TEMA

Carta sobrevive na era do e-mail?

Ela acorda, sete da manhã, a alegria é intensa, vontade de falar aos quatro cantos sobre a felicidade que sentiu na noite que a pouco se foi. O motivo? O mais novo amor de sua vida, o mais recente e duradouro romance em que se envolveu. “Mandar um zap!”; pensou.

- Não! Tem que ser maior. Vou baixar uns emoticards maravilhosos para mandar.

Ele acorda, nove da manhã, nunca tão cedo, mas o dia é especial, não consegue esquecer os pegas de ontem com aquela delícia. Não vê a hora de encontrá-la novamente, sentir seu corpo tão ardente. Se continuar assim não vai querer mais largar. “Vou mandar um zapzap.”; pensou.

- Não! Tenho que impressionar. Uma carta de amor vou mandar. Ela vai babar.

Onze horas da manhã. Muita dúvida no ar. Ela já baixou muita figurinha para mandar. Ele já rabiscou muita letra e o lixo foi sempre o destino. Parece que finalmente conseguiram com o que se expressar. A paixão faz mesmo as pessoas se virarem, e as 11:15 uma linda mensagem foi para o ar via WhatsApp contendo muita “vdd”, “sdd”, “hahaha”, “Kkkk”, “Blz”, “q”, “ñ”, “#...”, para cada imagem. Na mesma hora a porta da casa bate, ele está saindo rumo ao correio, mas antes, à papelaria. Tinha esquecido que precisa de envelope.

A caminhada foi dura, agência do correio só no centro da cidade, e na papelaria algumas surpresas, teve que gastar com cola e caneta, e ainda, percebeu que precisava saber o cep dela, e o seu também.

- Tudo bem. No correio pego tudo isso.

“ESTAMOS EM GREVE”.

- Que droga é essa?

Falaram: “Faz tempo! Não sabia?”. “E agora?”. A coisa ficou séria, mas ele não pretendia ter o trabalho perdido. Ficou sabendo que numa tal papelaria vendia selo, e mais uma caminhada sob o sol escaldante à procura. Viu que tinha mensagem na caixa, mas não quis nem saber, estava puto, precisava esse problema resolver. Desprezou tudo; “Depois me mandam de novo, depois vou ver”.

Conseguiu o tal do selo, e pagou caro, muito caro para quem posta o dia inteiro pela internet e só paga de vez em quando. E se surpreendeu quando a balconista consultou a internet para pegar os cep's. “E tem isso, é! Se soubesse tinha feito eu mesmo”. Nova caminhada, o sol já rachando para lá do meio dia. Tinha que voltar, ao correio retornar. Numa caixinha de cartas depositar seu envelope e esperar. Disseram-lhe que, mesmo com greve, a correspondência ao destino iria chegar. Ele acreditou, a vontade de impressionar, de ser diferente, o fez se ludibriar.

Tarde da noite, ela chora; “Ele nem abriu”. Ele espera; “Vai me ligar assim que a carta chegar”. Disseram-lhe que tem prazo de dois dias para entregar. Noite seguinte, o telefone dele toca, ele pensa que pode ser ela, e é.

- Recebeu!

Do outro lado murmúrio, tristeza, indignação.

- Pensei que tivesse gostado de mim.

Interrogação, dúvida; “A louca deve estar de fases”. Confusão, ideias em contramão, conversa de doido, cacos pelo chão.

Quem sabe no dia seguinte o mal entendido seja reparado, depende apenas da comunicação entre dois seres apaixonados. Uma postagem rápida demais, uma outra, lenta demais. Neste mundo de eternas novidades caberá algo que dure além de alguns minutos? Existirá algo que resista ao arraste e solte na lixeira? A carta parece nascer morta, pois quando a lemos a realidade já parece ser outra.

Autor: Arnold Gonçalves

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