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Todas as pessoas nascem livres e iguais em dignidade e direito.

A frase está bonita, mas não sei se podemos considera-la uma afirmativa correta. Muitas pessoas sequer conseguem nascer, são abortadas ainda no ventre materno pelos mais diversos motivos. Grande parte das que nascem não são livres; escravas da fome, solidão, abusos, má sorte. Nem ao menos são iguais em direitos, pois é claro que uns sempre são mais iguais que os outros desde o nascimento. Quanto a dignidade, é relativo, pois é modelada conforme os preceitos da sociedade vigente, e uma criança não tem esta dignidade, e isto não a torna indigna, ela segue apenas o modo natural de ser humano.
Então vamos reprocessar; “todas as pessoas” faz crer que são os humanos nascidos e os que irão nascer até o final dos tempos. “Nascem livres” é algo que não existe, pois a criança depende totalmente da mãe. Se for relacionar à escravidão, na forma ensinada pelo sistema, pode ser. Lembre-se de que a escravidão jamais acabou, ou pensa você que simplesmente deixará de ir trabalhar a partir de amanhã e nada de ruim acontecerá? Será castigado, e a sequência de chibatadas será maior de acordo com seu grau indisciplinar. Você poderá ficar uns tempos comendo pão seco, ir parar debaixo do viaduto, ou atrás das grades da prisão. Se persistir na indisciplina, certamente será eliminado.
Igualdade é coisa que se busca, mas “iguais” não existe. No máximo conseguiremos chegar ao parecido, semelhante, similar; mas como vemos nos produtos de farmácias e supermercados, ainda assim, entre os similares sempre existem os melhores. E na sociedade atual temos muitos valores que distinguem um similar do outro. Começamos pelo dinheiro, quem tem está na frente. Se dois tem dinheiro igual, um é mais branquinho, já desigualou. Se os dois são branquinhos, um tem pai deputado, já não são mais iguais. Os dois tem pai deputado? Mas um é líder de bancada...

O que é “dignidade”? Estamos muito envolvidos com valores recebidos pela sociedade que nos criou. É digno para o cidadão denunciar o vizinho que cometeu um crime. Na prisão, ser digno é jamais caguetar qualquer pessoa. E o que pensar a respeito da dignidade de um muçulmano ao se submeter a uma explosão na qual ele também irá morrer. Nós ocidentais, hoje, não faríamos isso, mas na época das cruzadas, fizemos. Quantos jovens se alistaram voluntariamente para as grandes guerras mundiais como prova de dignidade. É só mais um elemento que o sistemão nos apresenta e nos formata para seguir conforme a sua intensão. Cuidado! Dignidade é um modo de proceder, uma qualidade, um procedimento, uma honraria. É uma forma da sociedade te fazer sentir bem realizando o que serve para quem está no poder.
Quanto ao “direito”, existem ao menos dezenas de tipos diferentes de direitos. Muitos entrelaçando-se e outros sobrepondo-se. Não é a toa que o curso de direito tem cinco anos só para começar. Creio que a frase título da redação está se referindo aos direitos básicos do ser humano, mas como podemos fugir da utopia se logo no início da declaração universal dos direitos humanos já lemos que estamos diante de uma ambição, uma busca, uma teorização do que seria o relacionamento ideal entre as pessoas. É fato que nunca tivemos tantos direitos quanto nos dias atuais, mas estamos longe da realidade ideal. O direito ainda está intimamente ligado à capacidade financeira e política das pessoas que interagem. Vivemos jogando um grande poker no mundo, e um grande truco no Brasil.

Autor: Arnold Gonçalves


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