... RICARDO VIEIRA LIMA – O espetáculo de dança Quintana, do Ballet Contemporâneo do Rio de Janeiro, apresentado no ano passado, nesta cidade(Porto Alegre), foi sucesso de público e de crítica. O que essa homenagem significou para o senhor?
MARIO QUINTANA – Fiquei muito orgulhoso, mas não vaidoso. Ouvi dizer que o espetáculo é muito bonito. Mas me incomodam as homenagens: geralmente são feitas para nos mostrar que o nosso fim está próximo, e que faremos falta. Certa vez, a prefeitura de Alegrete, minha cidade natal, inaugurou um busto meu na praça principal, e o prefeito, na época, convidou-me para redigir palavras que seriam gravadas numa placa de bronze, abaixo do busto.Eu o adverti: “Um engano em bronze é um engano eterno!” E preferi que eles gravassem essa frase, pura e simplesmente. Para mim, o único ponto realmente positivo numa homenagem é que, com essas manifestações de carinho, a figura do poeta, em si mesma, é cada vez mais reconhecida. Eu costumo dizer que, antes, ser poeta era uma agravante. Depois, passou a ser uma atenuante. Hoje, ser poeta é uma credencial. ...
... RICARDO VIEIRA LIMA – O senhor morou em hotéis durante quase toda a sua vida. Hoje mesmo mora em um hotel. Por que o senhor cultiva esse hábito tão singular?
MARIO QUINTANA – Porque não gosto de incomodar a família. Vivo em mim mesmo. Gosto dos hotéis, esses estranhos e fascinantes lares, onde fico livre das coisas práticas, e pronto para a poesia, que me visita, sempre, nas madrugadas, quando ninguém visita, ninguém telefona e ninguém fala. Nos hotéis, me sinto isolado do mundo, como se estivesse numa redoma. Morei durante 12 anos no Hotel Majestic. Depois, fui para o Hotel Presidente, Hotel Royal, e hoje moro no Porto Alegre Residence Hotel, com minha sobrinha-neta Elena, que cuida de mim junto com minha enfermeira e amiga Mara. ...
Extraído do trabalho: Centenário do nascimento de Mario Quintana: O poeta, o poema, a obra e a entrevista.
Autoria de Ricardo Vieira Lima - Guardados da memória - Alegrete RS
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