. Quatro horas a remexer-me na cama, imaginando a poesia a remexer-se no túmulo. Levantei, com todas as minhas forças, busquei a pá e decidi desenterrá-la. Não havia outro caminho. Quando a libertei, derramou-se em queixumes. Que poema triste ela escreveu! Mas depois de terminado, senti-me renovada. Que doce refrigério na minha alma! Poder desabafar num poema o que gostaria que os outros entendessem sem que eu falasse. O mundo familiar é cheio de botões secretos. Alguns nunca chegam a ser acionados. O amor enferruja, constantemente na fechadura da porta. Por vezes espreita, quase pergunta se pode entrar, mas depois, encolhe-se; lá dentro o dever ocupa toda a casa.
Uns esperam sentados, iguais a convidados que não conhecem os cantos da casa, que alguém cumpra o dever e esse alguém transpira, convencido que tem de dançar a valsa dos outros e de suportar o mundo no seu dorso.

CRÔNICA

O futuro da pátria depende da forma como se educa a juventude

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Há uma máxima, que todo o agricultor conhece: “Colhe-se o que se semeia”. Se, semeamos boa semente, e se cuidarmos da planta com carinho: livrando-a de parasitas, adubando e estrumando bem a terra, colher-se-á bons frutos: em tamanho e qualidade. Ora o que se passa com as plantas, acontece com as nossas crianças. Se quisermos sociedade: justa, honesta e sadia, teremos de cuidar da juventude. Os pais, como primeiros educadores, devem inculcar, desde a mais tenra idade, hábitos bons: ensinando-os a respeitar os mais velhos; a utilizarem as palavras e frases, que lubrificam as relações humanas, tais como: “Muito obrigado.” “Não tem de quê.” “Por favor.”… Educar não é só teoria, nem palavras, mas exemplos. A criança é ótima observadora, e repete sempre: gestos, atitudes, vocabulário e comportamentos que presenciam em casa. Mais tarde, cumpre à Escola, complementar a missão dos pais.
Não incutindo (como se faz em alguns estabelecimentos de ensino) nas mentes em formação: aber rações e imoralidades, embuçadas na manta de democracia, e muito menos, semear a depravação, sob a forma de Arte; mas, ensinando as regras: morais e cívicas, há muito enraizadas na alma da nação. Se deixarmos a juventude ser educada pela TV, sem regras, sem princípios morais e sem respeito pelos mestres, não estamos a criar, apenas, delinquentes, mas a pôr em perigo o futuro da Pátria: a formar políticos e leitores corruptos, professores imorais e juízes iníquos. A semente pode ser boa (leia-se o jovem,) mas se a terra não for apropriada, e não cuidarmos da criança, ela não dará bons frutos. Certo pastor baptista, contou-me. Num congresso em Madrid, alegoria sobre a fé e o trabalho dos crentes, que se pode adaptar à educação: Se pretendemos bons bolbos de tulipas, teremos de os importar da Holanda. Lançamo-los à terra, crescem, e darão flores perfeitas.
Mas se os guardarmos para florirem no ano seguinte, já não produzem a mesma qualidade, e no decorrer do tempo, degeneram-se, e teremos que ir à “fonte” adquirir outros. E por que degeneram? Porque não soubemos cuidar como devia. Acontece o mesmo com os jovens. Se não os educarmos para serem homens honestos, rígidos no comportamento e na moral, “degeneram “, e teremos geração de: corruptos, impostores, viciosos e criminosos. O futuro das instituições, está nas nossas mãos. Se desejamos coletividade, depravada, entregue ao vício e ao desrespeito, diremos aos nossos filhos: “Tudo vos é permitido “. Se queremos sociedade, onde impere a Caridade e o Amor, ensinemos: “Nem tudo é permitido, mas apenas o que vos torne espiritualmente melhor “. A escolha é nossa. A velha Roma escolheu o caminho da liberdade e do prazer, e sucumbiu. O que nos acontecerá, se não mudarmos de caminho?


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