CRÔNICA

Os meus mortos...

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Se me ponho a pensar no tempo que passou, salta-me, com imensa saudade, à memória, infindável rosário de mortos. Tantos, que fico pensativo, a refletir: Como é possível, Deus meu, ter desaparecido os que partilharam comigo: momentos felizes e infelizes da minha existência?! … Como é possível, que familiares e amigos, que me acompanharam em êxitos e fracassos, tenham-me deixado para sempre?! Mas é verdade! … Onde estará, agora, o meu companheiro, inseparável amigo, que calcorreava, quase como peregrino, velhas e típicas ruas da Invicta Cidade do Porto? Sim; onde estará o fiel confidente, que sem pejo, revelava-me, cenas episódios, preocupações, enquanto deambulávamos, em sérias e eruditas visitas de estudo, e pesquisávamos as genealogias de nobres e ilustres famílias portuenses?! Na companhia amiga de Manuel Maria Magalhães (Alpendurada), palmilhei antigas ruas e ruelas da Cidade da Virgem; vielas e becos bafientos, evocativos de personagens camilianas, como Augusta, moradora na rua Arménia.
Onde estará, igualmente, a boa brigantina, que quase diariamente recebia-me na acolhedora salinha, de aconchegante luminosidade, onde, nas tardes frias de Inverno, ardiam brasas enrubescidas, na antiga braseira de cobre? Era elegante, meiga, sempre com o acalentador sorriso bailando nos bem delineados lábios, cor de morango. Acolhia-me, carinhosamente, de coração aberto; eu, rapaz despedaçado pelo turbilhão da vida, e receoso de incerto futuro. Tinha a bondosa senhora, três filhos; cada qual o mais encantador; todos, me transmitiam, animo, frescura e alegria de uma infância feliz. Amavam-me – disso estou certo, – com a intensidade e ternura das crianças de coração e alma pura. Por que têm os jovens de crescerem? Não seriam mais felizes, mais graciosos, e até, para eles, melhor, ficarem eternamente crianças? Aos poucos, lentamente, muito lentamente – quase sem se sentir, – tornam-se adultos.
Perdem a formosura, as linhas juvenis, a espontaneidade, amolgados pela turbulência da vida e pela sociedade hipócrita e injusta… Onde estará, agora, também, a boa madrinha Baptista, que tanto gostava de mim; e eu tanto gostava dela? Visitava-a todos os sábados. Foi no quintal, da sua casa, onde havia: pessegueiro, que todos os anos se toucava de lindas e graciosas flores cor-de-rosa; glicínia, de cachos roxos, que tudo perfumava; e maciço de roseirinhas-de-toucar, abraçadas a grade de cor parda, que na Primavera desabrochavam em pequeninas flores, aveludadas, brancas como cal, que oloravam, em ondas de perfume, todo o quintal, que passei parte da minha infância… Esse quintalzito era o meu mundo… Foi com a semanada da madrinha Baptista – chamava-a assim, mas não o era, – que comprei os meus primeiros livros e os meus primeiros chocolates. Era padre o meu padrinho. Um dia, inesperadamente, recebi um telefonema, convidando-me para passar o mês de Agosto, na sua companhia. Radiante, aceitei.
Sempre desejei viver no campo, entre flores silvestres e animais; entre árvores seculares e searas maduras, prontas para a ceifa. Nessa encantadora aldeia transmontana, reconheci sobrinho seu. Esbelto rapagão, simpático e delicado. Com ele, cavalguei entre muros xistosos, por estreitos e agrestes caminhos, que nos levavam a verde prado, que marginava singelo e plácido arroio. Nele, havia uma vaquinha mansa, de olhos meigos, frondosa figueira, que nos abrigava do sol ardente, e podia-se ver, entre a folhagem, o azul transparente do céu transmontano. Foram dias de descanso e fraternal convívio. Meu padrinho faleceu; e o jovem, também. Morreu de morte trágica. Ambos permanecem no meu coração; sepultados dentro de mim. Conto, ainda, no imenso rol dos meus mortos, a Maria: Conheci-a desde a puberdade. Passei, talvez, os melhores momentos da infância, na sua companhia. Certa manhã abalou para Africa. Carteamo-nos durante meses. Depois casou, e a correspondência extinguiu-se.
Soube da sua morte pelo telefone. Teve prolongada agonia, batalhando com doença, que não perdoa. Muitas mais figuras partilharam comigo, alegrias e tristezas, ao longo da minha longa existência; mas, as mencionadas, foram as que mais me marcaram, deixando-me na alma, dolorosas cicatrizes, que não desapareceram, porque as gravei dentro de mim.

CRÔNICA

Nem dados os quiseram

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

No início deste século, por designação do diretor de “Notícias de Gaia”, entrevistei figuras ilustres da cidade onde vivo. Certa ocasião visitei poetisa que vivia à beira-mar, numa casa com sobrado. Recebeu-me com largo sorriso e convidou-me a acompanhá-la numa chávena de chá e bolo, que acabara de sair do forno. Decorrido largos meses, retiniu o telefone - terrim, terrim… - Levantei o auscultador e ouvi voz feminina, informando que acabara de publicar um livro de poemas e que reservara-me um exemplar, pelo preço de vinte euros. Esclareci-a, que apesar de apreciar a sua poesia, não podia adquirir todos as obras, de todos os escritores e poetas que entrevistava. Amuou. Nunca mais a vi. O exórdio vem a propósito do que ouvi, a semana passada, pela boca de amigo: Falecera-lhe o senhor seu pai. Entre os largos bens que deixou, contavam-se livros que publicara, de colaboração com conhecida editora.
Repartiram os bens, e em respeito ao pai, assentaram oferecer as obras que sobraram, por familiares e amigos. Os parentes, muito agradecidos, recusaram, porque tinham muitos livros… Perguntando se não queriam exemplares, já que estavam novos, para oferecer, responderam (envergonhados,) que: não. Contactaram, então, amigos e conhecidos. Esclareceram que já possuíam alguns exemplares das obras, e não conheciam a quem pudessem interessar. Senhora, admiradora do autor, que solicitava a oferta de exemplar, sempre que saíam do prelo, balbuciando, argumentou: - “ Como sabe, tenho alguns livros dele. Já leio pouco e a maioria das minhas amigas, têm livros só para encher estantes…” Resumindo: Todos admiraram o escritor, o intelectual, enquanto viveu; assim acontece com quase todos os escritores e poetas Se são importantes e têm nome feito, na hora do funeral, comentam: - que foram amigos do defunto e contam, curiosas cenas ocorridas com eles - principalmente se está presente a mass-media.
Se é ilustre desconhecido, muitas vezes, nem aparecem e depressa o esquecem… Descendente do autor, chegou a sugerir – segundo me contou, – que vendessem os livros ao farrapeiro ou os queimassem… Todavia, quando frequentava a Universidade, orgulhava-se de ser bisneta do jornalista X. Homem conhecido e respeitado na sua cidade. É a vida…

CRÔNICA

O pudor das crianças

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Recostada na cadeira de trabalho, em contraluz, diante da camila, revestida de toalhinha cor de canela, que tapa a braseira de cobre – onde em frias tardes de Inverno, ardem brasas rubras, – a zelosa mãe, de agulha na mão, acerta os calções vermelhos, da filha amada. Pelas extensas vidraças, viradas para a cidadela, penetra leve claridade, envolvendo tudo numa doce e deliciosa paz. Luz desmaiada de fim de tarde de Verão. Lá fora, o céu azul, acarminas- se, esmorecendo lentamente, em violeta – sanguínea e luminosa poalha doirada. Silêncio. A pequena salinha adormece em doce penumbra. Tudo se desvanece num misterioso encantamento: o aparelho de TV; o armário, pintado de branco, arrimado ao fundo; a toalhinha cor de canela, a mãe; os calções encarnados…Tudo se esvanece, esfuma-se, perdido na luz acolhedora, de entardecer calmoso. Vem da cozinha, intensamente iluminada, tilintar de vidros e metais; e paira no ar, adocicado e delicioso odor a chocolate. É a filha mais velha que tem o bolo no forno.
De súbito o repousante silêncio – convidativo à sonolência, – é rasgado por harmoniosa voz juvenil: -“ Mãe!!! … Como se faz chantilly?” Um sorriso de bondade aflora nos lábios finos da progenitora. Depõe os calções encarnados, mais a agulha, sobre a mesa, e lançando meigo olhar para a filha – que de mangas arregaçadas, no limiar da porta, aguarda a esperada resposta, – diz: - “Mistura manteiga com açúcar e bate muito bem…muito bem…muito bem…Depois…” Afobada, de braços balanceando, boca a transbordar sorrisos chilreantes, olhos vivos, alagados de ternura, luzindo de felicidade, entra a caçulinha, em grande estardalhaço. Beija de fugida a mãe; abraça-a afectuosamente, como querendo dizer: - “ Gosto muito de ti! …” Espicaçada pela curiosidade, aos saltinhos, quase pardalita travessa, a menininha interroga, ansiosamente a mana querida: - “O que estás a fazer?!” Ninguém lhe responde….
Amuada, despeitada, triste, de olhos fixos no vácuo, fica pensativa, a folhear velho caderno escolar, de capa azul, de folhas enodoadas, por muito ter sido manuseado. Pela escancarada porta de vidro da varanda, entra, trazido pela brisa morna, à mistura com ruídos da rua: guinchos infantis e risos festivos de crianças. São os filhos do doutor ou do Major? Ao longe, muito ao longe, galos de voz esganiçada, anunciam que são horas de recolher…. A salinha, agora, é toda sombra. Na semi-escuridão reluzem, na carinha morena, os luminosos olhos castanhos da meiga garotinha, que permanecem parados, triste, meditativos... Por arte mágica, de repente, tudo ganha brilhos e rebrilhos e nítidos contornos. Foi a mãe, que vindo da cozinha, acendeu as lâmpadas. -“ Vamos provar?” – Diz, como se a convidasse. Nesse comenos, toca a campainha. Quem será?! É a D. Flora, professora, amiga da dona de casa.
Dá repenicados beijinhos à menina e à mãe, e atira, com quatro dedos rechonchudos, beijos à que anda à volta com o bolo, que rescende. Conta novidades: casamento da Néné; maroteiras do filho do Dr. Bento; a lotaria premiada, vendida na Praça da Sé… - “Vem menina! …Vem provar!” – Insiste, mais uma vez, a mãe, explicando, à visita, que vão a banhos para Foz de Arelho. Encolhida, envergonhada, enleada, de faces rosadas, avizinha-se; e esta sem reparar no rosto anacarado de acanhamento, levanta-lhe a vaporosa saia, deixando as calcinhas cor-de-rosa, à vista e a perna nua. Constrangida, humilhada, por se ver descomposta diante de estranhos, a pequenita fica a balancear: a brincar com os dedos das mãos…Com os dedos dos pés…Acariciando os macios cabelos castanhos de reflexos doirados; mas as maçãzinhas do rosto, enrubescem-se de pejo. A mãe é mãe. Não é “gente”. Despir-se diante dela, é normal…mas na frente de visitas…
Indiferente ao comportamento da filha, nem repara no acanhamento, e continua a conversar – num cavaquear de amigas. Este quadro familiar, tão simples, tão singelo, tão sem importância, não seria merecedor de registo, senão fosse o embaraço da mocinha. Os pais, por vezes, esquecem-se que os filhos cresceram…Deixaram de ser garotinhos. Há mães que pedem a empregadas para darem banho aos filhos, e vestem-nos diante de amigas. Olvidando que o pudor das crianças deve ser respeitado. A cena que vos trago, ocorreu há muito e muitos anos, quando os meninos e meninas eram recatados. Agora, o pudor, parece estar a desaparecer… O “progresso” deve-se, em parte, ao: ensino misto, à liberdade paterna e mormente à nefasta influência do cinema e TV. Essa á vontade, por si, não é má nem boa. Mau é quando descamba em libertinagem e desrespeito pelo corpo.

CRÔNICA

O escritor não merecia isso

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Ferreira de Castro era um menino de Ossela, Oliveira de Azeméis, que ao completar o ensino primário, abalou, em 1911, com doze anos, para o Brasil, em busca de fortuna, a exemplo de muitos portugueses do seu tempo. Após várias peripécias foi parar a Humaitá, à Vila Seringal Paraíso, em plena Amazona, onde viveu a adolescência, com gente rude, em tosca casa de madeira. Apesar das vicissitudes e dificuldades financeiras e de habitar no sertão, longe de grandes centros, de bibliotecas e de quem o pudesse compreender, veria a revelar-se um génio da literatura, granjeando o respeito de mestres, não só portugueses e brasileiros, mas mundiais. Suas obras encontram-se traduzidas e publicadas em vinte e dois países; e imortalizou-se com “ A Selva”, e com ela o rio Madeira e Humaitá. Veio-me, agora, parar às mãos, recorte da revista “Portugal”, cuja data desconheço, onde Abrahim Baze, da “ Fundação Rede Amazónica”, relata o desprezo que o Município de Humaitá tem ( ou teve) pelo escritor.
Não sei se foi por ser português. Infelizmente, ainda persiste, mormente nas gerações mais velhas e incultas, incompreensível má vontade com Portugal; talvez fruto da má-fé de professores. Felizmente os mais jovens, mais evoluídos, começaram a compreender melhor a história do Brasil e do povo europeu. Como ia dizendo, Humaitá, que ficou conhecida mundialmente, graças a Ferreira de Castro, despreza ou desprezou o escritor. Houve Prefeito que impediu qualquer manifestação ao escritor(!) Chegou mesmo a fechar a biblioteca que tinha o nome do prosador, transferindo os livros para outro edifício, mudando-lhe o nome e deixando ao abandono a casa histórica que embelezava e enriquecia a cidade. O Prefeito que assim agiu - desconheço a razão, porque o articulista não revela, - chegou a provocar a perda do acervo literário de oitenta e cinco por cento das obras da Biblioteca Ferreira de Castro. Espero que tudo seja passado, já que o recorte que possuo, não está datado.
Creio que os responsáveis que se seguiram ao médico, que governou Humaitá, sejam mais cultos e compreendam que sem Ferreira de Castro, a cidade é povoação desconhecida, perdida na imensa selva amazónica.

POESIA

Doce lembrança

Autor: Carlos Borges

Foi numa tarde,
eu bem me lembro...

O sol brando,
as nuvens esparsas no céu como em mês de setembro,
De súbito me apareceu;
Brilhava o olhar,
cabelos entrelaçados sobre as costas,
sorriso cintilante,
estavas partindo.

E que esperança me daria?

A esperança de em breve voltar?

A esperança de me fazer feliz?

Fito meus olhos nos teus olhos,
ligo meu pensamento no seu;
Dá-me um beijo e lá se vai deixando em mim a marca da saudade;
Fico fitando apenas o céu.

O carro parte,
e sufocado pelo ronco do motor meu coração dispara,
se reprime no peito.

Uma mistura de saudade alimenta a realidade.

Quem sabe a realidade disfarçada pelo sentimento abraçam o meu ser.

Até o sol parece se conter abafado pelas nuvens para não me ver chorar.

Em minha vida também se vai o sol que a alumia;
Quando voltarás meu sol!?

Não deixe que as nuvens da distancia ocultem o nosso amor e sufoque o nosso coração!

O amor é maior que a distancia,
ela não o pode destruir;
Mais elevado que o céu,
ela não pode ultrapassar;
mais imenso que o mar,
e mais que tudo é que te amo.

CRÔNICA

Solilóquio com o meu eu

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Dos prazeres peculiares do avô Alberto, um, era viajar só, para o litoral paulista. Ia sozinho, sem mulher, sem filhos, sem netos e quase sem bagagem. Ficava na casinha pitoresca de Itanhaém: entre a praia dos Sonhos e a secular Pedra do Anchieta. Sentado à sombra refrescante do imponente alpendre ou na luxuriante vegetação do jardinzinho: lia, escrevia, reflectia e mantinha eruditos solilóquios. Não eram bem solilóquios, mas conversações, travadas animadamente com o outro eu. Era espiritista – chegou a ser director de jornal exotérico, – mas abandonara há muito as sessões espíritas. Asseverava que só personalidades fortes deviam assistir e participar; os outros correm sérios riscos de contraírem medos ou graves perturbações psicológicas. Nunca levou familiares ao Centro Espírita. Excepto uma neta. Nas interessantes conversas com o outro eu, não havia espíritos nem mensagens do Além. Eram diálogos em que cavaqueava com ele próprio, em voz baixa ou em pensamento.
Comentava o que estava a ler. Dialogava pareceres Criticava opiniões. Discorria sobre vários temas, que podiam ir da educação à violência no lar ou na via publica. Nessas palestras, no intimo sossego da casa de praia – que as filhas adquiriram., – passava, enlevado, horas sem fim. Ele próprio cozinhava. Quase sempre batatas cozidas com bacalhau. Prato que aprendera, na mocidade, com a mãe, em Portugal. Por vezes – segundo dizia, – se as conversas descambavam para a política e temas prosaicos. Logo as interrompia. O outro eu era condescendente. Aceitava sem discutir, sem contrariar… Desses curiosos colóquios saiam interessantes ideias e meditações de elevada espiritualidade. Certa tarde de Janeiro, na casa de Alto de Pinheiros, confessou-me à puridade: - Infelizmente não posso contar, a todos, o prazer que sinto nesses dias que passo sozinho. Não compreenderiam…Chamar-me-iam: doido. Mas é exercício salutar e enriquecedor… Sei que o é. Quantas vezes surpreendo-me a dialogar com o outro eu.
Sempre que acontece, fico a compreender melhor o que é a vida, e o porquê de muitas coisas… Só o isolamento e o silêncio podem dar esse sublime prazer.

CRÔNICA

Desabafo de um escritor

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Tenho um amigo que é escritor. Bem: não é propriamente escritor, mas cronista. Rabisca artigos no jornal da terra onde nasceu. É homem simples, humilde, mas de grande valor. Escreve com graça e a prosa é de leveza encantadora. Todos o gabam. Quando visita a cidade natal é recebido com efusivos abraços. Batem-lhe nas costas com entusiasmo e dizem alegremente: - “És um grande jornalista! Não sei onde vais buscar tantas coisas! … Meu amigo alegra-se com tantos elogios. É o médico, o jurista, o professor…até o doutor juiz gaba-lhe o talento… Uma tarde de Maio, já o Sol escondia-se no horizonte, ensanguentando o mar azul, encontrei-o à beira-mar lendo livro de capa negra e folhas doiradas. Era uma Bíblia… Sentei-me a seu lado. Depôs o livro na mesa da cafetaria, e enquanto louvava-lhe os curiosos artigos, o Alfredo (assim se chama o meu amigo,) declarou-me: - Sou um escrevedor! Escrevo para entreter. Nada me dá mais prazer do que passar para o papel branco o que penso…
Como lhe recordasse o interessante e erudito artigo sobre Molière, respondeu-me de olhos baixos e ar tristonho: - O que me desgosta é o facto de minha mulher não me apoiar. Já não digo incentivar. Nunca lê o que escrevo e a cada passo diz: “ Estás sempre de esferográfica na mão! … Ainda se te pagassem…” E meus filhos fazem o mesmo… Como lhe dissesse, para animar, que não é por mal. São jovens… Não compreendem… Vagueou os olhos pela praia deserta, e prosseguiu: - Outro dia, artigo que publiquei, foi transcrito por matutino da Capital. Fiquei como um cuco. Logo mostrei a minha mulher e aos filhos. Ela olhou e disse: “ Está bem…” e continuou no maneio da casa; meus filhos voltando-se para mim, disseram com indiferença: “ Parabéns! …” e saíram discutindo o último jogo da “Selecção”… Ao retirar-me, avizinharam-se uns homens, que o cumprimentaram cordialmente, convidando-o para passeio higiénico na praia. - Homem, deixa-te de livros! …Letras são tretas! Vive! Passeia! Diverte-te!
A vida são dois dias…e este já está na conta! Isso até te faz mal à vista! …Vem viver! … Como o Alfredo, muitos artistas de valor, lamentam-se que os piores leitores e ouvintes, são os familiares e amigos – os que repartem a mesma sala, o mesmo quarto de banho, a mesma casa…

POESIA

Amor e natureza

Autor: Carlos Borges

Noite de se encantar,
caminhávamos rumo ao mar,
impetados pelo vento;
o qual brincava na areia,
cantado canções murmurias inéditas no universo.

Na imensidão do infinito,
surgiu o brilho bonito,
da lua ao despertar e vindo beijar o mar;

E eu por minha vez calado,
vendo teus cachos dourados agitados pelo vendo sobre o brilho do luar.

Seguimos pela encosta,
adormecemos na areia,
vivemos nos sonhos o amor;

Ouvi o murmurio do mar as suas vagas incessantes,
você bela deslumbrante que a noite que o céu que o mar!

No outro dia bem cedo sobre as águas a boiá vi uma linda rosa branca;
o bom dia do oceano sem dúvida,
não houve engano aquela flor a quis dá.

Apanhei a linda rosa e pus em seus cabelos;
o mar em sua gratidão na solícita solidão mostrou-me o amor verdadeiro.

CRÔNICA

Quem é vertical dificilmente passa da cepa torta

Autor: Humberto Pinho da Silva
Contato: humbertopinhodasilva@gmail.com

Na nossa terra só tem valor quempensa como nós. Quando se aprecia um escritor ou interprete, primeiro procura-se saber: “ De que partido é? …” Se tem as nossas ideias, é mestre, se não, tem habilidade ou não passa de coitadinho, que se põe em bicos de pés… Vem o introito a propósito da conversa travada por meu pai e conhecido político, amigo de infância.
Vários intelectuais lisboetas ou que viviam em Lisboa, em encontros ou por carta – nesse tempo ainda não havia Internet, – não se cansavam de dizer: “ Por que não desce à Capital? Seus artigos são magníficos! Tão bons como os de Ramalho!... Mas enquanto não escrever em periódico da Capital, ninguém lhe dará valor…” Acicatado por esses confrades, resolveu, certa tarde, visitar amigo de infância, que se tornara importante político.
Bateu-lhe à porta e foi recebido de braços abertos: - Por que não apareces mais vezes? …Contigo não faço cerimónias… Meu pai agradeceu a gentileza e disse ao que vinha: que ilustres professores e reconhecidos intelectuais, não se cansavam de elogiar os artigos, e diziam-lhe para descer à Capital… - Mas como? Se não conheço proprietário ou diretor de grande jornal que queira apadrinhar? … - Ó Mário: Eles têm razão…
– Meu pai ia-lhe lendo frases de cartas que recebera de sonantes nomes da literatura portuguesa. - Tenho lido a tua coluna no matutino que compro, e francamente te digo: És excelente! … Meu pai estava radiante. Bastava cartão-de-visita do amigo, com algumas palavras, para que revistas e jornais de expansão nacional abrissem-lhe as portas… e as janelas… Mas quando assim pensava, ouviu este desabafo: - Mário: Tu sabes que não sou homem de Igreja. Sou ateu por convicção e militante de esquerda.
Como queres que recomende católico praticante e ainda por cima colaborador de jornais de direita! …Deixa, pelo menos, o semanário X, e pode ser que te encontre um diário de Lisboa. Mas vê lá o que vais escrever! …Tens que apimentar a prosa e escolher temas que agrade ao povo…Compreendes? … Meu pai agradeceu a cortesia, mas preferiu continuar a ser jornalista nortenho, que trair sua crença e seus princípios.
Saiu de cabeça erguida, mas condenado a ser sempre intelectual de província… porque não desceria à Capital… Se aceitasse, certamente teria alcançado fama. Os editores disputariam seus livros e os críticos agnósticos, teceriam louvores ao mestre. Seria premiado e aplaudido pelo povo acéfalo, que correria ao livreiro para adquirir a obra que a crítica da “ capelinha” diria ser best-seller.
Seria tudo, mas a crença e a consciência não lhe permitiram “ apimentar” a prosa nem deixar de escrever artigos de inspiração cristã. Morreu como escritor e jornalista nortenho… mas morreu em paz…


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