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... A poesia de Mario Quintana é marcada pelos seguintes aspectos: individualismo, intimismo, misticismo, sentimentalismo, melancolia, nostalgia da infância, valorização da imaginação, finíssimo senso de humor, musicalidade e simplicidade. Quanto à temática, podem-se visualizar aspectos como o sonho, a fantasia, o devaneio, o encanto, a humanidade, a existência e a morte, o carinho, o aconchego, a pureza, a rua e a cidade e _ sobretudo_ o mundo infantil. Dentre esses aspectos temáticos, a relação com o tempo e a memória ocupam lugar privilegiado. A memória, intrinsecamente ligada ao fluir contínuo do tempo, é o recurso utilizado pelo eu-lírico para sustentar um passado eivado de experiências prazerosas, metáfora do paraíso perdido. Negando e rechaçando o presente, o tempo do mal-estar, o sujeito lírico quintaneano volta-se para o passado, retornando, por meio da memória, para um tempo primordial em que sua relação com o mundo era harmoniosa e plena. Esse tempo é representado, quase sempre, pela infância, pela idade tenra, celebrada com um olhar saudosista e melancólico, uma vez que, embora persista no sujeito adulto, jamais pode ser resgatada, revivida. Resta ao eu-poético somente rememorar, reviver com as lembranças, as experiências de outrora conservadas na memória . O soneto VIII de A rua dos cataventos (1940) é ilustrativo desses aspectos: Recordo ainda... E nada mais me importa...
Mas veio um vento de Desesperança
Estrada afora após segui... Mas, ai,
Eu quero os meus brinquedos novamente!
O poema se inicia com uma ênfase na recordação, colocando a memória da infância acima de qualquer outro fenômeno: “Recordo ainda... E nada mais me importa...”. O poema é construído num jogo dialético de oposições entre o passado e o presente, entre a criança e o adulto, de forma que a síntese final é estabelecida com a fusão das duas idades: “Sou um pobre menino... acreditai... / Que envelheceu, um dia, de repente!...”. O eu-lírico continua menino, apesar das transformações impressas pelo tempo cronológico, apesar das experiências acumuladas ao longo de sua trajetória existencial: “Estrada fora após segui... Mas, ai, / Embora idade e senso eu aparente, / Não vos iluda o velho que aqui vai:”. O sintagma nominal “pobre menino [...] que envelheceu” confirma essa síntese criança-adulto. Observa-se que seu núcleo é “menino”, enquanto a expressão “que envelheceu” funciona simplesmente como modificadora desse nome, um atributo, uma qualidade que pode ser reduzida ao adjetivo envelhecido; portanto, um pobre menino envelhecido, mas que conserva a infância suspensa, aqui representada no sintagma “brinquedos”. Tal expressão é recorrente ao longo do texto e evidencia o apego do eu-lírico a essa fase que não se esvaiu de sua vida; a criança continua vivendo no adulto melancólico. A diferença entre passado (infância) e presente (velhice) é demarcada por meio da qualificação presente nos versos 02 e 06. Enquanto aquele é nomeado como tempo de claridade e de paz (“Aqueles dias de uma luz tão mansa”), este é matizado pelas cores da melancolia, da tristeza (“Soprando cinzas pela noite morta”). Este é o tempo do mal-estar, tempo de morte e de reticências; aquele, por sua vez, é o tempo da liberdade, da ludicidade, da criação, da vida. Essa oposição é ainda acentuada pelo uso da adversativa “mas” no início da segunda estrofe, em que se contrapõe o tempo dos brinquedos novos ao tempo da anulação dessa fase lúdica, assim como no primeiro verso do primeiro terceto quando o eu-lírico introduz uma concessão: mesmo dotado de experiências e idades, o ser criança não o abandonou. ... Extraído do trabalho: Baú de eternos tesouros: aspectos da lírica memorialística de Mario Quintana.
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