O manual do poeta

... Ao longo de sua criação poética, através dos versos que compôs durante sua vida, Mario Quintana tinha consciência da função do poeta no processo artístico. Muitas vezes se autodenominado louco, marciano, nobre animal e saltimbanco, o poeta era, contudo, um artífice criador. Essa denominação decorre do fato de que Mario Quintana entende que o mundo da arte apresenta-se como uma recriação, cabendo ao poeta apenas a tarefa de mostrar o mundo de acordo com a sua própria percepção da realidade. Em “Olho as minhas mãos” (Apontamentos de História Sobrenatural), o escritor gaúcho reconhece que todas as coisas, de uma maneira geral e silenciosa, existem por si mesmas e de forma independente:

No mundo há pedras, baobás, panteras,
Águas cantarolantes, o vento ventando
E no alto as nuvens improvisando sem cessar,
Mas nada disso tudo diz: “existo”.
Porque apenas existem...
(...)
E, cheios de esperança e medo,
Oficiamos rituais, inventamos
Palavras mágicas,
Fazemos poemas, pobres poemas
(QUINTANA, 1976, p. 398-399)

Nesse texto, Quintana adianta o papel do artífice como recriador desse mundo movido pelo sentimento “cheios de esperança e medo”, que o impulsiona à criação artística. Também em “Apenas” (Porta Giratória), o autor chama ao poeta criador, mas atribui um sentido secundário à sua função (de recriador), já que se limita a revelar aos indivíduos tudo o que lhes passa despercebido: “O criador – seja ele um romancista, um cineasta, um pintor, um poeta – não cria coisa alguma. E num mundo onde as coisas já existiam, o verdadeiro criador se limita apenas a mostrar tudo aquilo que os outros olhavam sem ver.” (QUINTANA, 1988, p. 841). Nesse caso, o autor coloca o artífice numa condição de superioridade em relação aos demais indivíduos, destacando a sensibilidade do seu olhar atento, capaz de reapresentar e representar para os homens o próprio mundo que os rodeia e que não é por eles notado com a mesma profundidade. ...


Extraído do trabalho de pós graduação em Letras: O manual do poeta: Mario Quintana e a criação poética.
Autoria de Ângela Maria Garcia dos Santos Silva - PUC Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul