Em busca do tradutor: Proust e Mérimée por Mário Quintana

... Qual seria então a posição tradutiva de Mário Quintana? O poeta pouco se manifestou sobre seu trabalho de tradutor, embora tenha traduzido muito. Ser poeta e contista lhe conferia, sem dúvida, uma maior sensibilidade lingüística, a língua escrita era seu ambiente. Antes, porém, é preciso lembrar que traduzir era, para Quintana, também um meio de ganhar a vida, mas não só isso. ...

... Sua posição tradutiva parece se esclarecer ainda mais quando relata o porquê de sua saída da Globo, onde trabalhara por mais de vinte anos. E nesse episódio depreende-se também o que seria em Quintana aquilo que Berman nomeia a posição escritural do tradutor, ou, em outros termos, sua relação com a escrita e as obras:

"Quando houve o primeiro aumento geral, fui o único a não ser aumentado. Naturalmente, tomei satisfações. A resposta que me deram foi que eu levava muito tempo na tradução. “Você, afinal, levou quatro meses para traduzir um volume”. Ora, eles não compreendiam que eu tinha que demorar tanto tempo quanto Proust levara para escrever o original, para fazer uma tradução digna. Queriam que eu traduzisse com a mesma velocidade com que traduzia romances sem civilização nenhuma, ditados para uma estenógrafa em uma semana. Por causa disso, abandonei minhas funções de tradutor na Globo e fui trabalhar no Correio do Povo." ...

... Observe-se a seguinte passagem de Carmen na tradução de Roberto Gomes:

Se não havia fumado há muito tempo, me pareceu verossímil que não havia comido ao menos nas últimas quarenta e oito horas. Devorava como um lobo faminto. Julguei que nosso encontro havia sido providencial para o pobre diabo.

Assim lemos este trecho na tradução de Quintana:

Se há muito que ele não fumava, pareceu-me verossímil que não comia há quarenta e oito horas, pelo menos. Concluí que o meu encontro fora providencial para o pobre diabo.

O texto de Quintana é mais enxuto, não explica certas impressões e declarações. Ao longo da leitura dos dois textos traduzidos, encontramos outros exemplos deste tipo, o que evidencia a posição pessoal de Quintana no que diz respeito à tarefa de traduzir. Quintana não clarifica a narrativa de Proust, interrompendo o fluxo do texto com explicações ou paráfrases que privilegiariam o sentido em detrimento da letra do original. ...


Extraído do trabalho: Em busca do tradutor: Proust e Mérimée por Mário Quintana.
Autoria de "Cláudia Borges de Faveri" e "Eleonora Castelli" - Universidade Federal de Santa Catarina